Onde reside o intervalo no tempo? – Parte I

Atualmente muito tem se falado e escrito sobre crise. Fala-se de crise econômica, social, política, cultural, ética, militar, do modelo de família, nas/das artes, na/da literatura, na filosofia, no pensamento, no conhecimento e, desta forma, estamos, na realidade vivemos, em crise. Ocorre que pouco tem se discutido sobre a palavra, etimologicamente falando, crise. Apontamos ser necessário entender a crise (palavra) para falar sobre a crise e daí interrogarmos onde reside o intervalo no tempo.

O que se tem feito cotidianamente é apontar a crise na condição de resposta às crises existentes o que é, por si, um aprofundar da, ou do estado de, crise. Kujawski afirma que “o fenômeno da crise está normalmente associado à ideia de esgotamento, regressão e esterilidade.”. Mas não se pode ficar apenas na melancolia (estado de crise) que tais palavras apontam. O próprio Kujawski aponta ser a Itália em crise a nos trazer Dante, Maquiavel, Petrarca, Leonardo da Vinci e Michelângelo; a Alemanha em crise nos trouxe Goethe e a Rússia em crise nos ter posto Dostoiévski enquanto o adentrar do Séc. XX nos apresentava James Joyce.
A crise pode ser um momento de criação e não, necessariamente, de paralização (elemento de tempo) e neste caminhar Bordoni afirma que “se pode ver, “crise”, em seu sentido próprio, expressa algo positivo, criativo e otimista, pois envolve mudança e pode ser um renascimento após uma ruptura.” e esta visão de Bordoni possibilita a compreensão do aparecimento de Shakespeare e Camões, ambos do período renascentista europeu. Antes de apontarmos o que possa ser, ou não, crise, entendemos ser importante a discussão sobre a crise no/do conhecimento. Esta pode ser apontada quando o conhecimento começa a ser transformado em saberes especializados diminuindo a noção de mundo do homem.
A delimitação de novos territórios do saber, frutos da crise no/do conhecimento, como psicologia, economia, antropologia, história, economia, sociologia e tantos outros fazia, naquele instante, com que o homem, ser nascente, perdesse a visão sistêmica para visualizar apenas partes do conhecimento denominado agora de saberes e, em um processo de aprofundamento da crise, caminhasse para um sítio onde a especialização imperava, agravando-se nos dias de hoje e aqui encaminhamos o leitor a mergulhar em As Palavras e as Coisas de Foucault ou A Condição Humana de Arendt.

