Parahyba de Medeiros – o mágico da cultura popular


Aluizio Moisés de Medeiros é filho de uma geração de contadores de histórias, com a tradição de juntar o povo na calçada das noites e se divertir ou se assombrar com os contos de alma penada e assombração contadas pelo avô e o pai, sobre um bicho que corria na mata e os caçadores subiam no pé de aroeira e o bicho passava pelo tronco e ninguém via que bicho era, e os cachorros apanhavam do bicho que se chamava caipora. Era um bicho que ninguém via mas todo mundo temia.
Essa e outras histórias quem me contou foi o menino que cresceu e virou o artista Parahyba de Medeiros.



Ele nasceu em 1959 numa localidade que pertencia aos estados da Paraíba e Rio Grande do Norte. A cidade onde o Parah viu as feiras com artistas populares, cantadores, emboladores, a cultura popular intensa foi em São João do Sabugi, no Rio Grande do Norte que é mesma cultura do estado da Paraíba. “O lugar não existe no mapa, é igual Bacurau.”

A família veio morar no interior do Ceará, uma fazenda, em Tauá. Ele criança, ainda com 9 anos viu o pai comprar uma fazenda que só a tinha a terra,  investir, cercar o terreno, fazer açude, casa, roça e se tornar um agricultor razoavelmente bem sucedido. E se em terras paraibanas, o nosso músico conheceu as violas e os violeiros, os cantadores e os emboladores de coco, em Tauá, Medeiros conheceu um “cego” que tocava na região, era o Pedro Cego. Sabia fazer gaiolas e todo mundo admirava as proezas e os feitos do artista e um dos feitos dele era tocar sanfona. 

No rádio ele ouvia Jackson do Pandeiro, Gonzaga, Beatles e muitos cantadores, tanto na feira da cidade, aonde os artistas chegavam com as maletas de cordéis e recitavam no centro da praça e uma ciranda de gente se formava para assistir, a começar pelo Parah de Medeiros, filho primogênito dos 10 irmãos. E foi assim que Parahyba bebeu da fonte da musicalidade nordestina. No Ceará, a música sanfonada, na Paraíba, violas e violeiros e no Rio Grande do Norte, mamulengos e artistas de feiras.

Por ser o mais velho, foi estudar na cidade.

“Eu sempre tive a sorte na vida. A pessoa que meu pai comprou a propriedade em Tauá, aquela terra que não tinha nada, só a terra  mesmo, disse: seu filho mais velho vai ficar estudando na minha casa, então eu fiquei na casa, na rua principal da cidade, dando uma de bacana, mas a realidade eu era filho de uma família camponesa. É bom ser mais velho em algumas ocasiões, mas pesa também, eu não correspondi bem ao que meu pai estava esperando. Ele queria que eu me formasse em outras áreas, medicina, advogado, agrônomo, veterinário… Quando eu voltava na fazenda meus irmãos diziam: ora, você está lá no bem bom, vá buscar água no cacimbão, você é quem vai levar a comida dos trabalhadores, atravessar riacho a nado, enchiqueirar os  animais… Eu não sabia lidar bem com estas tarefas mas nas férias, feriadões e finais de semana a turma não dispensava e jogava tudo pra eu dar de conta”.


O rapaz era esperto, levava os cordéis das feiras quando ia passar os dias em casa. 

De tanto recitar para as pessoas em troca de ajuda nos serviços da fazenda, eu sabia de cor quase todos os cordéis (desde cedo tive que aprender a sobreviver de arte rsrsrs) Ouvi muitos recitadores de folhetos de cordéis, li e reli os clássicos, o povo achava bonito, nas recitações da fazenda juntava gente na calçada. E minha mãe sempre gostou de música. Meu pai também. Ainda hoje quando vou à Tauá levo o meu violão pra ela cantar, eu gravo e ela gosta de cantar Vicente Celestino, Carlos Galhardo, a turma da geração dela.

“Eu vou contar uma história / De um pavão misterioso / Que levantou voo na Grécia/ Com um rapaz corajoso/ Raptando uma condessa/ Filha de um conde orgulhoso… (assim começa o romance do Pavão Mysterioso).



Em que outra época que você gostaria de ter vivido?

