Foto da banda Omminous

Omminous: revelação cearense com maturidade mundial

Segundo semestre de 2020. Vivemos um momento aparentemente mítico em nosso país – e logo aqui, apresso-me a justificar o termo utilizado: não me refiro de modo algum à (ilusória) alcunha dada ao nosso indesejável atual presidente por seus apoiadores. Digo “mítico” porque nenhum outro conto mitológico me passa pela cabeça para descrever a atualidade do que a história da Caixa de Pandora. Sim, aquela mesma que, por sua displicente curiosidade, acabou por libertar todos os males do mundo ao vasculhar o que lhe fora proibido.

E tristemente destaco: de tantos males soltos por aí – não apenas a pandemia – temos o devastador mal da ignorância rondando nossas cabeças e, infelizmente, as de nossos emburrados gestores. Digo isso por conta de, recentemente, o ministro da Economia ter declarado que “livro é artigo de luxo”, determinando mais taxações altamente inadequadas e desnecessárias ao nosso já combalido mercado editoral. Além de todas as pancadas já sofridas em todos os âmbitos da Cultura brasileira, mais um golpe ameaça o acesso da população a ao menos um pouquinho de refugo mental naquilo que deveria ser de acesso fácil a todos: a bela e inalienável arte da literatura.

Mas apesar da travessa menina da mitologia, é também neste segundo semestre de 2020 que me deparo com um feliz e aguardado lançamento musical, que simboliza aquele elemento que chegou por último, sendo o lado positivo na moral do mito de Pandora: a Esperança. E para maior motivo de orgulho, tratamos aqui de um lançamento 100% cearense. Falo da banda Omminous, que acaba de nos presentear com seu disco de estreia, o excelente Immensity. 

 

Foto da banda Omminous

A formação da Omminous. Da esq. para dir.: João Felipe (bateria), Yago Sampaio (guitarra), Lenine Matos (voz) e George Rolim (baixo

Formada em meados de 2018 a partir dos membros dissidentes da banda Coldness, temos em sua formação o vocalista Lenine Matos, o baixista George Rolim (de quem já tive a imensa alegria de ser colega de banda em tempos passados), Yago Sampaio na guitarra e o prodígio João Felipe na bateria. E quando digo “prodígio”, é no melhor sentido da palavra mesmo: o rapaz é literalmente um achado, pois tem apenas 14 anos de idade e já possui uma técnica e talento pra invejar muito marmanjo com mais de 30 por aí! Porém, vale registrar corretamente os créditos: a bateria deste álbum foi toda gravada por Diego Vidal, agora ex-membro, que deixou a banda ainda no ano passado, sendo substituído por João Felipe. A banda esbanja uma sintonia entre todos os setores que já demonstra sua maturidade e inspiração pra escrever – além de grandes canções – uma longa e respeitável carreira, chegando com um álbum inicial que já dá fortes sinais de uma história com futuros capítulos realmente dignos de criar um novo mito – mas um “mito” bom, certamente.

Arte da capa do disco "Immensity" da banda Omminous

Arte da capa de “Immensity”, criada por Raphael Efez

Mesmo antes do lançamento, as músicas já haviam sido apresentadas em diversos shows feitos em festivais em Fortaleza e pelo estado afora, já trazendo ao público um pouco do que seria o disco. Immensity traz uma atmosfera bem familiar aos fãs do heavy /progressive metal com muito peso, carisma e o tom épico nas melodias do estilo, com frases de guitarra e refrões bem elaborados em todas as suas doze canções. E logo chamo atenção para um elemento que, em minha audição, foi fundamental para sentir o clima de peso do álbum: quase que de forma ininterrupta, um fundo de orquestra competente e constante faz a “cama” para o disco todo, trazendo uma tensão e uma imponência de forma majestosa e que envolve o ouvinte num clima de denso lirismo. Como diria aquele famoso chef , um “tompêrro” muito bem-vindo à proposta do disco! Aliás, uma proposta que foi divulgada de forma bem criativa nos meses que antecederam seu lançamento: a banda apostou em diversos memes em suas redes sociais com redublagens em vídeos engraçados pra criar expectativa para o lançamento, resultando em posts divertidos e curiosos.

Omminous ao vivo e em ação!

