Pensando Paulo Freire

Quando penso Paulo Freire, penso-o sempre em movimento, no tempo-espaço e com o tempo-espaço, buscando construir dinamicamente o futuro sonhado a partir do concreto presente. Segundo ele, o futuro não é inexorável; temos de fazê-lo, de produzi-lo, ou não virá da forma como mais ou menos queríamos. Não podemos fazê-lo de forma arbitrária, mas com os materiais, com o concreto de que dispomos somado ao sonho por que lutamos.

Neste sentido a educação se coloca como uma questão fundamental enquanto ato de conhecimento, não só de conteúdos, “mas da razão de ser dos fatos econômicos, políticos, ideológicos, históricos, que explicam o maior ou o menor grau de interdição do corpo consciente a que estamos submetidos”. (Freire in Educação como prática da liberdade, Paz e Terra, 1969).

A conscientização para Freire é uma categoria e um processo central. Se para posições dogmáticas e mecanicistas, tanto no espectro da direita e da esquerda do pensamento político, a consciência toma forma como uma espécie de epifenômeno, como resultado automático e mecânico de mudanças estruturais, para Freire, a consciência crítica, por ele assim compreendida, não é puro reflexo, mesmo que não seja a causa fautora da realidade. E aqui gostaria de citá-lo literalmente quando disserta magistralmente sobre o processo de conscientização crítica:

Se não há conscientização sem desvelamento da realidade objetiva, enquanto objeto de conhecimento dos sujeitos envolvidos em seu processo, tal desvelamento, mesmo que dele decorra uma nova percepção da realidade desnudando-se, não basta ainda para autenticar a conscientização. Assim, o ciclo gnosiológico não termina na etapa do conhecimento, a conscientização não pode parar na etapa do desvelamento da realidade. A sua autenticidade se dá quando a prática do desvelamento da realidade constitui uma unidade dinâmica e dialética com a prática da transformação da realidade: conhecimento-da-realidade-e-transformação-da-realidade, em sua dialeticidade. (Freire in Ação cultural para a liberdade e outros escritos, Paz e Terra, 1987). (Grifos meus).

Um segundo tópico que proponho como contribuição, trata da questão do diálogo intercultural. Lembro que numa conversa com Boaventura de Sousa Santos, nos idos de 2008, tratando de algo que ele aponta como a necessidade de uma “sociologia das traduções”, no sentido de estabelecer uma base de sentidos e palavras compreensíveis entre as diversidades lutas travadas no tempo presente, as quais, por vezes ocasionam impedimentos de compreensão recíproca entre os sujeitos-e-grupos devidos ao fracionamento e especificidade das pautas em ação, perguntei-lhe sobre relatos de experimentos da aplicação desta sua teoria. Mas ele não soube, à época, apontar nenhum.

Freire anota algo de importância. Afirma que o caminho para realizar diálogos interculturais está em principalmente trabalhar as semelhanças entre si, e não apenas as diferenças, para criar unidade na diversidade, fora da qual não vê como aperfeiçoar-se e até como construir-se uma democracia (ou democracias, diria eu) substantiva e radical. (Freire in Pedagogia da Esperança, Paz e Terra, 2008).

Seguindo esta linha, coloca-se, portanto, a questão do diálogo, não como um componente acessório, mas central no processo de transformação da realidade, como meio para lançar pontes entre as diversas partes com seus projetos singulares, como também para reatar fios rompidos e iniciar novos formatos de comunicação entre culturas e liberdades. E neste sentido, continuando as indagações iniciadas com Boaventura, pergunto: quais seriam as pré-condições para que se possam realizar diálogos amplos, límpidos, honestos, acolhedores e proativos?

A italiana Chiara Lubich (1920-2008), ganhadora do prêmio Educação para a Paz (UNESCO-1996), oferece um método muito desafiador, muito próximo ao pensamento de Lao-Tse (604-517 a.C.), fundador do taoísmo. O núcleo central da dialógica por ela proposta está em “fazer-se um”. Este método implica um duplo movimento: sair de si (=esvaziar-se) para acolher a realidade do outro, num tipo de integração que não seria nem anulação de si nem tampouco uma fusão com o outro, mas concretizando uma disponibilidade de escuta efetiva e recíproca, libertando coração e mente, para criar dentro de si um lugar de silêncio no qual o outro pode falar sem sofrer constrangimentos. O segundo movimento consiste, como consequência, em conter o outro dentro de si, por meio da superação dos confins de si mesmo, estabelecendo uma nova residência relacional na qual os sentimentos e pensamentos tornem-se uma espécie de patrimônio mútuo, capaz de acionar mudanças e apontar caminhos. (Vera Araújo in O Conflito, manuscrito, 2010).

