Onde reside o intervalo no tempo? – Parte II

Em nosso último escrito deixamos em aberto o questionamento posto na condição de título. O ato, proposital que foi, não carregava consigo a condição de ganhar tempo para responder ao proposto. Residia, sim, no ato simples de afirmarmos, com o risco da palavra afirmação, da inexistência de intervalo no tempo. Adentremos, então, à segunda parte.

Ao rompermos a fronteira do ano pretérito, 2019, e ingressamos no novo delimitado espaço de 365 dias nominado de 2020 (podem chamar de Ano Novo) não houve um intervalo no tempo, mas uma modificação de datas com nomes de meses iguais aos de anos passados. Antes que historiadores adentrem a defender a divisão entre História Antiga, Média, Moderna e Contemporânea, sem desconsiderar os recortes pré-históricos rabiscados nos livros de história por todos lidos afirmo que sou historiador, Apenas abraço a condição de pensar e não concordar com a divisão arbitrária imposta pelo homem à História e, por consequência, à concepção de tempo.  Portanto, antes da revolta cabe a leitura. O mundo está cansado de revoltosos a desconhecer o hábito simples da leitura.  

Antes de respondermos ao questionamento título necessário entender ser a concepção de tempo de suma importância ao ser lida enquanto movimento, e não como rupturas abstratas construídas por movimentos políticos, a exemplo da Revolução Francesa que “encerra” a “Idade Moderna” e coloca o mundo na “Idade Contemporânea”. Uma data, uma ruptura, um mundo novo? O 14 de julho nada mais significou que a instalação de um novo governo assentado em ditames constitucionais de raízes iluministas.

Isto posto, necessário considerar a noção de tempo em sua ideia aristotélica de movimento e abandonar, de uma vez por todas, a concepção clássica de passado, presente e futuro. Não sei, realmente não tenho como saber, se o leitor a neste momento deitar seus olhos sobre este texto está a viver no passado, no presente ou no futuro. Dependendo de sua concepção de vida pode residir, ainda, em um olhar compartimentado do tempo e não perceber o mesmo no movimento. Se estás no presente a próxima linha deste é teu futuro e a que acabaste de ler o teu passado. Percebeste que o mundo não parou para te afirmar ser passado, presente e futuro? Ah! Os franceses e sua revolução (con) sagrada conseguiram fazer com que acreditássemos numa ruptura no tempo.

Antes deles os pensadores renascentistas no afã de criarem um novo tempo, uma nova era, passaram a destruir o pensamento medieval jogando-o no mundo das trevas. Shakespeare, Cervantes, Camões, Gil Vicente, Erasmo de Roterdã nada mais fizeram que nos inquietar de pensamento anterior (passado) estava ultrapassado e, o deles, era o novo. O presente a abrir portas ao futuro. Se isto é verdade não estás a crer no catolicismo instaurado pela Igreja de Roma, no calendário cristão e nas datas comemorativas do mundo cristão? É isto? 

Vamos falar de tempo e não de convenções políticas, sociais, jurídicas e culturais que interrompem, a cada minuto, o nosso olhar sobre a sociedade. Interrompem para que passemos a olhar como querem os revolucionários sempre presentes nos séculos desde de Caim.  Da Pré-História novas técnicas têm modificado a concepção de tempo do homem e criado novos espaços no universo de tempo e, de forma arbitrária, criado novas noções de passado, de presente e de futuro. 

Se olharmos para o terreno da literatura ou do cinema veremos que os personagens perpassam pelas páginas e telas sem olhar rupturas no tempo. Vale a continuidade, não a ruptura. Em Crime e Castigo de Dostoievsky o tempo não é mensurado pela data arbitrária do calendário, mas pelo tempo da pena imposta ao autor do crime cometido: o castigo. Edmond Dantes, personagem central de O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas, quando preso não deixa de viver o tempo na cela, mesmo sem ter noção do arbitrário tempo do calendário. Dantes preso é um homem a viver o tempo na cadeia. Sem passado, sem presente e sem futuro. Vive a continuidade de sua vida sem rupturas.

A crise imposta ao homem através da noção do calendário que impõe uma noção de tempo faz deste homem um ser a não ter condição de viver, mas apenas um ser de vida. E qual a diferença? Elementar, diria Holmes a Watson. É que o tempo construído com intervalos através do calendário, dos anos, meses, dias, horas, minutos impõe uma condição biológica ao ser vivente. O homem passou a respirar, mas não a viver. O viver é um elemento social no contínuo do tempo e não a vida, em seu sentido biológico, do calendário imposto. 

Que possamos viver, pensar e agir sem o condicionamento de meses, dias e horas. 

Afinal, o viver, como o amar, é um (tempo) contínuo.     

Medeiros Júnior

Medeiros Júnior

José Flôr de Medeiros Júnior é Mestre em Direito Econômico - PPGD/Unipê e em Ciências Jurídicas - PPGCJ/UFPB, Pós-Graduado em História (UEPB), graduado em Direito - Unifacisa – PB e em História - UEPB. Professor de Direito e Consultor em Educação. Autor de livros, capítulos de livros e artigos sobre meio ambiente, cidadania e o tempo enquanto discussão filosófica. Apaixonado pela literatura com especial olhar aos escritos de Dostoiévski, Camus, Kafka, Borges, Saramago, James Joyce, Mário Vargas Llosa, George Orwell, Umberto Eco. Leitor de Nietzsche, Foucault e Certeau, mas prefere conversar com Walter Benjamin.

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