Bem, mas vamos a algumas palavras sobre a obra. O play começa com a faixa que a banda já havia liberado semanas antes, inclusive com um super lyric video (assista aqui) já lançado para divulgação: Behind All The Consent é uma pancada veloz e cativante que traz bastante de Angra ou Stratovarius como um tributo muito bem arranjado a essas referências sempre bem-vindas por qualquer fã de power metal que se preze. De cara, já sacamos o vocal de Lenine como uma baita entrega de energia e agressividade na medida certa, com letras que parecem fazer muito bem o “convite” ao ouvinte abraçar o mistério, abrir seus olhos e mergulhar numa jornada muito particular e empolgante. A faixa foi tão bem recebida que mereceu até destaque em uma playlist no Spotify do Kiko Loureiro, guitarrista brasileiro do Megadeth e fundador do Angra.

Na sequência, a imponente Vile Maxim traz em seu título e sua letra uma genial referência a uma passagem textual do economista clássico Adam Smith, falando justamente sobre nossa busca por ter mais e mais, sem pensar nos outros. Porém, a mesma passagem abre uma interpretação de que esse “mais e mais” também pode ser a sede pelo conhecimento – que não deixa de ser em si, também uma fonte de poder. Destaque ainda para sua orquestração, que aqui é levada a um outro patamar climático, lembrando brilhantemente o uso deste elemento por bandas como Evergrey ou Avantasia.

A terceira faixa é Prisoner Of A Present Time, que traz uma nervosa velocidade combinando bem com a letra, abordando o dilema interno de uma mente mergulhada em desesperança e caos, questionando-se constantemente sobre estar presa num tempo presente. Na sequência, temos Black Sun, começando com um simpático toque de uma percussão meio árabe, que ganha o reforço de citação na letra com a frase “Into the arabic sea of sand”. A faixa traz um rock progressivo muito bem encaixado e nada cansativo, pois há interlúdios muito bem elaborados ao longo de seus 7 minutos e 42 segundos. Prevalece na canção o peso do baixo contundente de George e a competente entrega de todos os membros em cada momento desta que é a faixa mais longa de todo o disco.

Why? chega quebrando um pouco a tensão do disco até aqui. A quinta faixa traz uma certa positividade num clima inusitado que me lembra um pouco alguma coisa de AOR/Hard Rock oitentista em algumas passagens, mas sobretudo em seu refrão e nos empolgantes solos de guitarra e baixo, sendo sem dúvidas um dos pontos altos da obra, fácil de absorver e cantar junto. A própria tonalidade escolhida para a música e os acordes predominantemente maiores na harmonia trazem uma sensação de um alívio em meio à tempestade que é o clima majoritário do disco. Até sua letra traz um quê de esperança, como no belo trecho “You have to bet high to happiness / You have to be ready to lose / Even when everything seems lost / Find a reason to make it happen” (“Você precisa apostar alto na felicidade / Você precisa estar pronto para perder / Mesmo quando tudo parece perdido / Encontre uma razão para fazer acontecer”). Tunnel To The Underworld vem na sequência como um intervalo instrumental, sugerindo um encerramento do primeiro ato do disco e nos preparando para sua metade final. E como o próprio nome da faixa já sugere, o segundo ato nos joga ladeira abaixo pelos insólitos campos da mente, num mergulho em letras que abrem um submundo de emoções e sensações.

Abrindo este reinício, temos Into Decay, bastante melódica e que lembra até um pouco de Queensrÿche em sua introdução. Overcasting Skies leva o mergulho a uma profundidade mais abissal ainda, onde a fúria da bateria animalesca no pedal duplo casa muito bem com a orquestra. No arremate, um solo de guitarra que parece guiar seus ouvidos a uma descendente espiral em alta velocidade. Aliás, tudo nessa música casa tão bem que as letras só reforçam a sensação à qual ela se propõe: te jogar de cara em sufocantes céus encobertos! “Here all is silence / All is silence / Shell shocked my life inside / I can’t stare this sight […] Crossing the line, I collide / Through a wall of overcasting skies” (“Aqui tudo é silêncio / Tudo é silêncio / Traumatizei minha vida aqui dentro / Não posso aguentar esta visão […] Cruzando a linha, eu colido / Em uma parede de céus encobertos”).

