Os fantasmas de Marielle e Adriano atormentam Bolsonaro

Lá se vai mais um carnaval. Deixa-se o mundo da fantasia, retorna-se ao mundo real. Depois de partir para o teatro de momo e deixar a dor em casa esperando, na quarta-feira sempre desce o pano.

 

Nenhuma surpresa. Como sempre o script cumprido dentro do padrão globeleza. Se outrora a crítica fora dirigida ao vampirão Temer, que cumpriu seus compromissos com o capital internacional sem sofrer qualquer arranhão político dos foliões que lhe desestabilizasse seu governo, agora em 2020 o roteiro estabelecido mirou a crítica bem comportada, e consentida pela organização do evento, ao capitão Bolsonaro. Afinal, para uma das articuladoras do Golpe de 2016, ele é um indesejável ponto fora da curva, não previsto em sua novela golpista original redigida no Instituto Millenium.
Desfile do carnaval a Globo permite; passeata de greves, não. Segundo a FUP (Federação única dos Petroleiros), 21 mil petroleiros entraram em greve em 1º. de fevereiro, em 121 unidades da Petrobrás, em 12 estados. A Globo não cobriu jornalisticamente esse “desfile” dos petroleiros pelo Brasil. Ninguém viu, ninguém vibrou, ninguém curtiu. Como pode uma concessão pública agir assim e ficar por isso mesmo? Como afirma o cientista político italiano Giovanni Sartori, a opinião pública não é inata, não surge do nada. É um processo de disseminação de opiniões a partir das elites. Como se pode ter uma justa opinião sobre a greve dos petroleiros se ela foi tornada invisível pela Globo?

 

De volta ao mundo real, deparamos com um teatro do absurdo. Por um lado um general, ministro do governo federal, insultando o Parlamento brasileiro, por conta do orçamento impositivo. Por outro lado, disparado diretamente do aparelho celular do presidente da república, conforme atestam diversos veículos de comunicação social, um vídeo convocando seus seguidores a ocuparem as ruas no próximo dia 15 para uma manifestação em seu apoio. Sinais de fraqueza? Ou desvio de foco, para manipular a opinião pública daquilo que é essencial, como tão bem faz a Globo?

 

Bolsonaro é um presidente sem partido político. Em sua ação nacional para a criação do seu partido Aliança (possível menção a ARENA da ditadura militar?), só conseguiu obter 2,9 mil assinaturas validadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Esse número corresponde apenas a 0,6% do número mínimo exigido para que um partido seja criado. Uma pedra em seu caminho expondo a fragilidade da vida real, diferente do mundo “fake” dos robôs e perfis fictícios, povoado pelas libélulas.
Sua imagem – e a de sua família – se desgasta em ritmo alucinante depois da morte do fugitivo da lei Adriano da Nóbrega, no sítio de um vereador do PSL, na Bahia. A população pressente que há “algo de podre do reino da Dinamarca”, mesmo porque foi o próprio Capitão que deu luz à possibilidade de “queima de arquivo”. Numa de suas entrevistas coletivas, ele afirma: “Eu é que pedi para que meu filho o condecorasse (Adriano da Nóbrega), para que não haja dúvida. Ele era um herói. Eu determinei”. Em seguida, a repórter perguntou: “Então, foi o senhor que pediu para empregar no gabinete do seu filho a mãe e a mulher do Adriano (Raimunda e Daniele)?”. Bolsonaro, totalmente embaraçado, disse: “Olha, vamos encerrar essa conversa aqui, isto que você está perguntando é um absurdo”. (Daniele e Raimunda receberam mais de um milhão, sem precisar comparecer ao trabalho e repassaram R$200 mil para o evaporado Queiroz). Collor caiu por muito menos.

 

Relembrando, Adriano da Nóbrega foi um dos alvos da Operação Intocáveis, por uma força-tarefa da Polícia Civil e do Ministério Público. Naquela operação foram presos cinco suspeitos de integrar a Milícia que agia nas comunidades de Rio das Pedras e Muzema. Além do suposto envolvimento no assassinato de Marielle Franco, o Grupo é acusado de extorsão de moradores e comerciantes, agiotagem, pagamento de propina e grilagem de terras. Entre os detidos estava o major da Polícia Militar Ronald Paulo Alves Pereira, vulgo Tartaruga, que em 2004 o deputado Flávio Bolsonaro também propôs “menção de louvor e congratulação” ao então capitão Pereira, como fizera em relação a Adriano.

 

Marielle e Adriano vivem na mente dos cristãos da Família Bolsonaro. Belos cristãos!

 

E para o povo que segue sua luta pelo retorno da democracia no Brasil, em tempo de Quaresma, concluo com um trecho da Carta aos Hebreus: “Lembrem-se do que aconteceu no passado. Naqueles dias, depois que a luz de Deus brilhou sobre vocês, vocês sofreram muitas coisas, mas não foram vencidos na luta. Alguns foram insultados e maltratados publicamente, e outros tomaram parte no sofrimento dos que foram tratados assim. Vocês participaram do sofrimento dos prisioneiros. E quando tiraram tudo o que vocês tinham, vocês suportaram isso com alegria, porque sabiam que possuíam coisa muito melhor, que dura para sempre. Portanto, *não percam a coragem*, porque ela traz grande recompensa” (Hebreus, 10, 32-35).

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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