Fonte da foto da internet

PERIFERIAS DE FORTALEZA: ENTRE A LÓGICA DA EXPULSÃO E A BRUTALIDADE DA REPRESSÃO

A economia política global é marcada pelo advento de novas lógicas de expulsão.  Nas últimas décadas é incontável o número de pessoas e lugares expulsos das ordens sociais e econômicas centrais de nosso tempo. A socióloga holandesa Saskia Sassen argumenta que essa dinâmica pode ser provocada pelo desenvolvimento de elevado padrão tecnológico que impacta os processos produtivos e a cadeia de serviços, excluindo milhões de trabalhadores do trabalho formal e da proteção social. Por outro lado, pode refletir a adoção pelo Estado de políticas de austeridade, ancoradas na lógica neoliberal, permitindo que seja instaurado um verdadeiro processo de seleção selvagem em nossas cidades, tornando invisíveis os “perdedores” das políticas de ajuste permanente.    

As cidades contemporâneas são verdadeiros caleidoscópios de gentes e formas de existência, ambientes atravessados pela polissemia própria de vidas que se entrecruzam e buscam sobrevivência, visibilidade e reconhecimento no espaço urbano marcado por desigualdades de variadas ordens (econômicas, sociais, culturais, ambientais). Essas definem o processo de produção urbana de Fortaleza, caracterizado pela exclusão social em que grande parte de seus territórios não possui infraestrutura adequada, dificultando o acesso das pessoas que vivem nesses espaços a serviços básicos de saúde, saneamento e educação.  Cidade cuja formação remonta a longos processos de expulsões e espoliação urbana.

O Residencial José Euclides Ferreira Gomes, desde que as primeiras famílias começaram a ocupar suas casas em 2017, é caso emblemático dessa realidade descrita. Construído para atender pessoas em situação de maior vulnerabilidade social, que habitavam regiões da cidade com infraestrutura urbana precária, hoje constitui verdadeiro enclave no bairro Jangurussu, inserido em território que carece de equipamentos como escolas, creches e postos de saúde. Assim, a conquista da dignidade em viver na cidade é uma luta constante para os moradores desse território. No último ano o quadro se agravou devido aos efeitos da pandemia da COVID-19.

Para muitos moradores do residencial foi impossível permanecer em isolamento social, pressionados pela necessidade de garantir sua sobrevivência. Levando em conta as diferenças entre os diversos bairros da cidade, as desigualdades sociais e de renda, o acesso às condições sanitárias e de saúde, torna-se evidente que os efeitos mais dramáticos do desemprego, da crise sanitária e de saúde pública, agravadas pela pandemia do novo coronavírus afetam, sobretudo, os mais frágeis que vivem nas periferias das cidades, áreas mais atingidas pela disseminação do vírus e sua letalidade.

Mas, este território também encarna diversas formas de resistência. É lá que múltiplas vozes emergem, através de experiências juvenis criativas e artísticas, denunciando violações diárias de direitos e ações arbitrárias impetradas pelas forças policiais às juventudes de espaços vulnerabilizados como o que vivem. Lançam nas redes sociais alertas sobre o enfrentamento às formas de violência do Estado, às diversas “exclusões” e expulsões cotidianas, a quase inacessibilidade aos mundos do trabalho, a imposição da invisibilidade social.

Nesta sexta-feira, 26 de novembro, mais uma vez a violência se abateu sobre as pessoas que lá vivem. Em ação coordenada pelos governos estadual e municipal, a Polícia Militar do Ceará, de forma repressiva, garantiu que agentes públicos e privados derrubassem pequenos comércios informais erguidos pelos moradores e realizassem cortes de fornecimento de água e energia elétrica de famílias que não reúnem condições para pagar pelos serviços. Importante ressaltar que essas pessoas estão enfrentando todo tipo de privação, num momento em que metade da população do país se encontra em situação de insegurança alimentar e mais de 20 milhões de pessoas sofrem com a fome.

O desemprego e o rebaixamento geral da renda do trabalho têm lançado muitas famílias do residencial numa situação de alto endividamento, o que tem impedido o pagamento do financiamento de suas casas e, muitas vezes, da própria alimentação. Daí a multiplicação de atividades informais e precárias no interior do próprio conjunto habitacional. Vale lembrar que o José Euclides está em total abandono, com várias ruas com esgotos estourados, sem iluminação e coleta de lixo. Não é exagero apontar o Estado como o maior violador dos direitos humanos neste território, e a forma de agir é o racismo ambiental. 

A superação dos obstáculos para garantir adequadas condições de habitação, bem como o direito à cidade, possibilitando às populações periféricas viver numa cidade mais justa e democrática parece ser um de nossos grandes desafios enquanto sociedade. Para isso, no entanto, será necessário mais do que governos que se autoproclamam progressistas. Vencer a lógica das expulsões, superar a racionalidade neoliberal e a necropolítica do Estado encarnada na violência sobre os corpos periféricos, exigirá o enraizamento profundo das forças sociais organizadas nos territórios da exceção, fortalecendo resistências, laços solidários e sonhos disruptivos. 

 

*Este texto foi escrito em colaboração com Doris Soares, Membro da Coordenação Nacional do MTST e militante do movimento no Ceará.

 

Fonte da imagem: Mapa de Fortaleza – internet.

David Moreno Montenegro

Cientista Social, Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) com Pós-Doutorado pelo Instituto de Estudios de América Latina y el Caribe - IEALC, na Universidad de Buenos Aires (UBA). Professor de Sociologia do Instituto do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) - Campus Fortaleza. Coordenador do Centro de Estudos Políticos e Sociais - CENTELHA/IFCE e Membro da Coordenação Estadual do MTST – CE.

Mais do autor

1 comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.