Pasolini, 100 anos

Do amigo-irmão Francisco Marto Araújo (Frank), cinéfilo e profundo conhecedor da melhor música brasileira e internacional (é especialista em Beatles, Dylan e outros), vem uma relação dos dez maiores filmes de todos os tempos. Constam da lista verdadeiras unanimidades, a exemplo de Bergman, Kurosawa e Fellini, com realizações memoráveis: Morangos Silvestres (1957), Os Sete Samurais (1954) e Noites de Cabíria (1957). Mas aparecem na seleção, a confirmar o rigor estético do amigo, claro, Rossellini, com Roma, Cidade Aberta (1954), Vittorio De Sica, Ladrões de Bicicleta (1948) e Orson Welles, Cidadão Kane (1941). Quase todos, como se vê, forjados em bases estéticas modernas.

Eis que me chama a atenção a ausência de Pasolini, cujo centenário de nascimento se comemora este ano.

Poeta, ensaísta, pintor, romancista e cineasta, Pier Paolo Pasolini foi também um dos maiores intelectuais italianos do século 20, tendo se notabilizado pela vastidão e densidade de uma obra marcada por um forte compromisso social. Marxista, mas assumidamente identificado com as ideias professadas pelo compatriota Antônio Gramsci, que professava a necessidade de engajamento de artistas na luta pelos direitos do homem, fez do ideário esquerdista arma contra o fascismo e a ascética burguesia italiana.

No campo artístico, Pasolini transitou, com naturalidade, do sagrado ao profano; bebeu nas fontes do classicismo sem jamais abrir mão de uma clara vocação transgressora no uso de diferentes linguagens. Como cineasta, para retomar o foco desta singela homenagem, foi ao limite máximo do experimentalismo, nunca, no entanto, optando por aventuras criativas destituídas de rigor formal. Antes pelo contrário, sua cinematografia está pontuada por obras de fino trato estilístico, nas quais sobressai o uso de recursos composicionais tomados de empréstimo das artes plásticas (a pintura, sobretudo). Alguns planos, enquanto unidades mínimas da narrativa cinematográfica, lembram pintores de renome, a exemplo de Giotto, Piero della Francesca e Mantegna.

Começa no cinema, todavia, pela habilidade de escritor, assinando roteiros e, indiretamente, atuando como codiretor. Mas ganharia visibilidade a partir de 1961, quando faz sua estreia com o filme Accattone, uma realização em que já se podem ver suas imensas qualidades criativas.

Ambientado na periferia de Roma, em meio a comunidades extremamente pobres, Accattone (é o nome do protagonista da película), é um filme denso, poético, fatalista, mas, acima de tudo, uma obra de cunho autoral, em que pesem as inegáveis influências do neorrealismo italiano, nomeadamente Rossellini e Lucchino Visconti.

Do ponto de vista da crítica mais tradicional, no entanto, Accattone não é inatacável esteticamente falando. Seus inúmeros defeitos, enquadramentos tecnicamente transgressores (primeiros planos frontais recorrentes), ritmo em descompasso com a densidade dramática da narrativa, panorâmicas demasiado lentas, travellings desnecessários etc., são hoje revisitados com olhos mais sensíveis às escolhas estéticas do cineasta. Não é muito dizer, pois, que fazem parte de uma concepção fílmica menos convencional e mais inovadora, constituindo por si mesmo elemento de uma estratégia narrativa original e inventiva. A prova disso, ressalte-se, é que o estilo aparentemente descuidado, não raro lembrando a precariedade de procedimentos amadores, seria retomado em filmes hoje considerados verdadeiras obras-primas do cinema moderno. É que Pasolini, incorrendo em algumas características formais típicas do neorrealismo, que repudiava quaisquer requintes de linguagem ou estetizações supérfluas, explorou essas características em outra chave estilística, emprestando-lhes uma força dramática muito próxima do épico, do grandioso, do mítico cinematográfico.

A cena do filme em que Accattone enfrenta o seu cunhado, numa briga que remete ao duro cotidiano de uma comunidade marginalizada de qualquer grande centro, é algo notável em termos cinematográficos. À agonia da personagem, golpeada de morte por alguém que lhe é tão próximo em termos sociais e familiares, se sobrepõem o coro final de Paixão segundo São Matheus, de Bach, como a misturar o humano ao divino, e reeditar, na morte de um homem do povo, o martírio de Jesus Cristo.

Mas a grande obra de Pier Paolo Pasolini viria a partir de 1962, com Mamma Roma. De sua vastíssima cinematografia, deve-se destacar, ainda, Teorema, O Evangelho segundo São Matheus, Decameron, Salò, Medéia, Os Contos de Canterbury e Édipo Rei.

No centenário de nascimento de Pier Paolo Pasolini, ver seus filmes e ler sua significativa obra literária é uma oportunidade de compreender as diferentes formas de lutar contra o fascismo e suas ameaças recorrentes.

Mas este é um outro aspecto de sua arte a que voltaremos depois.

P.S. Pasolini foi assassinado em 2 de novembro de 1975. As circunstâncias de seu assassinato ainda são desconhecidas.

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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