Pérolas do cinema moderno, por Alder Teixeira

Desde que Abbas Kiarostami realizou Shirin (2008), um filme absolutamente genial, pensava-se que a originalidade em termos cinematográficos atingira finalmente o seu auge. Afinal, o que fazer mais com a câmera para além de conceber um filme que, enquanto espectadores, não vemos, mas ao qual assistimos pelos olhos de 114 mulheres mostradas aleatoriamente durante uma sessão de cinema? Tentando ser mais claro: O filme, com duração de 92 minutos, gira em torno de uma adaptação para cinema de um poema persa do século XII que narra um triângulo amoroso da personagem de mesmo nome.

Até aí, nada de novo, não se tratasse de um filme que, ao invés de mostrar o transcorrer da história através das imagens projetadas na tela, tem sua narrativa circunscrita à reação da plateia dentro do próprio filme, predominantemente constituída de mulheres (os homens têm seus rostos cortados pelo enquadramento), quase todas interpretadas por atrizes iranianas desconhecidas do público ocidental. A única exceção é a conhecidíssima atriz francesa Juliette Binoche, como a revelar a intenção do cineasta de mostrar que se trata de uma obra ficcional.

O efeito, claro, é desconcertante. Depara-se, no caso, com um filme sobre a beleza do rosto feminino, o que não é, por si só, um fato desimportante na perspectiva de uma sociedade islâmica teocrática. Essa transgressão, no entanto, não se limita ao contexto oriental que sempre foi objeto dos questionamentos culturais de Kiarostami. Pelo contrário, também para o público do Ocidente o filme desloca seu eixo de atenção para o elemento feminino, e leva-nos a repensar os valores por que temos orientado a vida no que diz respeito a relação homem/mulher.

Num tipo de sortilégio de que só a arte é capaz, o cinema em particular, “vemos” um filme que rigorosamente “não se vê”, confundimos, como em experiência de enlevo, os planos da reação e da representação; emocionamo-nos não com algo que vemos em sua materialidade visual, uma vez que tão-somente ouvimos sons esparsos, gritos, vozes, cascos de cavalo, relinchar, batidas de espada, sons de água a gotejar, e, como a dirigir nossas emoções confusas e mal definidas, uma música de roubar o fôlego de tão bela, toda ela pontuada pela oscilação de luz maravilhosa, o que realça a beleza de cada rosto enquadrado pela câmera.  Um filme concebido e realizado exemplarmente, como a dividir a história do cinema em duas águas.

Pois bem. Eis que deparamos com um filme dinamarquês, não menos original, de nome pouco feliz: Culpa, de Gustav Möller, uma verdadeira aula de cinema em cartaz nas principais salas de exibição da cidade.

Focado em sua totalidade na figura da personagem Asger Holm (Jakob Cedergren), um policial retirado das ruas depois de assassinar um bandido, e agora sentado diante de telefones e computador, o filme gira em torno de pedidos de ajuda de pessoas comuns que, como em Kiarostami, apenas ouvimos e com cujas dificuldades passamos a nos envolver a partir das próprias reações do protagonista. A interpretação de Cedergren, à maneira teatral de Stanislávski, é tecnicamente perfeita.

Em quase duas horas de duração, pois, a câmera apenas acompanha o trabalho do policial Asger Holm: tentar ajudar pessoas envolvidas com problemas diuturnos, pequenos acidentes, brigas de casal, e, já no fim do plantão de Holm, o telefonema de um mulher que se diz objeto de um sequestro e de ter sua vida e dos filhos sob ameaça do ex-marido.  O crítico é um spoiler.

O filme, assim transgressor em sua concepção formal, poderia se tornar enfadonho, o que é quase uma realidade em seus primeiros 15 minutos, não mais. Daí em diante, sempre com a ação em off, torna-se uma obra-prima como um filme “fora de campo”. O roteiro é irrepreensível, o trabalho de ator notável, o ritmo dramático absolutamente correto, o final surpreendente, como a demonstrar que, em termos cinematográficos, na contramão da antológica afirmação de François Truffaut, nem todos os grandes filmes foram ainda realizados.

Tal qual Shirin, do iraniano Abbas Kiarostami, Culpa, de Gustav Möller, ao rever os meios com que se faz o grande cinema, entra para a história da sétima arte como uma obra rara, bastante para colocar seu realizador entre os maiores cineastas da modernidade.

E reatualiza a afirmação, equivocadamente atribuída a Glauber Rocha, de que “cinema é uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”. Um filme soberbo.

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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