ONDE ESTÁ O TEU IRMÃO? – Alexandre Aragão de Albuquerque

No documentário “Descendentes de nazistas: o legado infernal”, de Marie-Pierre Raimbault e Michaël Grynszpan (2014), há um momento de uma pergunta do narrador: “o que faz centenas de alemães morarem em Israel perto das vítimas dos horrores da Shoah praticados por seus ancestrais?”. Ele pondera que se os grandes criminosos nazistas cinicamente se declararam “não culpados” durante o julgamento de Nuremberg, talvez eles tenham deixado essa odienta culpa histórica como herança para os seus descendentes. Donde surge a questão: o que significa herdar o pecado de nossos antepassados? E como fazer para saná-los?

No Brasil, nosso pecado histórico aberrante, com graves consequências para os dias de hoje, está encravado no escravismo de humanos africanos negros e no genocídio dos habitantes primitivos deste vasto território tropical. Na obra do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre – CASA GRANDE & SENZALA – considerada por Antônio Cândido o livro mais importante das ciências sociais brasileiras, o autor nos fala da violência dos donos da Casa Grande contra os humanos escravizados, construindo uma estrutura hereditária escravocrata, induzindo o seus jovens herdeiros à bestialidade e ao sadismo, alimentando nos adolescentes “o gosto de mandar dar surra, de mandar arrancar os dentes dos negros etc.”. Os meninos brancos, através da submissão do “moleque” (o escravinho das brincadeiras, expressivamente chamado de leva-pancadas), violentavam constantemente essas crianças escravizadas para iniciarem-se em suas satisfações sexuais infanto-juvenis. Quando esses herdeiros tornavam-se homens feitos, desenvolviam o gosto pelo mando sádico no exercício de diversas funções de posição elevada, como no de funções político-jurídicas e da administração pública, ou simplesmente o puro gosto pelo mando de todo brasileiro nascido em casa-grande de engenho.

Diante destes dois brevíssimos registros de horror históricos, vem-nos o interesse de retomar o tema do “pecado de nossos antepassados”, buscando alguma mínima orientação em fontes originárias sobre o tema. O importante teólogo da Idade Média, o argelino Agostinho, bispo de Hipona, associa a grande marca na realidade humana ao fato de Adão e Eva haverem comido do fruto proibido, devido ao seu orgulho e egoísmo, rejeitando o amor de Deus ao desobedecerem a seus preceitos. Agostinho denominou o relato de pecado original. Para o teólogo, este possui um caráter congênito e hereditário, abrindo as portas do mal, da morte física e espiritual, a todos os humanos de todos os tempos e espaços.

Mas na alegoria da criação gravada no livro do Gênesis, encontra-se, ao nosso entender, outra narrativa fundante, produtora de uma marca indelével no curso do processo civilizatório. A história dos dois primeiros irmãos, Caim e Abel: um agricultor e o outro pastor de ovelhas. Conta-nos a parábola que após a labuta diária, quando chegado o momento das ofertas do fruto de seus trabalhos a Deus, ocorre ao Criador agradar-se do dom do irmão menor, demonstrando desdém pelo presente ofertado pelo primogênito. Diante da incapacidade de absorver este desconforto, Caim irou-se fortemente deixando seu semblante esmorecer (Gn 4,5). Depois do episódio emblemático, ao retornarem ao campo, sucedeu de Caim voltar-se contra o seu irmão, assassinando-o. Inesperadamente Deus lhe surge e pergunta: onde está o teu irmão? Esta, possivelmente, parece ser a grande questão existencial produzida pelo Antigo Testamento.

No Novo Testamento vamos reencontrar a temática entre Caim e Abel reconfigurada na doutrina de Jesus de Nazaré. A centralidade do ensinamento cristão é expressa em uma nova ordem fundada a partir da autoridade de Jesus, confirmada por sua ressurreição dos mortos. A ressurreição será o “leitmotiv” da mensagem apostólica paulina por excelência. “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. O que ordeno é que vos ameis uns aos outros” (Jo, 15, 12). Portanto, o mandamento novo surge como a resposta fundamental em relação ao fratricídio ocorrido entre Caim e Abel. É para este fato que Jesus aponta e não tanto para os desafios enfrentados por Adão e Eva em seu processo de conquista da liberdade humana – negativa e positiva – com a alegoria bíblica do fruto proibido. A marca distintiva de cada humano, a partir do mandamento cristão, é em relação ao amor fraterno.

Entre os autores que se destacam na reflexão sobre esta ética fraterna, encontra-se a italiana Chiara Lubich ao afirmar que “Jesus nos pede um amor capaz de tornar-se diálogo; longe de trancar-se orgulhosamente em seu próprio mundo, saiba abrir-se a todos. Diálogo é enriquecimento recíproco, dar o que temos de nós mesmos e receber o dom do outro”. Dar e receber, portanto, implicam não somente uma troca material, mas também uma troca espiritual. Ao dar, dou sempre de mim mesmo. Por mais variadas que sejam as dádivas sempre reiteram a necessidade de colocar-se no lugar do outro para entendê-lo, como também, em maior ou menor grau, como este recebendo de mim, recebe a mim mesmo.

Para o antropólogo brasileiro Carlos Rodrigues Brandão, toda sociedade humana se preserva e se transforma na medida em que conserva e inova sistemas de reciprocidade que nos fizeram passar do bando biológico ao grupo cultural. O princípio de tudo o que cria a uma só vez o humano, a sociedade humana e a cultura parte de algo absolutamente novo como experiência de vida no mundo: a tomada coletiva de decisão iniciada em atos de renúncia de si e completada com “um dar ao outro o que é meu” na espera de semelhante renúncia e de uma equivalente dádiva.

Emmanuel Levinas, filósofo francês, define que a postura básica do homem ético é a responsabilidade diante de um rosto que o fita. A responsabilidade por outrem é o que confere espírito aos humanos. O outro, em sua vulnerabilidade, deixa-me igualmente vulnerável e não posso esquivar-me ao seu olhar. Ao percebê-lo, coloco-me no seu lugar e sofro o seu sofrimento em mim. A ética fraterna é afirmada por meio desta relação face a face com o outro. A passagem da ética para a política é marcada pela chegada de um terceiro, significando OUTROS, multiplicidade de sujeitos que fundam a polis. Assim, uma democracia plural consiste na abertura para ouvir respeitosamente a voz dos outros para construir sínteses capazes de convivência humana solidária e justa para todos.

Este parece ser o desafio de base para nós humanos do tempo presente. Somente com a vivência de uma ética fraterna construiremos as condições de sanar os pecados de nossos antepassados, além de possibilitar aos nossos descendentes uma humanidade mais civilizada e tolerante social e politicamente.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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