O silêncio do mestre

por Heliana Querino

Morreu na manhã desta segunda-feira, em Fortaleza, aos 70 anos, Osvaldo Euclides de Araújo — jornalista, escritor e fundador do veículo online Segunda Opinião, espaço que se tornou referência em jornalismo crítico e independente no Ceará. Ex-superintendente do O Povo, Osvaldo deixa quatro filhos, quatro netos e um legado que atravessa gerações de profissionais e leitores.

Conheci Osvaldo na sala de aula, no curso de Comunicação Social da UniFanor. Foi o início de uma amizade e de uma longa parceria que renderia dezenas de projetos culturais, entre eles a criação do PerfilHQ — onde entrevistei muitas pessoas apresentadas por ele, encontros que ultrapassaram o trabalho e se transformaram em vínculos humanos que ele, generosamente, costurava. Vieram também os projetos de escrita que se tornaram livros assinados por ele e que me inspiraram, em 2019, a criar com outras quatro mulheres os projetos de escrita feminina no Segunda Opinião.

Durante mais de duas décadas no O Povo, e depois como editor e fundador do Segunda Opinião, Osvaldo consolidou um modo singular de fazer jornalismo: crítico, ético e independente. Enxergava o jornal como espaço de debate e transparência, nunca de vaidades. Tinha a convicção de que a função do jornalista era resistir — e fazia isso com serenidade, lucidez e uma escrita impecável.

Os colegas definem bem o que ele representava. Dalton Rosado falou de uma “perda pessoal irreparável e uma perda socioeducacional significativa para o Ceará e para o Brasil”. Luiz Regadas lembrou da generosidade e das parcerias entre o Segunda Opinião e seu canal de entrevistas. Rafael Silva escreveu que “eu sou porque somos”, frase que traduz a essência colaborativa de Osvaldo. Duarte Dias o chamou de “fonte de inspiração e defensor das letras e da cultura do Ceará”. E Camilo França destacou “a serenidade de um homem bom, espirituoso e acolhedor”.

Paulo Elpídio, que o conheceu ainda no Conselho Editorial do O Povo, escreveu que Osvaldo dominava “a arte da escrita com o rigor e a segurança de um escritor”, sem jamais transformar o trabalho em instrumento de engajamento ideológico.
Sérgio Costa, ex-aluno, registrou com simplicidade e precisão:

“Fui aluno do Osvaldo no curso de Comunicação Social da antiga Fanor. Que privilégio ter aprendido tanto com ele. Era uma mente brilhante e um ser humano muito gentil. O primeiro (e único) livro que escrevi, Arte em Estado Crônico, em parceria com Duarte Dias, Renato Ângelo, Jair e com nosso eterno Carlinhos Perdigão, foi organizado por ele e por nossa querida Heliana Querino. Vá em paz, mestre. Seu legado de conhecimento e cultura seguirá muito vivo.”

Essas vozes, reunidas, mostram quem ele foi: um homem que acreditava que pensar o país era um dever cívico, não um exercício de vaidade.
No livro Cena brasileira (antes), escrevi que Osvaldo “não escrevia para agradar”. Hoje percebo que essa frase descreve o homem também. Ele foi fiel à lucidez até o fim — recusou o espetáculo, preferiu o rigor, acreditou na palavra.

David Aguiar Araújo, seu filho, resumiu com emoção contida:

“O Segunda Opinião era o sonho dele, seu grande tesouro.”

Osvaldo foi esse tipo de homem raro que constrói e compartilha.
O Ceará perde um jornalista. O Brasil perde uma consciência crítica.
Nós, que tivemos o privilégio de conviver com ele, perdemos o norte — mas herdamos o mapa.

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