Os anos 70 foi uma grande aventura, as pessoas facilmente faziam amizade, você não conhecia a figura, mas tava escrito na testa que era um brother, poderia compartilhar a vida com ele, confiar, chamar pra sua casa, depois você encontrava com ele em outras quebradas e celebravam a vida com alegria. Era uma época influenciada pela cultura hippie, aquilo foi muito bonito. Nesse período de segunda metade dos anos 70 até o início dos anos 80, os centros acadêmicos eras cheios de colchonetes. Praticamente morávamos na universidade. Aos domingos tinha mais gente na universidade do que hoje em dia de aula.  Era um território aonde a polícia federal não entrava sem mandado, então o que era de jovens artistas, malucos, desgarrados de famílias, escritores, porraloucas, intelectuais conviviam ali como se fossem amigos de infância.


Uma palavra que você gosta:

Democracia” eu estava com abuso desta palavra, porque quem manda mesmo no mundo são os donos do dinheiro, mas com o  retrocesso político que vivemos atualmente no Brasil voltei a cultivar novamente a democracia.

Um filme ou livro que te marcou?

Um livro que me impressionou recentemente foi Homo Deus, não é um livro de arte, é um livro de ciências, de cultura geral. Diz da história da humanidade, desde a nossa origem até um futuro próximo. Ando pensando muito sobre o que li em Homo Deus. Eu não me considero um intelectual, nem poeta, eu jamais diria que sou um poeta. Existem três coisas que você precisa ser muito bom pra dizer que é: palhaço, poeta e filósofo. Palhaço sem graça é deprimente, fazer um curso de filosofia não te faz um filósofo, e ser poeta não é falar de sentimentos. Eu faço letras e melodias e isso é o que mais me aproxima da poesia. Mas poeta mesmo eu não sou.



Politicamente, quem é o Parahyba Medeiros?

Eu sempre quis viver em um mundo onde as pessoas pudessem viver como imaginava a juventude sonhadora dos anos 70. Curtir um banho num riacho de águas claras, degustar um vinho numa roda de viola com amigos no calor de uma fogueira, viver sem ter medo de estar com aquelas pessoas, um mundo onde fosse mais fácil viver coletivamente. Eu tenho minhas críticas à esquerda, mas a direita eu odeio. Eu queria viver em um sistema anarquista mesmo. Fui ao Canadá, fiquei impressionado, na rua não se sabe como se sabe aqui quem é rico e quem é pobre, as pessoas têm cuidado umas com as outras. A minha companheira Bete Augusta (casei duas vezes, primeiro com Inês Medeiros – mãe de meu filho Raul – e depois com Bete) mirou pra fotografar uma obra do Rodin do outro lado da rua e o  trânsito parou para ela tirar a foto, ela baixou a câmera e os carros passaram, ela fotografou de novo, os carros pararam de novo. Eu não acreditei no que vi e na hora falei pra Bete: esse pessoal aqui não precisa mais de governo.

E religião?

Eu não aguento mais ouvir falar de religião, entrei na filosofia porque queria entender umas questões que me angustiavam e uma delas era quem ou o que é Deus. Quando eu morava no campo, embora existisse, eu não percebia muito injustiça social, mas quando vim morar no Pirambu, eu comecei a procurar por Deus pra resolver as mazelas do mundo. Cheguei à conclusão de que se Ele existisse não se metia nas coisas aqui do mundo. Depois entrei na Filosofia para compreender melhor o sentido da vida. Na realidade saí da filosofia mais perturbado de que quando entrei. Em Tauá estudei em colégio de freiras, aqui em Fortaleza conheci o espiritismo onde vi fenômenos interessantes e passei uns dois anos tomando passes. Depois conheci as religião de raízes africanas, mas graças a Deus nunca fui dessa tal de Neo Pentecostal. Hoje eu tô bem sem religião. Minha política e minha religião eu resolvo na arte.



Quem você ressuscitaria?

Meu irmão caçula, ele não aguentou a dureza da vida e partiu pra sempre. Ressuscitaria também a minha irmã Clélia e meu amigo Claudio Pereira, o grande boêmio que entre tantas outras coisas foi secretário de cultura em várias gestões municipais, mas sempre um contagiante curtidor e animador da vida cultural de Fortaleza.




Se você tivesse o poder de mudar qualquer coisa:

Eu amoleceria a massa cinzenta do cérebro de tanta gente que se descuidou e deixou-a endurecer feito cimento.



Quem você gostaria de ser?

Eu mesmo! Gosto de mim. Tenho as minhas quedas, momentos downs, de tristeza e desilusão, mas me admiro por ter conseguido sobreviver até hoje e ainda encontrar tempo pra fazer a vida vibrar e valer a pena.

O que é que te irrita?

