OS RUMOS DO ITAMARATY, por Rui Martinho

A frente vencedora das eleições está se organizando em torno de núcleos técnico/econômico, político e militar. O Itamaraty é necessariamente político, logo permeável, em alguma medida, ao fator ideológico. Mas também é técnico: analisa aspectos políticos, econômicos e tecnológicos.

As transformações que o mundo atravessa colocam grandes desafios diante das relações exteriores. O equilíbrio mundial está sendo modificado com o surgimento da China como superpotência. O ressurgimento da Rússia e as dificuldades da União Europeia acentuam o desequilíbrio do quadro internacional. A Índia também está em vias de se tornar uma grande potência, contribuindo para deslocar o eixo de poder do Atlântico Norte para a Ásia e o Pacífico. A globalização e o globalismo são parte dos desafios do novo tempo.

Livre comércio, vantagens comparadas e nova divisão internacional do trabalho, reunindo, na confecção de uma roupa, algodão plantado no Egito, máquinas de Taiwan, força de trabalho do Vietnam, oferecendo custos vantajosos para o consumidor e oportunidades para os produtores dos países citados, em razão das vantagens comparadas é a globalização. Tirou centenas de milhões de pessoas da miséria e foi mais vantajoso para os países periféricos, suscitando reações no primeiro mundo, como o Brexit, no Reino Unido e a eleição de Donald Trump, nos EUA. A resistência enfrentada por este movimento foi, inicialmente, capitaneada pelas políticas de tendência socialista ou assemelhada.

O globalismo é a outra face da globalização. Não é o livre comércio. É a regulamentação internacional de problemas tais como aqueles de natureza ambiental, relações de trabalho e direitos das minorias. A globalização, porém, potencializou a ênfase nas questões próprias do globalismo. As tendências que se opunham à globalização agora apoiam o globalismo. Gostam de regulamentar, controlar, exercer poder. Algumas forças que apoiavam a globalização, de outra parte, se opõem ao globalismo. Não gostam de muita regulamentação e controles.

O multiculturalismo diferencialista se opunha à globalização. Agora apoia o globalismo. Espera regulamentação internacional tendente a congelar culturas minoritárias em nome da preservação. Ambientalistas esperam regulamentação global para o ambiente. Forças preocupadas com a defesa do Estado soberano resistem ao globalismo. O núcleo econômico do novo governo tem inclinação pelo livre comércio. Os militares talvez tenham alguma resistência diante da tutela globalista sobre o Estado nacional. O núcleo político é heterogêneo e dividido. Na corrente confessional alguns resistem ao que entendem como governo mundial e à ascensão das potências asiáticas, percebidas como os “reis do oriente”, na linguagem escatológica. Quem prevalecerá e o quanto? O tempo dirá.

Rui Martinho

Rui Martinho

Doutor em História, mestre em Sociologia, professor e advogado.

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