PENSANDO A CARTA DO PAPA A LULA. por Alexandre Aragão de Albuquerque

Em suas primeiras palavras dirigidas a Lula, o Papa declara seu agradecimento pela mensagem que lhe foi enviada pelo ex-presidente, em 29 de março passado, na qual destaca a valiosa contribuição do Pontífice para a defesa dos direitos dos empobrecidos do Brasil. Em sua carta Francisco evidencia, sintonizado com seus Antecessores, que a política pode tornar-se uma forma eminente de amor social se for atuada no respeito fundamental pela vida, liberdade e dignidade das pessoas.

O Papa aprofunda a temática da caridade evangélica ao centrar na “ressurreição de Jesus o triunfo da esperança da humanidade”. A páscoa cristã representa para a existência humana uma força vital capaz de conduzir homens e mulheres a vencerem o desespero de uma situação obscurantista por meio de um espírito de alegria serena de quem acredita que no final “a verdade vencerá a mentira”, “o bem vencerá o mal”.

Corajosas palavras do Papa dedicadas a um preso político da grandiosa dimensão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em virtude do Golpe institucional ocorrido em 2016. Ao se reportar ao Fundador do cristianismo que historicamente nasceu pobre; fugiu para o Egito, para sobreviver com sua família; trabalhou como carpinteiro, para obter o sustento diário; e quando se pôs a anunciar a verdade da qual era portador, o sistema opressivo político de então o prendeu, torturou-o e assassinou-o numa cruz, Francisco esclarece não apenas para Lula, mas para todos os seguidores de Jesus, que o caminho da construção de uma sociedade fundamentada no bem requer a coragem, a generosidade, a fraternidade e a determinação que Jesus teve em toda a sua existência humana. Não se trata de encontrar facilidades ou atalhos; pelo contrário, é uma árdua luta a partir da reflexão crítica da injustiça histórica submetida aos pobres deste mundo pelos sistemas político-econômicos de concentração de renda e de poder.

O Mal, como se sabe, é o desejo de onipotência, pela utilização da mentira (fakes) e pela manipulação da ignorância (mídia), de atribuir-se a si a totalidade da Verdade sem a possibilidade do contraditório. O Mal é o desejo de Tudo-dizer impedindo o Outro de expressar a sua Verdade, reduzindo-o a Nada. E aqui é impossível não recordarmos o fato histórico no qual o General Villas Boas, então comandante do exército brasileiro, admitiu em entrevista publicada no jornal Folha de São Paulo, em 11/11/2018, que “pressionou publicamente o Supremo Tribunal Federal (STF) a rejeitar o habeas corpus preventivo do ex-presidente Lula na sessão do Pleno em 05 de abril de 2018”. O Mal é o uso da força em proveito próprio em detrimento do Outro. Lula é vítima dessa força. O STF foi forçosamente impedido de praticar o Bem que se espera dele enquanto Instituição garantidora do Direito. Uma histórica exceção maléfica que foi praticada contra Lula.

Por fim, o Papa Francisco num gesto de excelsa solidariedade manifestou a sua proximidade espiritual diante das duras provas recentes que Lula viveu com a perda de sua esposa, de seu irmão e de seu neto Artur com apenas sete anos de idade, encorajando-o, pedindo para não desanimar e continuar confiando em Deus, assegurando suas orações por ele.

A morte nos torna todos iguais. É o mistério profundo onde despimos as vestes de nossas diferenças para o encontro respeitoso das mãos e das lágrimas diante da dor inominável. Para quem cultiva a humanidade, o húmus fértil dentro de si, na morte não há esquerda ou direita, rico nem pobre. Há o fim da existência e a dor da perda de um ser existente igual a nós, que veio a este mundo não por si mesmo, mas porque Alguém o chamou, da mesma forma que fomos chamados.

Impossível olvidar o comentário insensível postado em rede social do deputado Eduardo Bolsonaro diante da dor de um avô pela perda prematura de um neto com sete anos de idade, afirmando que “Lula era um larápio que não deveria sair da prisão para comparecer a velórios e que cogitar isso só o colocaria em voga posando de coitado”. Eduardo Bolsonaro tem como seu ídolo um Coronel Torturador, o agente que reduz covardemente pela violência extrema seres humanos a nada.

E a pergunta que fica é: por que cristãos seguidores de Jesus apoiaram e ajudaram a eleger os Bolsonaros?

 

 

 

 

 

 

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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