Esta crise, a do conhecimento, não estaria restrita aos escritos de Foucault. Viria a ser explorado por Ginzburg na história e por Durkheim na sociologia para ficarmos em dois espaços de escrita. O importante é termos a percepção de que a crise instaurada não reside como posta no mundo contemporâneo (seria elemento de tempo? O que é contemporâneo?) a ser da economia, da sociedade ou da cultura. Ela é maior. Ela, a crise, está a residir no próprio conhecimento e, por isso, o homem não consegue compreender, visto a vitória da especificação do saber terminar por impedir uma visão para além do ato biológico do ver. Perdemos a capacidade de, e do, olhar. A ausência de visão do homem, em eterna crise, não deixa que perceba ter resolvido o problema a ele posto.
Por este prisma temos que a crise ao invés de ser posta como caminho à ampliação do conhecimento vem sendo vista como resposta aos problemas contemporâneos. Ou seja, a culpa é da crise. Dentro deste raciocínio vivemos em crise eterna e, neste ponto, adentramos ao tempo como componente essencial à compreensão do conflito. Sim, o tempo. O tempo como fator de crise e elemento a mensurar as crises. Do tempo da ampulheta ao relógio digital o homem rendeu-se ao tempo da crise. A crise passa (elemento de tempo presente), a crise virá (elemento de tempo futuro).
Tal reflexão havia sido realizada por Santo Agostinho ao explanar sobre o tempo e questionar: “de que modo existem aqueles dois tempos – o passado e o futuro – se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente e não passasse para o pretérito, já não seria tempo, mas eternidade.”. Para o teólogo existirá um momento (tempo) que o presente (que um dia foi futuro e logo passará) será passado (tempo) sob pena de permanência (tempo) e o homem vive em crise à medida que o tempo vai passando e este envelhece sem notar, ou a notar preferindo não anotar, o tempo a passar. O homem, em eterna crise, tem receio de dialogar com o tempo, autor de sua vinda e de sua ida, mas que foi, também, o autor de sua permanência, curta ou longa. Não estamos, ainda, a responder ao título deste escrito.
A literatura, território vasto de, e para, crises, percebeu este receio humano. Borges em História da Eternidade escreve que “a eternidade, cópia despedaçada é o tempo.” para logo depois questionar “como foi encetada a eternidade? Santo Agostinho ignora o problema, mas aponta para um fato que parece permitir uma solução: os elementos de passado e de futuro que há em todo presente.”.
Não vamos adentrar à discussão, embora dentro dela estejamos, entre Borges e Santo Agostinho porque entendemos que o segundo compreendeu a eternidade e, portanto, não a ignorava. Mas não podemos deixar de ter a atenção devida à distância no tempo entre os dois, o mundo medieval de Agostinho e o Séc. XX de Borges, para a eterna discussão a residir sobre a importância do tempo nas relações humanas. Enquanto para Kujawski “a crise não é uma constante histórica, nem é a ameaça do apocalipse, do final dos tempos.”.
Um dos pontos cruciais ao tempo vem a ser a memória (categoria presente no tempo presente e vinculada ao tempo passado). Neste sentido as crises perduram mais do possa parecer devido à memória humana que, em sua seletividade, escolhe lembrar, ou não, de determinadas crises vividas. O escritor francês Albert Camus percebeu tal situação a ponto de em O Primeiro Homem afirmar da necessidade de olharmos para importância da memória aduzindo que a “dos pobres já é por natureza menos alimentada que a dos ricos, tem menos pontos de referência no espaço, considerando que eles raramente saem do lugar onde vivem, e tem também menos pontos de referência no tempo de uma vida uniforme e sem cor.” .
No que concordamos com Camus afirmamos que talvez a memória dos pobres não tenha menos pontos de referência no tempo, esta memória não tem tempo. Paradoxalmente estamos, no caso dos pobres, em uma memória onde a mensuração do tempo não existe. Aqui novamente iremos nos socorrer da literatura. Victor Hugo ao escrever Os Miseráveis elege como personagem central Jean Valjean que, não por coincidência, passa a ter uma memória narrada dentro do tempo (passado e presente) quando passa a ter um convívio social regrado pelas normas estatais. O seu passado não pode vir à tona (elemento de tempo), embora exista o tempo todo em sua memória.
Por outro lado, sua memória reside presa em um momento de sua vida onde não há tempo mensurado, mas tempo vivido. Afinal, como escreve Certeau “o memorável é aquilo que se pode sonhar a respeito do lugar.” e os pobres, embora possam sonhar, não tem uma memória do lugar para alimentar este sonho o que levaria George Orwell a discutir tempo e memória em dois textos imperdíveis. A saber, Na Pior em Paris e Londres e Como Morrem os Pobres e Outros Ensaios onde o autor caminha pela indignidade da vida posta à maioria das pessoas nos espaços citadinos.
Ao expor que a crise não é o final dos tempos Kujawski aponta para a estrada traçada pelo tempo criando possibilidades de se discutir, debater e dialogar sobre a crise. Afinal, será a crise curta ou longa? As duas palavras são dimensões de tempo e espaço, elementos indissociáveis. A este homem que de muito (elemento de tempo) perdeu a noção de tempo, espaço, memória e de conhecimento não percebe que nele não mais reside uma vontade a ser dele própria. Existe uma vontade de terceiros (social, cultural, política e jurídica) mas não uma vontade emanada de seu raciocínio, de sua escolha, de sua autonomia. Sendo assim a crise somente se aprofunda no próprio ser, humano que é. A crise não é externa ao homem a dela reclamar. Importante salientar que quando da perda da noção de tempo o homem perde, também, a noção de espaço.
Reside, desta forma, a pergunta a intitular este. Ou seja, onde reside o intervalo no tempo? A pergunta não pode ser onde reside o intervalo do tempo porque este, enquanto movimento, não carrega consigo a possibilidade de intervalo sob pena de se o movimento parar o leitor não mais poderá terminar (caso esteja a realizar) a leitura deste. E ocorrendo a paralisia do movimento estaríamos diante do tempo parado, paralisado. Isto não significa tempo perdido porque não existe tempo perdido. Podemos aceitar um uso equivocado do tempo, mas não a expressão perda de tempo.
Considerar a existência do intervalo no tempo seria (principalmente com a proximidade do término do ano) considerarmos a existência, se possível fosse, de controlarmos o tempo. Estamos diante do eterno (elemento de tempo) dilema estabelecido quando do advento do relógio e seus intervalos em horas, minutos e segundos. Nossa vida com o surgimento do relógio passou a ser mensurada em intervalos elaborados pelo homem desconsiderando o viver no tempo para o viver na hora. O viver na hora estabeleceu nova crise no homem quando este internaliza o viver em horas e abandona o viver no tempo.
Retornando (elemento de tempo) ao título deste deixaremos o leitor a esperar (elemento de tempo) o que consideramos sobre a existência, ou não, de intervalo no tempo no próximo (elemento de espaço e de tempo) texto. A provocação sobre onde reside o intervalo no tempo, realizada em 2019, somente poderá continuar em 2020. Que ironia!!! Fui pego no intervalo do calendário (elemento de tempo)!!!

José Flôr de Medeiros Júnior

Medeiros Júnior

Medeiros Júnior

José Flôr de Medeiros Júnior é Mestre em Direito Econômico - PPGD/Unipê e em Ciências Jurídicas - PPGCJ/UFPB, Pós-Graduado em História (UEPB), graduado em Direito - Unifacisa – PB e em História - UEPB. Professor de Direito e Consultor em Educação. Autor de livros, capítulos de livros e artigos sobre meio ambiente, cidadania e o tempo enquanto discussão filosófica. Apaixonado pela literatura com especial olhar aos escritos de Dostoiévski, Camus, Kafka, Borges, Saramago, James Joyce, Mário Vargas Llosa, George Orwell, Umberto Eco. Leitor de Nietzsche, Foucault e Certeau, mas prefere conversar com Walter Benjamin.

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