Paulo Freire e a razão de ser das coisas

Uma entre as muitas importantes contribuições do pensamento freireano para as ciências humanas e para a luta política encontra-se em sua concepção da relação dialética entre objetividade e subjetividade no bojo da realidade concreta contida no espaço-tempo. Freire nunca entendeu que a luta de classes se comportasse como o único motor da história, capaz de explicar tudo. Mas, ao mesmo tempo, ensina-nos que não seja possível entender o desenvolvimento da história sem os choques de interesses que envolvem as classes sociais em cada tempo-espaço da existência concreta humana. Ou seja, para o Mestre recifense, a luta de classes não é o motor da história, mas apenas um deles.

O sonho apresenta-se como outro motor, porque não há mudança sem sonho, como não há sonho sem esperança. Não há utopia verdadeira fora da tensão entre a denúncia de um presente tornando-se cada vez mais intolerável, como o que estamos experimentando nesse tempo-espaço brasileiro bolsonarista, e o anúncio de um futuro a ser construído política, estética e eticamente por cada um de nós, mulheres e homens. Donde se conclui que a história não é determinada, mas apresenta-se sempre como uma possibilidade, um vir a ser. Disso decorre o papel histórico da subjetividade, colocando-se, assim, em relevo a importância da educação humana.

Toda vez que um sistema de pensamento e organização da sociedade considera o futuro apenas como um dado previamente determinado, ora porque seja pura repetição mecanicista de uma estrutura presente, ora porque teria-de-ser por uma vontade previamente estabelecida, não há neste sistema lugar para a utopia, consequentemente, para a opção, para a decisão, para a esperança em meio à luta. Numa palavra, não há lugar para a educação, apenas para o adestramento.

Num desenho de mundo diferente, menos feio e mais justo, o sonho é tão necessário aos sujeitos políticos, transformadores do mundo opressor (não conformados nem adaptáveis a ele), quanto o é para um trabalhador o projeto em seu cérebro antes mesmo de executar a confecção do material concreto. É justamente por isso que, do ponto de vista dos interesses dos dominadores, quanto menos as classes dominadas sonharem de forma confiante e consciente, quanto menos exercitarem a aprendizagem política de comprometer-se com a utopia, e quanto mais se tornarem dóceis e conformadas aos discursos pragmáticos mantenedores da ordem vigente, tanto mais tranquilas dormirão as classes dominantes.

Mas as relações entre as classes são um fato político que gera um saber de classe. Este saber demanda lucidez na ação indispensável nas escolhas táticas a serem escolhidas na luta política desenvolvida num determinado tempo-espaço. Em tais momentos históricos, como o que vivemos hoje, é a realidade mesma que grita, advertindo as classes sociais da urgência de encontro para a procura de soluções inadiáveis para vencer o bolsonarismo militarizado que avança no Brasil.

A luta, como lembra Freire, é uma categoria histórica. Muda de espaço-tempo a espaço-tempo. Ela não nega a impossibilidade de acordos entre grupos divergentes, ou mesmo antagônicos, à busca de soluções justas para a superação do mal-estar presente. Portanto, acordos fazem parte da luta. O mal-estar presente reside no bolsonarismo cuja maldade centra-se no retorno da fome a milhões de famílias brasileiras, no crescimento exponencial do desemprego, nas contrarreformas sociais e administrativas vilipendiadoras dos direitos das trabalhadoras e trabalhadores, na entrega das riquezas naturais brasileiras ao Capital financeiro, na destruição da mata amazônica, na entrega de nossas riquezas de petróleo e gás aos grupos privados, na submissão ao poder estadunidense.

A conscientização, como anota Freire, não pode parar na etapa do desvelamento da realidade. A sua autenticidade se dá somente quando a prática do desvelamento da realidade constitui uma unidade dinâmica e dialética com a prática da transformação da realidade. O ato do “Fora Bolsonaro”, marcado para o dia 02 de outubro próximo, reveste-se de vital importância nesse caminho para fortalecer a luta e produzir um aprendizado ainda maior em torno da conscientização de que é preciso agir sem descanso na derrubada deste governo autoritário, entreguista e antipopular.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .