OURO, INCENSO E MIRRA, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Foi Henry Kissinger quem captou a essência da verdadeira política externa dos Estados Unidos quando definiu os nacionalismos independentes como um vírus capaz de disseminar perigosas doenças contagiosas a nível mundial, ameaçadoras da hegemonia estadunidense.

Nos anos 1960, na América Latina, o perigo residia no ‘vírus cubano’. Por isso a região foi vacinada com cruéis ditaduras militares, a começar pelo golpe inspirado por John Fitzgerald Kennedy, instalando no Brasil em 1964 um regime de terror e tortura, estendendo-se por Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, entre outros países. Desde então essa sanha imperialista do poder terrorista das Forças Armadas dos Estados Unidos continua a oprimir países dos quatro cantos do mundo sem, claro, descurarem do seu quintal no qual voltaram a intervir fortemente, como ocorre recentemente no Brasil desde o Golpe de 2016. O vírus ameaçador atual é o Presidente Lula e o PT com sua política de soberania nacional articulada com os países do hemisfério sul e com o BRICS, tendo em vista um mundo multipolar.

Com a eleição em 2018 do grupo capitaneado pelo pensamento olavista de ultradireita, a política brasileira mudou, apresentando diversas interrogações pela guinada radical na concepção de política externa. Essa experiência que apenas se inicia carrega uma enorme contradição em virtude de no Brasil o conservadorismo ser fortemente influenciado pela tradição estadunidense. Com os últimos movimentos do governo brasileiro, na recente visita de Bolsonaro com sua equipe a Washington (EUA), criou-se uma perplexidade em diversos setores da sociedade civil brasileira levantando a questão básica: pode um país soberano desenvolver sua política externa num formato submisso à visão estratégica de uma nação que não admite ser contrariada em suas prioridades de dominação mundial?

O atual chanceler Ernesto Araújo escreveu na revista conservadora “The New Criterion” que foi a Divina Providência quem uniu as ideias de Olavo de Carvalho com a determinação do novo presidente eleito Jair Bolsonaro. Essa “providência divina” está, entre outras coisas, a por em xeque princípios tradicionais da politica externa brasileira. Primeiramente, a racionalidade burocrática do Itamaraty está sendo substituída por uma gestão baseada na crença em teorias da conspiração, pouco reconhecidas no mundo acadêmico. Como se não bastasse, soma-se a isso o caráter de religiosidade que condiciona um tipo de olhar civilizacional na condução de nossas relações externas o qual acredita que o internacionalismo liberal, o livre-comércio e a economia transnacional são fenômenos vinculados ao ideal socialista de vertente democrática, comprometido com os valores do Bem-Estar Social, da paz e da justiça internacional, como anota o professor de relações internacionais da PUC-MG, Klei Medeiros. O pensamento do guru do grupo bolsonarista propõe como resposta a este socialismo ateu a necessidade de reorganização mundial pelo estabelecimento de um Leviatã, acima das soberanias nacionais, impedindo os nacionalismos e a condução autônoma das políticas internas pelos Estados.

Nesta semana, dia 17, numa visita construída midiaticamente por muitos simbolismos, tivemos a oportunidade de verificar um pouco dessa ideologia em ação. Em uma espécie de Santa Ceia da Direita, conforme registrado pela Folha de São Paulo, Bolsonaro afirmou em seu discurso que “aspectos relativos ao antigo comunismo não podem mais imperar”. Demonstrando concretamente essa submissão ao governo Trump, Bolsonaro ofereceu presentes valiosos ao centro de poder por ele reverenciado. Como servo fiel, prestigiou os súditos estadunidenses ao abrir as fronteiras do Brasil para o livre acesso daquela gente sem requerer o princípio da reciprocidade aos EUA com relação aos cidadãos brasileiros quando estes ingressarem naquele país, numa clara demonstração da desqualificação de nossa gente em relação aos estadunidenses. Em segundo lugar, abriu as portas da biodiversidade da Amazônia brasileira à exploração irrestrita por aquele império. E na segunda-feira dia 18, assinou, em solo estadunidense, a entrega da nossa Base de Alcântara, no Maranhão, mediante um acordo de salvaguardas tecnológicas, autorizando os EUA a utilizar aquele espaço estratégico para desenvolvimento de seus projetos aeroespaciais. Importante registrar que há oito anos o vazamento das informações de circulação restrita dos EUA mostrou que este governo terminantemente não apoiava o desenvolvimento de um Programa Brasileiro de Desenvolvimento e Lançamento de Foguetes.

Para dar continuidade à entrega de nossas riquezas ao Leviatã mundial, os olavistas definem como ação política interna o estabelecimento de um clima de caos visando fragilizar as instituições brasileiras. Somente desta forma Bolsonaro e seu grupo terão condições de ignorar as regras e os valores do Estado de Direito Democrático para impor de próprio punho sua agenda conservadora submissa aos EUA. E estão fazendo isto por meio de manifestações maciças nas redes sociais e na mídia hegemônica nacional, chacoalhando referências ao brutal assassinato de Mariele Franco; comemorando as notícias de violência policial e jurídica com os abusos e ilegalidades da Operação Lava Jato; ovacionando ditadores como Pinochet e torturadores como Brilhante Ustra; defendendo a proliferação de armas; conspirando contra o conhecimento científico e artístico; metendo Deus em todos os assuntos políticos; advogando o fim do Supremo Tribunal Federal; criminalizando os movimentos sociais; criando a narrativa de que todos os problemas econômicos brasileiros são responsabilidade do PT.

Com a construção dessas ficções, os bolsonaristas estão levando adiante o seu projeto de poder autoritário internamente e submisso aos EUA. Sociedades e classes decadentes são aquelas que mais se apegam às ficções, já que praticamente nada têm a ganhar com a Verdade. Inversamente, sociedades e classes sociais com perspectiva de futuro reagem fortemente às ficções do poder mediante uma tomada de posse de consciência da realidade para enfrenta-la e modifica-la por meio da luta social e política. É preciso abrir os olhos para fazer cair essas mentiras e unificar a luta em torno da volta da democracia e da soberania brasileira.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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