Antes de prosseguir para o comentário das últimas faixas, preciso fazer menções honrosas aqui. Primeiro ao baixo de George: meu amigo, acredito que não tenha elogio maior do que dizer que seu som é uma patada cavalar! O jovem traz uma pegada que é sem dúvida digna dos grandes baixistas do metal de qualquer lugar, lapidada com muita competência e bom gosto (George sempre foi muitíssimo cuidadoso com produção e equalização) por um timbre metálico que cai muito bem na proposta e na sonoridade total do disco – por vezes ouvi em seu timbre muito do lendário Les Claypool e uma pegada de Felipe Andreoli em termos de “mãozada” nas cordas. Resumindo: sem meias palavras, um monstro! Em seguida, um destaque ao nosso amigo Lenine, com quem também já tive o prazer de dividir o palco por um breve momento em minha antiga banda tributo ao Stratovarius. O cara é outro nome hors-concours em nossa cena local. Dono de uma voz inegavelmente potente, afinada e competente, sua performance faz bastante jus à sua inspiração maior: o saudoso Andre Matos, ex-vocalista de grandes bandas brasileiras como Angra, Shaman e Viper, que nos deixou repentinamente em 2019. Lenine traz tanto agudos e agressividade à altura do “Maestro” quanto uma assinatura também única em sua voz, que o permite passear muito bem em diversas tessituras. Nos momentos mais “calmos” de seu vocal nesta obra, consegui ouvir bastante também de algumas partes que lembram a voz de Danilo Herbert, vocalista da antiga MindFlow – banda brasileira de metal progressivo que teve uma carreira meteórica no início dos anos 2000.

Chega o momento da nona faixa, minha outra favorita do disco: Sideral Death traz um metalzão cavalgado tradicional que já começa com um baita solo de baixo. Ao evoluir, a canção brinca com toques de trash sugerindo que os rapazes frequentaram e foram aprovados com louvor nas universidades de Metallica e Megadeth! A aula do disco segue com a pancada Master Of Disguise, parecendo uma natural continuação ainda mais agressiva da faixa anterior. Seguimos para o final da audição com a bela e tranquila balada Breakthrough, onde brilha apenas a voz de Lenine acompanhada de um calmo efeito ambiental e um piano de fundo. Para fechar este magnífico registro, a épica faixa que dá nome ao disco, Immensity, resume tanto no instrumental quanto na letra a união dos talentos destes excelentes músicos, cada um brilhando bem dentro da canção e no momento certo. O verso de despedida (que espero ser breve, pois já quero o próximo disco!) entrega a mensagem de uma rica e positiva mixórdia que permeia todas as letras: “Reason, Time, Life, Hope, Dream, Mystery, Freedom / Are find in a transversal line” (“Razão, Tempo, Vida, Esperança, Sonho, Mistério, Liberdade / se encontram todos numa linha transversal”), fechando a audição num empolgante crescendo que deixa uma baita sensação de dever cumprido e também um grande gosto de quero mais.

A Omminous chega num momento incerto como um acertado talento local, mas que já traz um profissionalismo e uma maturidade a nível mundial, sendo muito bem assessorada pela MS Metal Agency, hoje uma das principais empresas que gerencia bandas nacionais do estilo. Entre todos os percalços que a gente sabe que existem – e contra a corrente da falta de esperança, esses quatro caras mostram que o cenário do metal tá vivo em nosso estado, dando orgulho em ver, curtir e saber que tem gente tentando, dando o sangue, o suor, a grana e muito, MUITO talento pra fazer acontecer. E que venha um sucessor tão imenso quanto o disco de estreia.

 

Te vejo no próximo play!

 

SERVIÇO

Artista: Omminous

Álbum: Immensity

Ano de lançamento: 2020

Duração: 57 min

Arte da capa: Raphael Efez (facebook.com/raphaelefez)

Distribuição e management: Voice Music / MS Metal Agency Brasil

Disponível em formato físico e nas plataformas digitais Spotify, Deezer, Apple Music, Google Play Music e Tidal

Tracklist:

1 – Behind All The Consent

2 – Vile Maxim

3 – Prisoner Of A Present Time

4 – Black Sun

5 – Why?

6 – Tunnel To The Underworld (instrumental)

7 – Into Decay

8 – Overcasting Skies

9 – Sideral Death

10 – Master Of Disguise

11 – Breakthrough

12 – Immensity

Instagram: @omminousofficial

Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, guitarrista por atrevimento. Apaixonado incurável por música, literatura, boas cervejas e grandes ideias. Escreve quinzenalmente sobre música para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião. Contato: [email protected]

Mais do autor - Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.