Palavras e Lágrimas

Quando algumas lágrimas desceram pelas faces do presidente Lula durante uma de suas brilhantes respostas, no dia de ontem, 19, ao grupo de oito jornalistas integrantes de um conglomerado de mídias-livres-das-amarras da oligarquia de comunicação golpista nacional, pode-se perceber, a partir daquela sua expressão, o quanto ele continua fortemente comprometido com o projeto político a propor ao povo brasileiro, convidando a todos e todas ao engajamento e participação efetivos.

Ao mesmo tempo, aquelas lágrimas atestaram o zelo com o qual carrega viva em si a sua história, que lhe serve de marco político-existencial, de retirante da seca e da miséria do agreste pernambucano, favelado em São Paulo, metalúrgico de São Bernardo do Campo, presidente do Sindicato do ABC, fundador do Partido dos Trabalhadores, por duas vezes presidente do Brasil, perseguido político pela conspiração da direita, conduzida pela Rede Globo e pelo ex-juiz corrupto Sérgio Moro, mas vitorioso e livre em sua defesa com a anulação pelo Judiciário de todos os processos persecutórios que pairavam de forma indecente sobre sua pessoa. Via-se claramente em seu ser, em suas palavras e lágrimas, a determinação de um sujeito político.

Então, o que implica dizer que uma pessoa é um sujeito político? Significa dizer que ela pode interferir na história, por meio de sua ação política. Para definir a orientação da sociedade da qual é integrante. Participando, direta ou indiretamente, nas decisões relativas à vida dos membros desta sociedade. Significa agir de forma reflexiva, comprometida e deliberativa para a formação de projetos coletivos.

Para que um indivíduo pudesse se tornar um ser histórico, foi preciso que ele resultasse num ser de direitos, ou seja, ser reconhecido como tendo o direito à liberdade de dizer “não” e de dizer “sim”, sem sofrer atrocidades ou perseguições devido à sua tomada de posição, e de gozar da totalidade dos direitos acordados ao conjunto dos cidadãos e cidadãs. Mas para alcançar tal condição, foi preciso que esse indivíduo participasse das lutas políticas de seu tempo-espaço. Portanto, a garantia das liberdades democráticas, alicerce da condição histórica humana, conquistada pelas lutas políticas, exige a contínua participação ativa dos cidadãos e cidadãs para a manutenção e alargamento do regime democrático.

Como lembra a professora Marilena Chauí, o processo de emancipação dos trabalhadores no correr dos séculos XIX e XX, ampliou a concepção dos direitos que o liberalismo político definia como direitos civis, introduzindo a noção de direitos econômicos e sociais, cuja ênfase recai sobre a ideia e a prática da participação, ora entendida como intervenção direta nas ações políticas, ora como interlocução social que determina, orienta e fiscaliza a ação dos representantes. (Os sentidos da democracia e da participação. Instituto Polis, 2006).

A partir desta perspectiva, a marginalização mais comprometedora, não seria ligada ao acesso precário a bens materiais, mas aquela incrustrada na repressão do sujeito, tendo como resultado mais deletério a subalternidade, o atrelamento do subalterno ao ponto de assumir a vontade do chefe (ou líder) como se fosse a sua. A qualidade humana eminente é política, que significa possuir a capacidade de agir e descobrir lógicas onde parece não existir, ordenar situações caóticas, sem perder de vistas “a nebulosidade de superfícies que querem se apresentar como sendo nítidas”. (DEMO, Pedro. Pobreza Politica, Direitos Humanos e Educação. Brasília-DF: Ed. Síntese, 2003).

Numa outra resposta, desta vez ao jornalista Mauro Lopes, da TV 247, o presidente Lula afirmou que irá reeditar as Conferências Nacionais, ocorridas no segundo mandato (2007-2010), para a elaboração das políticas públicas no seu novo governo, além de remontar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, ainda mais paritário e mais representativo da sociedade brasileira. Segundo Lula, um dos grandes resultados dos dois mandatos presidenciais anteriores, “foi o povo brasileiro ter descoberto que fazia parte (participava) do seu governo, por meio da inclusão nas decisões”. E para o próximo mandato ele acha fundamental contribuir para transformar o povo “em sujeito da história”: “Não é apenas a Avenida Faria Lima (região do centro financeiro do país), não é apenas a Bolsa de Valores, há outros setores importantes para decidir que tipo de Brasil nós vamos querer, respeitando a totalidade da sociedade brasileira. É preciso aprimorar a instituições deste País”.

Lula vem demonstrar nesta coletiva de imprensa, mais uma vez, o quanto a política encerra em si a capacidade de abrir espaços para a escuta do outro, desenvolvendo uma verdadeira pedagogia de saber-silenciar-para-saber-ouvir a todos, atentamente, inclusive adversários, com o objetivo de superar particularismos, ampliando o próprio horizonte político na busca de uma compreensão mais realista dos desafios a serem suplantados tendo em vista a construção de projetos mais justos, mais distributivos e fautores da igualdade entre os cidadãos, num processo de educação contínua das consciências. (LUBICH, Chiara. A fraternidade e a paz em vista da unidade dos povos. Rimini, 2002). Sua meta é criar cerca de 5.000 comitês populares de campanha, uma espécie de células embrionárias da participação e formulação anunciada para o seu terceiro mandato.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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