O romance perdido do Companheiro Acácio – CLAUDER ARCANJO

Chateado com tanta discussão acalorada nos últimos dias — incêndios na Amazônia, padrão de beleza, nomeações nos cargos públicos, opiniões acerca da liberdade de expressão —, resolvi recolher-me a uma casa de campo. Lá cheguei antes do feriado da Independência. A casa espaçosa e distante, os vãos mobiliados de forma austera, a amplidão da natureza no entorno, tudo condizia para um descanso reparador.

Na primeira noite, a lua e as estrelas acompanharam o meu silêncio. Entre um espreguiçar filosófico e outro, uma estrela cadente de troça no céu da boca. Algumas, numa queda rápida e vertiginosa, deixando-me com um risco de riso nos lábios traquinas. Outras, num desfile alongado, o sorriso comprido de quem janta a palhaçada dos senhores da sapiência, mestres em se assentar sobre a desrazão e abandonar o primado da lógica.

Dormi cedo e acordei antes da alvorada. Abri o janelão do quarto e respirei a natureza.

Quando pus os olhos na varanda, dei com a presença de uma pessoa. Ao apurar a vista, a certeza:

— Acácio!?…

Ele, sim, com a roupa suja com a poeira do sertão e a orvalhada da madrugada. Na certa, suspeito, varara a noite para encontrar o meu exílio espontâneo.

— O que o traz aqui, Companheiro? Chegaste agora? Comeste algo?

— Em primeiro lugar, Clauder Arcanjo, convide-me para entrar, que a noite tem seus encantos para os poetas, contudo é por demais severa com os viajantes despreparados. Em especial, com aqueles que navegam sem o mapa apropriado para aportar em sua Ítaca — despejou Acácio, sem mais delongas.

— Entre. A casa é sua. Creia-me, apesar do surrado lugar-comum — falei, abrindo a porta da frente, convidando-o.

Acácio apanhou sua mala de couro pequena, retirou a boina à moda de Neruda e entrou, sem disfarçar o ar de exaustão.

Conduzi-o para o quarto de visitas, vizinho ao meu. Pondo, em seguida, toalha e um jogo de lençóis limpos sobre a cama de madeira trabalhada.

— Tome um banho, enquanto vou providenciando o café. Acabo de acordar e quebraremos o jejum juntos! — Enquanto falava, dava-lhe as costas, com receio de flagrar, em seu rosto liso, a antipatia acaciana quando flagrado em situações de desvalia.

Com pouco, sentávamo-nos à mesa. A copeira já fizera o café fresco, e servira-nos bolo de fubá com leite mugido; este ainda com o cheiro do curral. O passaredo lá fora brincava com a manhã, e o tempo já se banhava com o sol de setembro. O terraço era varrido pelo vento fresco, e o ar puro dava o ar da graça na mesa farta e bem-posta. Servimo-nos sem remorsos, alimentamo-nos como se estivéssemos na Última Ceia.

— Vamos ao alpendre, nada melhor do que uma rede de varanda após um café sertanejo — convidei-o.

Acácio deitou-se e, sem conversar, entregou-se ao sono do cansaço da viagem. Notei que roncava alto, em compasso de fole mal ajustado. Atribuí tudo à exaustão.

Pouco depois, apesar do rascante barulho, entregava-me à leitura de Hobbes.

— O homem é o lobo do próprio homem!

— Acordaste, Companheiro?

— Vou fazer de conta que não ouvi indagação tão descabida. Ou estaremos aqui em mais de dois? — indagou-me Acácio, com o seu conhecido (mau) humor.

A sós, entregamo-nos, de início de forma lenta, a discutir alguns pontos menores: o desemprego, a independência ou não das universidades, o retorno nos tempos atuais de certas doenças que imaginávamos banidas pela Ciência e outros pontos que me fogem à lembrança.

A seguir, Acácio notou que eu iniciava um mergulho num silêncio de profundezas. Daqueles que pedem recato e solidão. Respeitoso, ele, com cuidado, voltou ao seu quarto. De lá, retornou sobraçado a um tomo de impresso espiralado. Sentou-se, silente, na rede mais ao canto e se entregou à leitura do citado tomo.

Emerso do mergulho, dei pela presença do leitor Acácio. Depressa, indaguei-o:

— O que andas lendo, Companheiro?

Ele levou alguns segundos para me responder, como se quisesse completar a leitura da página na qual estava absorto. Marcou o texto, com seu sinete de couro, e me deu atenção:

— Estou a reler o meu romance perdido, Clauder Arcanjo. Havia meses que o procurava, e nada. Antes de cair na conta do desespero, recorri aos serviços de Ângela, minha antiga secretária, hoje residindo numa cidade de outro estado. Ela me atendeu ao chamado, quase em tom de desespero. Após virar e revirar a minha biblioteca, ela ofertou-me, com seu riso de alfabética beleza: “Aqui está ele, seu Acácio!”. Quase a beijei; não o fiz em respeito ao seu esposo, que aguardava o fim da missão na sala do meu apartamento.

— Não o tinha como romancista. Achava-o amante das formas breves: do conto, do aforismo, do relato minimalista…

— Nem tudo dá-se a entender aos que nos querem desvendar. Tal qual uma grande dama, que mantém seu jeito de mistério mesmo desfilando nos apinhados salões de festa — professou-me Acácio.

Entabulei, cá comigo, um diálogo íntimo: “Se Acácio se fez romancista, em qual escola mergulhou sua pena? Será que resolveu eleger alguns dos mestres para marcar seu passo e seu ritmo de prosador? Meteu-se no pós-modernismo ou filiou-se, com mala e cuia, ao partido da tradição? Um novo Joyce, ou um Eça redivivo? Teria seu romance o ambiente da província ou o atropelo da cidade grande? Seria…”

— Não perderia tanto tempo em busca de um romance perdido se ele se filiasse tão somente a uma das escolas pré-existentes. A mesmice não me faria mover nem uma pilha sequer dos meus clássicos, nem uma hora da minha pena. Outra coisa, seu provinciano Arcanjo, o maior tributo a um grande mestre é não imitá-lo, toda imitação no campo das Letras cheira a fraude literária. Este romance perdido, se é que posso lhe adiantar algo, é filho ilegítimo da tradição e amante pecaminoso da inovação. Você bem sabe — se não, fique sabendo: só se consegue ser moderno, quando somos vetustos e hodiernos. Nem só Joyce, nem só Eça… Melhor, uma pitada de Joyce, de Eça, de Cervantes, de Machado, de Clarice, de Homero, de Balzac, de Lima Barreto, de Rosa… e de um montão de outros mais. De maneira tal que tal salada de influências não deixará o provador do enredo sentir o gostinho sequer de nem um dos temperos inscritos. Só lhe afirmo uma coisa: o ambiente é o da província, pois serei provinciano até quando descrever o tráfego nova-iorquino. Tenho dito? Fui claro, Clauder Arcanjo?!… — despejou-me, levantando-se da rede e deixando o tomo sobre um tamborete próximo.

Antes de ele retornar, curioso, aproximei-me do seu recanto de leitura, em tempo de flagrar o título. Em letras cursivas na primeira página: O romance perdido, de Acácio Ventura.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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