O TECIDO SOCIAL

Compreender o homem ocupa largo espaço da reflexão humanística. Alex Carrel (1873 – 1944), militava nas ciências biológicas. Enveredou pela Filosofia. Na obra “O homem esse desconhecido”, concluiu que o homem é indefinível. Acrescentemos: defini-lo seria limitá-lo. Renê Girard (1923 – 2015), percebeu que o homem se constrói pela imitação. A autoafirmação, porém, o leva a competição com aquele a quem imita. É o conflito mimético. A sociabilidade, pelo antagonismo citado, é conflitiva. O animal social de Aristóteles (384 a.C.– 322 a.C.) não exclui a litigiosidade. A metáfora de Arthur Schopenhauer (1778 – 1860) sobre o porco-espinho, que no inverno, para sobreviver ao frio, se aconchega aos semelhantes, mas espeta e é espetado, descreve bem a sociabilidade forçada e conflitiva do animal social do Estagirita.

O controle social preserva a sociabilidade, que é necessária, embora conflitiva. Controlar as espetadas do porco-espinho leva ao que Sigmond Freud (1856 – 1939) descreveu em “O mal-estar na civilização”: como uma insatisfação com os limites da vida em sociedade, normatividade heterônoma (lei do outro), tem origem na ilusão de uma sociabilidade sem restrições. A autonomia (auto = próprio; nomos = lei) é a esperança na razão para superar o conflito em sociedade. A razão cria meios que viabilizam fins. É instrumental como a ciência em sentido estrito. Mas o conflito não é só disputa de meios. Os “espinhos de porcos” têm relação com os fins. O embate mimético vincula-se a um fim: ser o que o outro é e tomar o seu lugar.

Os limites da razão instrumental restringem o poder de harmonização da razão. Esta, porém, não é unívoca, nem responde à totalidade das inquietações de todos. Uma suposta razão fundante desloca a reflexão para o campo da ética. Este tem dois problemas: crítico e o teórico. A crítica indaga: devo obedecer essa norma? Quem pode institui-la ou modifica-la? A ética é universal ou situacional? A deontologia não tem o amparo do Leviatã e nem sempre tem o apoio da sociedade. Fica restrita ao foro íntimo.

A fonte primária da ética tem três caminhos. O cosmocentrismo apresenta a fonte dos valores como sendo a natureza. Mas não demonstra tal coisa até a saciedade. O teocentrismo diz que Deus é a fonte da ética. Agnósticos e ateus resistem e teólogos se contradizem. O antropocentrismo é o caminho da arbitrariedade do homem omnipotente, individual ou coletivamente, já que a fonte do dever ser pode tudo. Todos os caminhos acabam em aporia. O problema teórico da ética é mais claro e resolutivo. Pergunta pelas condições transcendentais do agir moral. Que são: liberdade; imputabilidade; e existência de normatividade (legítima). Trata da liberdade de agir, não de liberdade de ser.

Pulsões de vida e de morte não se submetem a razão. A heteronomia é indispensável, única fonte de normatividade que limita o poder do mais forte. É uma forma de contrapoder. Libertários sentem opressão no léxico e nas categorias gramaticais, como se planejadas fossem para oprimir. Na economia, no Direito e na sociedade confundem diferença com desigualdade. Falta a validade da experiência histórica aos críticos dos padrões e papeis sociais. A ausência de referências potencializa conflitos e desestrutura o tecido social, desorienta, leva ao hedonismo. Prisioneiros da finitude, por falta de transcendência, caem no niilismo atestado pelo suicídio e depressão crescentes. A desorientação do mundo, que Anthony Daniels (Theodore Dalrymple, 1949 – vivo) descreve, foi induzida pela ilusão de emancipação. Atribuir à sociedade e aos padrões sociais a própria infelicidade é um erro. A felicidade “…árvore milagrosa que sonhamos/ (…) está sempre apenas onde a pomos/ E nunca a pomos onde estamos (Vicente de Carvalho, 1866 – 1924).

Rui Martinho

Doutor em História, mestre em Sociologia, professor e advogado.

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