O testamento de Acácio – CLAUDER ARCANJO

Mi, mi miau, mi… Mi, mi… miii…

Nabuco caiu no choro com a convalescência do Acácio.

O dia mal raiara, e a febre já invadira as carnes e a mente do Companheiro.

Clauder… cof, cof… Clauder Arcanjo?! Amigo, eu... cof, cof…

Estou aqui, Acácio. Relaxe, já chamamos o médico. Procure descansar. Tudo vai ficar bem dizia-lhe, preocupado.

O termômetro sinalizava um febrão de mais de quarenta graus; a tosse seca, persistente, e os olhos como se em brasa.

Com pouco, a entrada do médico. Quando Dr. Paulo Grangeiro lhe verificou os sinais vitais e auscultou o peito, anunciou-nos, peremptoriamente:

Quadro típico da Covid-19. Temos que removê-lo, o mais depressa possível, para o hospital municipal. O caso me parece grave. E, quanto aos demais, considerem-se em quarentena.

Na minha pensão, doutor?! inquiriu seu Raul, de máscara.

A recomendação se estende a todos os que trabalham neste estabelecimento. Lacre-o, e só saiam daqui depois de catorze dias. Fui claro? decretou, sem delongas, o médico.

Bem que eu não queria hospedar este magote de filhos de uma égua. Mas fui atender ao João Américo, olha no que deu! desabafou, colérico, Raul.

Quando ligaram para o hospital, uma complicação: as duas ambulâncias de Licânia não estavam disponíveis.

Clauder Arcanjo? Cof, cof… Ahn… Amigo?! chamava-me Acácio.

Estou aqui, o que você quer? aproximei-me.

Há um papel no meu bolso direito. Guarde-o com você, é o meu testamento. Caso eu… cof, cof… sabe… cof, cof, cof… Aqui, pegue… cof, cof… cumpra… aten…

Atendi-o, guardando o tal testamento comigo. As lágrimas me tomaram os olhos.

Outra coisa, Clauder Arcanjo, não me cof, cof… deixe só. Fique sempre próximo, eu… cof, cof… pronunciou aquelas palavras e desmaiou.

Mi, mi… miau, mi… Mi, mi… miii…

Nabuco miava, em desespero. Ao canto, percebi que Carlos Meireles e Uélsson sofriam com o quadro do Companheiro. Procurei por Lourenço, mas não o vi no quarto.

De repente, a voz forte do João Américo:

Quem não tem cão caça com gato. Quem não tem ambulância vai de carroça.

E, assim, em plena manhã licaniense, Companheiro Acácio foi levado na carroça do Wilson Gregório para o Hospital Dr. José Arcanjo Neto. Na condição de auxiliar, fui o único autorizado a seguir com o enfermo.

Quando passávamos pelas ruas desertas, os moradores, no interior de suas casas, persignavam-se, como se encomendando a alma do Acácio aos Céus.

Na chegada à urgência médica, tentaram me convencer a retornar para a quarentena na pensão do Raul. Recorri aos médicos:

Daqui ninguém me tira. Assino um termo isentando o hospital de qualquer responsabilidade, mas serei o enfermeiro do meu amigo. Prometemos nunca nos separar, e não será a Covid que irá fazer isso exaltei-me, fincando pé na minha decisão.

Como ocorrera muitas baixas nos quadros do hospital, o Dr. Tito Arcanjo chamou a equipe médica ao canto e defendeu a minha permanência.

Será uma exceção, seu Clauder. E o senhor terá que cumprir todas as ordens do plantão. Caso não, será… informou-me Dr. João Victor, médico assistente.

Soro, oxigênio e uma dose de medicação cavalar foram prescritos e providenciados. Pela pressa e pelo semblante das enfermeiras, o quadro de Acácio inspirava sérios cuidados.

Nos corredores, o desfile do sofrimento e da morte. De tempo em tempo, infelizmente, a equipe se deparava com mais um óbito. Lá fora, ao saírem as notas de falecimento no boletim diário: pranto e desespero dos familiares. No rosto dos hospitalizados, o pavor de se encontrar na fila da Indesejada das Gentes.

Em seguida, o Dr. Paulo Grangeiro me convocou. Reclamei de um mau cheiro, e ele me explicou:

Em alguns, a Covid gera uma crise diarreica. E o seu Acácio precisa de uma boa assepsia. Você se incomodaria de banhá-lo?

De forma alguma! respondi-lhe de pronto.

Pus as luvas, vesti-me adequadamente, recebi as instruções, o saponáceo, e limpei o Companheiro. Quando passava as mãos na região glútea, ele grunhia, incomodado. Cá comigo, pensei:o malandro mantém os reflexos”.

O dia foi longo. A febre não baixava, a tosse não cedia. Junto a ele, rezava para a sua recuperação, a me lembrar dos nossos feitos, bem como dos projetos ainda a realizar.

Quando a noite desceu e nada se parece mais com o estigma da morte do que a escuridão , ouvi o lamento de um felino. Apurei os ouvidos e logo distingui que era Nabuco. Não pense que se tratava de algo melancólico, julgava-o mais (apesar de não especialista na linguagem miau-miau) próximo de um chamado carinhoso. Em seguida notei, pela primeira vez desde que demos entrada no nosocômio, uma nesga de sorriso na comissura dos lábios acacianos.

Foram dez dias de sufoco. Entre a vida e a morte. Na plaqueta ao lado do leito, a inscrição: “Acácio: paciente de Covid. Estado: grave”. Perdoei-lhe todas as faltas, alavanquei todas as suas virtudes, elevei seus méritos… A proximidade da morte diviniza aquele que sofre.

No nono dia, em plena madrugada, o plantonista me chamou, a revelar-me que a situação do Companheiro mais se complicara:

O paciente é católico? Caso sim, recomendo a extrema-unção.

O mundo parecia que sumia sob os meus pés. “Como viverei sem esse sacana, sem esse casmurro? Como enfrentarei as lides da rotina sem a razão de Acácio, sem o seu humor ranzinza, sem as suas traquinagens? Não, meu Deus, não permita que ele se vá!” Confesso que caí em pranto.

Enfiado numa nuvem de desespero e angústia, uma ideia aflorou-me à mente. “Sim, como não havia pensado nisso antes?” Segui, pé ante pé, para junto do seu leito. Com respiração muito fraca, com pulso errante e febre alta, além do semblante cadavérico, Acácio era a imagem do próximo a encarar Caronte. Ao verificar que ninguém me observava, soprei-lhe aos ouvidos a mensagem fatal. Seguida de uma dedada profunda no seu fedorento.

O hospital ouviu um grito pavoroso. Quando todos acorreram para o leito de Acácio, o antes condenado estava sentado, mas puto da vida, a protestar contra Deus e o mundo:

Fiofó de Acácio tem dono! Com Covid ou sem Covid.

A partir daí, a melhora deu-se a olhos vistos; e, no dia seguinte, o Companheiro já recebia alta hospitalar.

E o que foi que eu lhe disse como mensagem fatal?! Bom, melhor, por ora, é manter na cota do segredo; nem todos os meus remédios milagrosos podem (nem devem) ser revelados. Pelo bem da ciência em Licânia.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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