Pessoas que não cumprem o combinado. Eu digo essa: meu chapa, se você fosse do bando de Lampião e combinassem de se encontrar lá em cima da serra de Maranguape à meia noite, você tinha que estar lá, porque se furasse colocaria a vida do bando em jogo. Me irrita a falta de compromisso com a palavra dada.

O que é que te acalma?

O silêncio da noite, o canto dos pássaros, o contato com a natureza é sempre muito sereno.



O que é a vida?

Já pensei que a vida fosse eterna, continuasse depois da morte e torço pra que assim seja, mas hoje tenho minhas dúvidas. Prefiro viver como se ela fosse mesmo finita. Se depois de bater as botas a minha alma continuar existindo, a primeira coisa que vou fazer é uma grande farra com os velhos amigos que foram antes de mim.


O Brasil?

Nunca imaginei que existissem aqui tantos imbecis. Amo a cultura brasileira. É aberta, gregária, dinâmica, alegre. Mas o nosso povo é facilmente manipulado. E mesmo as pessoas mais indignadas e lutadoras estão se fechando em seus grupos. Poderíamos deixar janelas abertas pra comunicação e atividades coletivas mais amplas, como por exemplo, combater o fascismo que se alastra a passos largos sobre a nação brasileira. É claro que cada grupo tem que defender o seu estandarte, mas tem um inimigo maior e para derrotá-lo precisamos unir forças. As lutas estão separadas, o povo está dividido e “os dragões aplaudem quando os guerreiros brigam entre si”.



E dinheiro?

Eu não tenho dinheiro e quando tenho sou mão aberta. Minha relação com a grana é saudável. Por esse lado material, a vida tem sido muito generosa comigo. Tenho mais pra agradecer do que pra reclamar. Reclamo sim, da injusta distribuição da riqueza entre as classes sociais.  Já passei por dificuldades. Na época das doideiras muitas vezes cheguei em casa torcendo que tivesse pelo menos um tomate na geladeira. Mas é diferente da fome de quem nem sequer tem a geladeira e nem a quem recorrer.


Você não perde a oportunidade de que?

De agregar todo mundo numa festa. Mais do que um músico, um artista, sou um animador cultural. Oswald de Andrade disse e eu acredito mesmo que a alegria é a prova dos nove.




Um dia você ainda vai…..

Gravar as minhas músicas. Gravei muito pouco. Tenho que fazer isso pra depois curtir aguar minhas hortas e cultivar girassóis no quintal.


E o ser humano? 

Nos sapiens matamos nossos seis irmãos descendentes da macaca, nossa mãe ancestral.  Matamos os Neandertais e todos os nossos outros irmãos. Agora estamos nos extinguindo. Só quero viver pra ver o desenrolar dessa história.


Existem heróis? 

Os verdadeiros heróis são anônimos. A maioria deles mora nas quebradas e o simples fato de sobreviverem já é um grande gesto de heroísmo.  A maioria deles são mulheres.


O que é a solidão e o silêncio? 

É o contrapeso da vida agitada, coletiva, barulhenta, competitiva. Solidão e silêncio é serenidade necessária pra colocar o trem nos trilhos.


Eu sou e a minha mensagem é: 

Eu sou uma pessoa de inteligência prática e gosto de atuar em ações coletivas. Tudo o que eu fiz de mais interessante na vida foi com a colaboração e colaborando com os outros. Por ser o mais velho dos dez irmãos, eu estava sempre ensinando alguém a fazer alguma coisa: um arco e flecha, uma engenhoca pra flutuar nas águas do açude, uma nova brincadeira…  Por toda a minha adolescência eu tinha uma fileira de irmãos querendo aprender coisas. Depois eles foram crescendo e também me ensinando com seus próprios saberes.


Por esse meu jeito de fazer uma música que promove o encontro e a alegria, já fui chamado ironicamente de “o mágico da cultura popular”. Só acredito em revolução com alegria. Faço MPB (Música Prapulsar Brasileira) e para aqueles que me chamam de mágico por querer mudar o mundo com a minha estética, eu digo que eles estão quase certos. Desde cedo aprendi com as histórias das calçadas e a magia dos terreiros de minha pobre e rica vida sertaneja. 




E como se fosse mágico 

viajante do seu tempo

desde as terras de Sabugi

Parah encanta a gente 

com as cores do agir

uma cartola mágica

repleta de fantasia

as cordas do violão 

a voz e a melodia 

Ele diz não ser poeta

mas todos se contagiam

E se poeta não for, sua vida é poesia

por ser sinônimo de algo 

que nos enche de alegria

Parahyba é o mágico da cultura nordestina

 

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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