PÉROLAS AOS PORCOS? – Alexandre Aragão de Albuquerque

Uma das contribuições do cristianismo para a cultura Ocidental é a concepção do amor como “querer o bem do outro”. Aquele que ama doa de si mesmo para criar as condições de felicidade, tornando-se totalmente um ser-para o amado. Esse esvaziar-se constantemente para preencher o outro de amor é plenificado pela reciprocidade com a qual o outro retribui o dom recebido. Eis, em resumo, a base amorosa da dinâmica trinitária: constante movimento de abertura recíproca à multiplicidade da vida que brota do Ser.

Diante da degradação extrema do debate público introduzido pelo capitão, e por sua claque, desde a sua posse em primeiro de janeiro, ontem me coloquei a reler algumas passagens brilhantes da geóloga Alcina Magnólia Barreto, da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, sobre o longo tempo amoroso pelo o qual a Terra favoreceu as condições de felicidade para que humanos pudéssemos receber a vida em nós.

Em seus estudos sobre o Período Cretáceo, que é o intervalo de tempo da história de vida da Terra que vai desde 144 milhões até os 66 milhões de anos atrás, a professora nos ensina que este período foi marcado por grandes transformações no meio físico, com a separação do continente Gondwana resultando no surgimento da América do Sul, África, Índia, Austrália e Nova Zelândia, sendo o Nordeste do Brasil, mais precisamente os estados da Paraíba e Pernambuco, a última parte a se fragmentar; e por grandes transformações no meio biótico, com a extinção de animais de sangue frio, incluindo os dinossauros, e com a diversificação de muitos outros, permitindo a chegada dos Primatas. É dessa época que surgem as jazidas de petróleo – do pré-sal e pós-sal –, a Floresta Amazônica, com o favorecimento da diversificação dos mamíferos para que, 65 milhões de anos depois, emergisse a nossa espécie humana.

Magnólia conclui seu pensamento com uma advertência que me parece muito pertinente para o enfrentamento político que estamos vivendo desde o Golpe de 2016, agora exagerado pelos sofismas disparados pelo capitão em seu desgoverno. Sem a honestidade intelectual e moral aliada a uma profunda compreensão dos processos vivenciados pela Existência ao longo desses milhões de anos, corre-se o risco de tornarmos o nosso Presente sem sentido. Somos um todo com a Existência. A insensibilidade e ignorância sobre esses processos geológicos de formação e transformação da vida, verdadeiras pérolas preciosas, pode nos levar a um tipo de existência vil. Afinal, não somos apenas Cultura, somos também e antes de tudo, Natureza.

Ontem no Congresso brasileiro, o senador Fabiano Contarato (REDE – ES), pronunciou-se de forma contundente em oposição às “fake news” que a claque bolsonarista se empenha em querer consolidar como “verdade” pelas redes sociais. Contarato refutou veementemente a falácia lançada em plenário por Flávio Zero Um insinuando que o problema da Amazônia ocorre há muitos anos em outros governos. “Isso não é verdade”, disse o senador. “O atual presidente [Bolsonaro] queria ACABAR COM O MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Não conseguiu de direito, mas está acabando de fato. Ele terminou com a Secretária de Mudanças Climáticas; acabou com o setor de combate ao desmatamento; ele acabou com o departamento de educação ambiental; o CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente é o órgão que cria normas e determina padrões compatíveis com o meio ambiente ecologicamente equilibrado e essencial à sadia qualidade de vida) que tinha 105 integrantes com representantes de todos estados da federação passou a ter APENAS 23, com a maioria composta por membros do governo”. Complementou o Contarato: “O desmonte do meio ambiente começou desde que o governo Bolsonaro foi eleito”.

Em outro espaço político, também no dia de ontem, o governador do Maranhão, Flávio Dino, no encontro dos governadores da Amazônia Legal com o Executivo Federal, em Brasília – DF, foi enfático ao afirmar a necessidade de uma ação consorciada para o enfrentamento da questão ambiental, pois o diálogo com outros países é imprescindível: o isolamento no cenário internacional exporia o Brasil a sanções comerciais da mais alta gravidade. Dino traçou sua intervenção em três eixos. Primeiro a necessidade da retomada do FUNDO AMAZÔNIA, uma ferramenta da qual não se pode abrir mão, não se rasga dinheiro. Há projetos, no caso maranhense da ordem de R$33 milhões, para combate a incêndios florestais, que aguardam a apreciação por parte dos gerentes do Fundo. Em segundo lugar, é preciso agir para uma Amazônia sustentável. Não é com “DISCURSO DE TERRORISMO ANTI-AMBIENTAL” que se chegará a tal fim. Não se pode demonizar as intervenções de organismos não-governamentais, é preciso separar o joio do trigo, não será ateando fogo nas ongs que se salvará a Amazônia. E por último, não se pode rasgar a Constituição, pois a Soberania nacional não é um slogan, não se afirma retoricamente, mas mediante o cumprimento das obrigações constitucionais. Uma dessas obrigações é o reconhecimento dos povos indígenas como brasileiros e brasileiras detentores de direitos a serem respeitados.

Por fim, o general Santos Cruz, no dia 24 de agosto, postou em sua página do twitter, uma pergunta e uma insinuação. “Por que o Brasil não lidera a discussão sobre a Amazônia com os países que fazem parte da área amazônica?”. E a insinuação veio em seu arremate: “Tem de combinar ação, liderança e inteligência”. Parece que, na visão do general, nenhum dos três atributos são contemplados por aqueles que compõem o Executivo Federal. Aproveitando uma passagem do pensamento cristão, vê-se que as pérolas preciosas contidas na Amazônia continuarão sendo desmatadas por porcos.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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