PATUSCADA E MENTIRAS EM NOVA YORK

Não é ocioso repetir o fato de que, na política brasileira, quase sempre, a mentira comanda o espetáculo, pois, historicamente, abstraindo as exceções que confirmam a regra, em sua maioria, os atores políticos protagonistas dessa trama, além de charlatães no ato de representar, são exímios mentirosos.

​Nesta semana, em uma manhã de sol e céu azul aqui no Brasil, e um tanto fria em Nova York, na abertura da Septuagésima Sexta Assembleia Geral das Nações Unidas – ONU – (76*), o mundo assistiu a mais um desses espetáculos, cujo enredo foi todo baseado na mentira, apesar do seu autor sempre pronunciar a frase: “[…] conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, sem, decerto, jamais haver lido o Livro Santo, a não ser aos pedacinhos…

​O leitor já percebeu que nos referimos ao discurso pronunciado pelo presidente da República, na abertura do maior evento das nações, onde o Messias falou de um País imaginário, que só existe em seus devaneios, e na cabeça de um conhecido falso pastor, seu mentor espiritual que atende por Malafaia.

​Em sua fala, descrevendo o imaginário País criado pela República bolsonarista, dentre outras lorotas, os chefes de Estado das 193 nações, membros da ONU, ouviram, já no início de sua fala, que estava ali para mostrar um País diferente do que é mostrado pelos jornais; que em dois anos e oito meses do seu governo não se verificou nenhum caso de corrupção, e que o Brasil tem um presidente que respeita seu povo e a Constituição. Hilário, para dizer o mínimo, pois a Nação assiste estupefata à teia de corrupção engendrada para aquisição das vacinas, que tem sido apontada pela CPI da covid, assim como os flagrantes desrespeito e descumprimento da Carta Magna, com as constantes agressões aos ministros do STF e aos membros do Congresso.

​O presidente também afirmou que, dos 8,5 milhões de quilômetros quadrados de extensão, o Brasil possui uma área de vegetação nativa equivalente a 66% do seu território desde o seu descobrimento, e que o Código Florestal Brasileiro deve servir de exemplo para outros países; entretanto um estudo do Grupo de Inteligência Territorial Estratégica – GITE, órgão da EMBRAPA, que integra a estrutura do governo, publicou, recentemente, um levantamento apontando que essa área é de apenas 61%; e as lorotas não param por aí.

​Enquanto o seu governo, na gestão do ex-ministro do mau ambiente Ricardo Sales, desestruturou todos os órgãos de fiscalização e controle ambiental para fazer “passar a boiada”, o presidente teve o cinismo de afirmar para o mundo em seu discurso que, “[…] os recursos humanos e financeiros destinados aos fortalecimentos dos órgãos ambientais, foram dobrados com vistas a zerar o desmatamento ilegal”.

Achando pouco todas as mentiras pronunciadas somente na área ambiental, teve a petulância de perguntar para os chefes de Estado presentes à reunião, “[…] qual país do mundo tem uma política ambiental como a nossa”? E convidou a todos a visitar a Amazônia! Claro que o convite não foi levado a sério, mas seria bom que viessem antes que o fogo e o desmatamento ilegal a destruam.

​É de sabença geral que, depois daquela fatídica terça-feira com direito aos atos obscenos-(cotoco), protagonizados e mostrados ao mundo pelo Ministro da saúde, Marcelo Queiroga, além do presidente e sua comitiva terem que comer pizza nas ruas de Manhattan, impedidos entrarem em um restaurante (que papelão para um chefe de uma nação!), a imprensa internacional, assim como políticos brasileiros e líderes mundiais, fizeram repercutir a fala do senhor Jair, e classificaram o discurso como um ‘vexame’, e o definiram como ‘mentiroso’ compulsivo. O jornal EL PAÍS abriu manchete afirmando que a “ONU e o mundo se ridiculizam diante de Bolsonaro”.

​A propósito, vale recorrer ao pensamento de Santo Agostinho de Hipona, em sua obra Sobre a Mentira, onde ele expressa o que pensa sobre esse pecado e a pessoa que mente. “[…] Eles são assassinos de si mesmos”. Quer dizer a mentira é um mal que se volta contra o próprio mentiroso. Em outra obra, intitulada Contra Mendacium, que significa “Contra a mentira”, Santo Agostinho faz uma reflexão sobre algumas ideologias de sua época, que se utilizam da mentira como um bem maior, especialmente no âmbito religioso. Mutatis mutandis, transpondo para a realidade em curso, vê-se a utilização da mentira com viés falso-religioso, para obtenção do poder, que seria o bem maior, conforme expresso no pensamento agostiniano.

​Nessa contextura, se impõe o pensamento de Fiódor Dostoiévski, nos Irmãos Karamávov, segundo o qual “[…] O principal não é mentir para si mesmo. Quem mente para si mesmo e dá ouvidos a própria mentira chega a um ponto que não distingue nenhuma verdade em si, nem nos outros, e portanto, passa a desrespeitar a si mesmo e aos demais. Sem respeitar ninguém, deixa de amar e, sem ter amor, para se ocupar e se distrair entrega-se a paixões e prazeres grosseiros e acaba na total bestialidade em seus vícios, e tudo isso movido pela continua mentira para os outros e para si mesmo”. Alguns até para o mundo. Não é preciso dizer mais!

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Arnaldo Santos

Arnaldo Santos é jornalista, sociólogo, doutor em Ciencia Política, pela Universidade Nova de Lisboa. É pesquisador do Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP/CAEN/UFC, e do Observatório do Federalismo Brasileiro. Como sociólogo e pesquisador da história política do Ceará, publicou vários livros na área de política, e de economia, dentre eles - Mudancismo e Social Democracia - Impeachment, Ascenção e Queda de um Presidente - sobre o ex-Presidente Collor, em 2010, pela Cia. do Livro. - Micro Crédito e Desenvolvimento Regional, - BNB – 60 Anos de Desenvolvimento - Esses dois últimos, em co-autoria com Francisco Goes. ​Arnaldo Santos é membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ, e da Sociedade Internacional de História do século XVIII com sede em Lisboa.

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