Penalizar os mitômanos profissionais

“Não temos como controlar se os agentes públicos mentem para nós. Mas temos como controlar o quanto eles devem responder por suas mentiras”. Sally Yates.

 “Ameaçado está o destino do mundo se não surgirem pessoas cheias de sabedoria”. Constituição Pastoral Gaudium et Spes.

Há um comercial famoso, publicado no ano de 2018 na rede CNN estadunidense, com o seguinte teor, mostrando a foto de uma maçã: “Isto é uma maçã. Algumas pessoas vão tentar dizer que é uma banana. Talvez elas gritem histericamente repetidas vezes: banana, banana, banana. Talvez elas escrevam com letras maiúsculas: BANANA. Talvez até você mesmo comece a acreditar que isto é uma banana, devido às pressões da propaganda midiática. Mas não é. Isto é uma maçã”.

A questão de firmar que uma maçã é uma maçã, e não uma banana, começa a ficar complicada no momento em que no lugar da maçã apresenta-se a realidade de Deus e de sua existência, ou seja, da verdade que Ele representa para os seres humanos e da capacidade humana de o conhecer. No tempo presente, muitos arvoram-se a falar em nome de Deus, dizendo-se seus representantes, buscando não a verdade sobre Deus, mas o poder diante das pessoas pelo fato de posarem como vozes autorizadas por Ele, fazendo de Deus um Mistério manipulável, um ídolo.

Curiosamente, o que se passa sobre o conhecimento de Deus, passa-se em modo semelhante com a verdade. Ou seja, o questionamento sobre a existência ou não da verdade em si – objetiva e transcendente aos sujeitos que a ela se reportam. Haveria uma verdade, objetiva e impositiva, a que os humanos deveriam submeter-se? Pois a vida humana carece de sentido, de orientação. Não é a dor que faz as pessoas desabarem, mas ausência de sentidos, a falta de uma luz que ilumine suas vidas diante da tragédia do absoluto sem sentido. Afinal, “é preciso acender os candeeiros antes da chegada da noite”. A escuridão é própria daqueles que escondem seus malfeitos por um sigilo de 100 anos. Os puros de coração são amigos da luz, não têm nada a ocultar.

O sentido sobre o que é verdadeiro move corações e mentes humanas no desenvolvimento da racionalidade voltada para definir critérios de julgamento entre o bem e o mal, sobre questões em torno do que é e não deveria ser, como também sobre aquilo que não é e deveria ser. É esta dimensão ética que deve inspirar e guiar o direito, a pedagogia, a justiça, a ciência, a tecnologia, a economia, a política, a cidadania, enfim, reger as relações entre pessoas e instituições.

Um mundo onde reine a ausência do sentido da verdade em toda a sua ligação com a vida, torna-se de fato um mundo da insensatez e da loucura no qual todos os absurdos se tornam possíveis. Assentados em Dostoievski podemos dizer que se a verdade não existe, tudo torna-se permitido. E dito na forma inversa, se a verdade existe, nem tudo é permitido. Por isso, nos horrores totalitários, a primeira vítima é a verdade. O objetivo de regimes totalitários é o de bloquear todo o dinamismo do espírito humano aberto para a verdade e de sua ligação com o sentido da vida.

A história está marcada de eventos totalitários em que os poderes religiosos e políticos assumiram como donos e administradores de uma verdade oficial do sistema, servindo-se de meios violentos – simbólicos e reais – para imporem a sua verdade ideológica, sem respeitar a liberdade de consciência, de busca e de escolha por parte dos cidadãos.

No Brasil do tempo presente estamos ameaçados pela escalada totalitária do bolsofascismo, para o qual “não há essa historinha de Estado laico não. É Estado cristão, e quem for contra que se mude. As minorias se adequam ou simplesmente desaparecem”. Essa violência bolsofascista torna-se fonte de outras violências no momento em que os representantes desta ideologia totalitária arrogam-se a fazer as coisas – num movimento antiético, anti-verdade – serem o que não são e não serem o que são, obedecendo apenas aos interesses próprios, escancarando as portas da opressão do “homo homini lupus”.

O tempo presente requer do espírito humano uma capacidade de ausculta apurada, refletida, meditada e compartilhada, para poder identificar as armadilhas das avalanches produzidas por tais estruturas de poder midiáticas de fake news, separando o joio do trigo, o bem do mal. Por meio da escuta meditada e compartilhada, o espírito humano pode se permitir manter-se livre das prisões propostas pelas maldades apresentadas torrencialmente pelas chuvas de mentira, mantendo-se fiel à verdade encontrada solidariamente. Um regime democrático sustenta-se justamente na capacidade dos espíritos humanos dialogarem de forma livre e sincera para encontrarem as verdades que lhes permitam a todos crescer em humanidade pessoal, social e institucional, a partir dos mais necessitados da eficácia de políticas públicas inclusivas e distributivas. A verdade expressa-se de diversas maneiras, mas só é possível senti-la mediante o silêncio espiritual, para mover-se em sua clareira.

O desafio que se apresenta a brasileiros e brasileiras no próximo dia 30 de outubro é a escolha entre manter a estrutura profissional de produção de mentiras e violências (bolsofascismo), ou o retorno a um caminho de construção de um sistema político que garanta a busca da verdade de forma livre e compartilhada (democracia).

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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