De fato, como lembra Alain Badiou, o Pensamento só pode ser libertado de sua impotência por meio de algo que exceda sua ordem.  Somente por meio de uma operação insubstituível, capaz de reorganizar a morte e a vida nos seus lugares, mostrando que a vida não ocupa necessariamente o lugar da morte. Para Badiou, essa operação chama-se “ressurreição”, entendida como a reinvenção de um modo de viver que desvia da repetição e produz novos modelos de pensar, viver e agir. Ressurreição implica uma nova fé juntamente com uma nova militância. O Sujeito vivo deve determinar-se não apenas em seu surgir, como também em seu labor. O amor é o labor do qual a fé é capaz. O acreditar mostra-se eficaz pelo amor. Pelo amor descobre-se que nossa energia não é contra a verdade, mas para a verdade. Uma energia só pode ser verdadeira se levar em consideração toda a humanidade, sem exceção. Somente há singularidade se houver o universal; senão, fora da verdade, só há particularidade. (Badiou in A fundação do universalismo, Boitempo, 2009).

Também como atesta Emmanuel Levinas, a responsabilidade do Eu diante de um rosto totalmente estranho que o fita constitui o dado primitivo da fraternidade humana, é a postura básica do humano ético. A responsabilidade por outrem é o que de mais substancial há em mim e que me constitui como humano. É o que confere “espírito ao húmus”. O outro, em sua vulnerabilidade, deixa-me igualmente vulnerável e não sou capaz de me esquivar ao seu olhar. Ao percebê-lo, não por meio apenas de minha inteligência, mas de minha consciência, sinto-o como sobre a minha pele. Coloco-me no seu lugar e sofro seu sofrimento em mim. Sentir em mim o sofrimento do outro é uma dimensão, como vimos acima, típica do “fazer-se um” lubichiano, para compreender ao máximo o outro em sua realidade e com ele ser solidário na busca de superar o seu sofrimento. A ética, entendida nessa perspectiva de Levinas, é afirmada através da relação face a face com outro. A passagem da ética para a política é marcada pela presença/chegada de um terceiro, significando outros, a multiplicidade de sujeitos que fundam e constituem a polis. (Apud. Lana in Marcel Mauss e o Ensaio sobre a dádiva, Revista de Sociologia Política, junho de 2000).

Ou como também se vê na perspectiva da “transmodernidade” que o argentino Enrique Dussel nos apresenta: é preciso quebrar a colonialidade do poder, do saber e do ser no mundo ocidental, baseando-se na exterioridade negada que surge como categoria da análise da alteridade, numa Ética da Libertação, que parte do outro como vítima da modernidade ocidental eurocêntrica.

Por fim, como afirma Albert Jacquard, recuando no passado, nos seis milhões de anos na qual se deu a origem do Homo, todos os seres humanos são aparentados porque oriundos do mesmo gérmen (irmãos = germanus). E mais, se recuarmos no período de três bilhões de anos, até a origem dos seres vivos, os seres humanos são aparentados com todos os seres vivos. Diferentemente dos outros, somente o Homo foi capaz de construir a humanidade, essa é sua especificidade. Ser humano é participar dessa construção. Resgatar a fraternidade é, portanto, sentir-se irmãos e irmãs de todos os humanos, para recuperar o sentimento gregário perdido no processo de civilização, para re-irmanar a humanidade. (Jacquard in Filosofia para não filósofos, Campus, 1998).

Concluo com o baiano Caetano Veloso (excerto): Gente olha pro céu / Gente quer saber o Um / Gente é o lugar / De se perguntar o Um/ Gente é muito bom/ Gente deve ser o bom/ Tem de se cuidar/ De se respeitar o bom/ Gente espelho da vida/ Doce mistério//.

 

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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