A pergunta do coronel Aureliano Buendía e a eleição presidencial brasileira, por Filomeno Moraes

O personagem mais formidável, da galeria de personagens formidáveis de Gabriel García Márquez, talvez seja o coronel Aureliano Buendía, de “Cem anos de solidão”. A sua trajetória encarna as vicissitudes do poder, com as possibilidades e impossibilidades, os acasos e os ocasos, as grandezas e os oportunismos, as crueldades e as mesquinharias, constituindo, pois, um excelente painel de observação da natureza do “homo politicus” e, no limite, da natureza humana. Uma das facetas da aventura, ventura e desventura do personagem – a da luta política entre “liberais” e “conservadores” na Colômbia – repõe a grande pergunta que se faz – neste “anno [não] admirabilis” de eleição presidencial – acerca da política brasileira na atual conjuntura.

A perspectiva, que tornou célebre o escritor colombiano, é a do realismo mágico, em suma, da realidade apinhada de coisas extraordinárias. O coronel está inserido nas lutas políticas que os liberais-federalistas e os livres-pensadores empreenderam contra os governos conservadores, baseados nos latifundiários, no clero e nas forças armadas regulares, com a guerra civil consequente, que durou cerca de vinte anos. Buendía, para assegurar que os liberais chegassem ao poder, promoveu 32 revoluções armadas e perdeu todas; teve dezessete filhos varões de dezessete mulheres diferentes, todos assassinados numa única noite; escapou de quatorze atentados, 73 emboscadas e um pelotão de fuzilamento; sobreviveu a uma dose de estricnina posta no café, que daria para matar um cavalo; chegou a ser comandante geral das forças revolucionárias, com jurisdição e mando de uma fronteira à outra, e o homem mais temido pelo governo, de modo que “as suas ordens eram cumpridas antes de serem anunciadas, mesmo antes que ele as concebesse, e sempre iam muito mais longe do que ele se atreveria a fazê-las chegar”. Embora lutasse sempre à frente dos seus homens, a única ferida que recebeu foi dada por ele mesmo, numa tentativa frustrada de suicídio, depois de assinar a capitulação que pôs termo às guerras civis. Afinal, recusou a Ordem do Mérito que lhe outorgou o presidente da República; dispensou a pensão vitalícia que lhe ofereceram depois da guerra e viveu até a velhice dos peixinhos de ouro que fabricava na sua oficina de Macondo.

Quando se iniciaram as guerras civis, Buendía possuía apenas noções muito confusas das diferenças entre conservadores e liberais. Foi o sogro que lhe deu lições esquemáticas: os liberais eram maçons; gente de má índole, partidária de enforcar os padres, de instituir o casamento civil e o divórcio, de reconhecer iguais direitos aos filhos naturais e aos legítimos, e de despedaçar o país num sistema federativo. Os conservadores, pelo contrário, que tinham recebido o poder diretamente de Deus, lutavam pela estabilidade da ordem pública e pela moral familiar; eram os defensores da fé cristã, do princípio de autoridade, e não estavam dispostos a permitir que o país fosse dividido em províncias autônomas. Por sentimentos humanitários, Aureliano simpatizava com a atitude liberal, no que se refere aos direitos dos filhos naturais, embora não entendesse como se chegava ao extremo de fazer uma guerra por coisas que não se podiam tocar com as mãos.

Depois de tantas lutas e derrotas, de tanto sangue derramado e sofrimento, a ordem liberal estava institucionalizando-se. Foi aí que chegaram a Macondo, onde Buendía e sua tropas estacionaram, “seis advogados de paletó e chapéu”, a mando dos políticos liberais, com as seguintes propostas: renunciar à revisão dos títulos de propriedade da terra para recuperar o apoio dos proprietários liberais; renunciar à luta contra a influência clerical para obter o suporte do povo católico; renunciar às aspirações de igualdade de direitos entre os filhos naturais e os legítimos para preservar a integridade dos lares. O coronel, então, perguntou: – Quer dizer que só estamos lutando pelo poder?

No Brasil de hoje, guardadas as coisas que mudam e levando em consideração as alianças partidárias – realizadas ou tentadas – no que concerne à eleição presidencial, a interpelação que não cala é se não se está lutando só pelo poder.

Filomeno Moraes

Filomeno Moraes

Cientista Político. Professor da UNIFOR e da UECE. Doutor em Direito na USP, mestre IUPERJ e livre-docente em Ciência Política UECE.

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