PARA QUE ALGUNS TENHAM ARMAS EM ABUNDÂNCIA

Hoje, 17/02, tem início oficial a Campanha da Fraternidade 2021 (CF 2021), cujo tema é “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”. Desde a sua primeira edição, em 1962, época também em que teve inícioprovidencial Concílio Vaticano II de atualização e abertura da Igreja Católica para os sinais do tempo secular, a Campanha da Fraternidade é uma ação nacional de evangelização realizada anualmente no período da Quaresma o qual contempla os quarenta dias que antecedem os ritos da rememoração da páscoa de Cristo, numa analogia à travessia do povo hebreu em sua libertação do jugo egípcio rumo à terra prometida.

Seu principal escopo, por meio da reflexão e de ações concretas, é o despertar a consciência dos católicos – e da sociedade em geral – para o sofrimento padecido por grande parte de irmãos e irmãs decorrente de injustiças estruturais e conjunturais produzidas pelo sistema socioeconômico brasileiro. No Brasil, mais de 80% dos indivíduos declaram-se professar a fé cristã, entre católicos, evangélicos e outras denominações; mesmo assim, as injustiças estruturais continuam sendo reproduzidas entre nós ao longo dos séculos.

Os problemas abordados, desde então, foram os mais variados. Por exemplo, em 1985, o tema escolhido foi a fome estrutural a assolar o povo brasileiro com o tema“Pão para quem tem fome”; em 1986, “Terra de Deus, terra de irmãos”, problematizando a necessidade da realização de uma reforma agrária profunda no Brasil; em 1987 a reflexão se deu em torno da violência institucional e social praticada contra crianças e adolescentes, pobres e pretas em sua maioria: “Quem acolher o menor, a Mim acolhe”; em 1988, ano em que a Constituição democráticafoi promulgada, a Campanha da Fraternidade dedicou-se ao enfrentamento do racismo estrutural a pessoas negras: “Ouvi o clamor deste povo”.

Desde 1970 a Campanha da Fraternidade passou a ter abertamente o encorajamento oficial da Sede Romana. Anualmente, o Papa publica uma mensagem dando apoio e incentivo a todos os engajados no sentido de avançar em suas conquistas. Na homilia da missa de hoje, o Papa Francisco destacou: A Quaresma é um tempo de verificar as estradas que estamos percorrendo para redescobrirmos o vínculo fundamental com Deus. Aqui está o centro da Quaresma: para onde está voltado o nosso coração? Sinto-me bem com minhas hipocrisias ou luto para libertar o coração da simulação e das falsidades que o mantém  prisioneiro? Por que é muito difícil deixar o cativeiro do Egito.

A CF 2021 busca aprofundar a reflexão sobre os possíveis caminhos para o diálogo e a construção de pontes de amor e de paz em lugar dos muros de ódio. Seu objetivo geral fundamenta-se no convite às comunidades de fé e às pessoas de boa vontade a superar as polarizações e violências mediante um diálogo verdadeiro, corajoso e amoroso capaz de testemunhar unidades em meio às diversidades. Para isso é preciso, especificamente, denunciar a enormidade de violências praticadas e legitimadas indevidamente em nome de Jesus; denunciar a instrumentalização da fé cristã que leva à destruição e exploração socioambiental; agir concretamente para a superação das desigualdades; promover a mudança (conversão) para a cultura do amor como forma de superar a cultura armamentista e do ódio; fortalecer a convivência ecumênica e inter-religiosa; compartilhar experiências concretas de diálogo e convívio fraterno; estimular o diálogo como experiência humana irrenunciável em mundo cada vez mais plural.

Neste ano, as igrejas membros do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil) engajaram-se fortemente em todo o processo de preparação da CF 2021. Esta Campanha resulta, portanto, de amplo mutirão ecumênico o qual muito certamente se ampliará e será mais diverso ao longo de sua realização.

Mas nem tudo são flores. Grupos de conservadores católicos levantaram a voz contra diversos pontos do texto-base da CF 2021, liderados pelo Centro Dom Bosco, do Rio de Janeiro, com 185 mil inscritos em seu canal de YouTube, sob a coordenação de Álvaro Mendes. Para quem desejar um maior aprofundamento sobre algumasdessas manifestações do conservadorismo católico contrário a CF 2021 ver o programaCampanha da Fraternidade 2021: a revolução contra a fé”, produzido por Mendes e seus companheiros:(https://www.youtube.com/watch?v=cm0n1AiExt8).

Além disso, às vésperas da Quaresma, no dia 12/02, o assim chamado Mito católico-evangélico Jair Bolsonaro publicou o decreto presidencial 10.629/2021, firmado também pelo pastor presbiteriano ministro da Justiça, André Mendonça, e pelo general ministro da defesa, Fernando Azevedo, autorizando os atiradores proprietários de arma de fogo a adquirir no período de um ano até mil unidades de munição e insumos para recarga de até dois mil cartuchos para cada arma de fogo de uso restrito; até cinco mil unidades de munição e insumos para recarga de até cinco mil cartuchos para cada arma de uso permitido registradas em seu nome; os atiradores poderão ser autorizados a adquirir munições em quantidade superior ao limite estabelecido acima, a critério do Comando do Exército e por meio de requerimento.

Além disso, o decreto autoriza o aumento, de quatro para seis, do número de armas de uso permitido para pessoas com Certificado de Registro de Armas de Fogo; a possibilidade de substituir o laudo de capacidade técnica por um atestado de habitualidade emitido por clubes ou entidades de tiro; permissão para que caçadores registrados comprem até 30 armas sem necessidade de autorização expressa pelo Exército. (https://g1.globo.com/politica/noticia/2021/02/12/governo-altera-quatro-decretos-de-2019-para-ampliar-facilidades-de-compra-e-registro-de-armas.ghtml).  

Como se vê, parece não ser uma empreitada tão fácil construir unidades visando a uma cultura de diálogo e de paz. Entre os obstáculos há, por um lado, uma intensa luta interna na Igreja Católica com os fiéis conservadoresapegados aos seus interesses fundamentalistas de dogmas e de poder, negando-se a dialogar com outras visões de mundo e a “ouvir o que o Espírito diz às igrejas” pela vozdos sinais dos tempos.

Por outro lado, fato ainda mais grave, tem-se um presidente da República, cuja especialidade é matar(https://web.facebook.com/watch/?v=565304337423441), conforme ele mesmo bradou pelas mídias sociais, tendo como sua “missão mítica” fazer com que alguns tenham armas em abundância. Mas, afinal, por que e para que se quer armar abundantemente setores abastados da população?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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