O que vem antes do conto de fadas? por JÉSSIKA THAÍS

Por muito tempo vi o amor como uma coisa sofrível. Amava os sonetos de amor romântico, as tramas e o alcoolismo de Vinícius de Moraes, as poesias de Lord Byron e o ultrarromantismo da segunda geração romântica no Brasil, em que coisas como amor não correspondido, pessimismo, sentimentalismo, escapismo, saudosismo, insatisfação e até a morte eram as coisas mais presentes nas narrativas.

Vamos lembrar que esses grandes escritores morreram todos (ou quase) antes mesmo dos 30 anos, alguns ainda na flor dos vintepoucos. Quando tudo é muito incerto e nosso cérebro está ainda aprendendo a processar nossas experiências, o que nos dá a base para o que chamaremos no futuro de intuição (ou paranoias, depende muito da situação). Como explica Daniel Kahneman, Nobel em Ciências Econômicas, em seu livro ‘Rápido e Devagar’ – A intuição não é nada mais, nada menos que reconhecimento .

Além disso, era sempre a visão de homens com acesso à educação e distantes da realidade da maioria da população e de uma época muito distante da minha.

Enquanto “vivia” entre poetas, escrevia sobre estrelas, dor ao amar e imaginava um futuro baseado em poesias românticas, escutava e lia Gabriel O Pensador, com seus ideais que questionavam a sociedade, matavam o Presidente (inclusive tem uma segunda versão muito boa sobre um ex-presidente meio vampirão) e até reproduziam o machismo, que na época não era debatido como agora. Não por mim, pelo menos. Assim fui aprendendo sobre amor romântico e questões sociais.

Entre as aulas, durante o ensino médio, eu costumava conversar com o professor Felipe, de geografia. Ouvia ele falar que mesmo sendo careca tinha sido um cabeludo envolvido em lutas sociais, mas que nunca tinha acreditado que violência se vence com violência. Me falou das possibilidades de entender a sociedade e mudar as coisas através da criticidade e do conhecimento.

Em minha casa, ouvia Roberto Carlos, Nelson Gonçalves e os mais famosos e antigos bregas. Ah, o Sofrimento de Maysa e Núbia Lafayette! Via nos relacionamentos familiares homens folgados ou sem vontade própria e nunca quis o casamento para mim. Mesmo sempre tendo namorados ou relacionamentos, não fui muito de romantizar o futuro, mas a construção do que era amor me fez aceitar e sofrer muitas vezes situações constrangedoras por não entender ainda o que era tudo aquilo.

Eu aceitava, pois, para mim, amor era o que tinha lido nos romances (escritos por pessoas nem um pouco parecidas comigo) e que tinha ouvido em músicas que me colocavam sempre como benevolente por superar uma situação complicada com o homem ou uma manipuladora sem coração. Achava que só me restavam essas duas alternativas.

Voltando para o presente – Quando questionei para um grupo de amigos sobre o que seria o tal sentimento, tive diversas respostas. Eram situações, momentos específicos, ações e expectativas. Daí um amigo, Hermírio Moraes, mandou a seguinte ideia :“Se a gente tem o mundo real, onde a gente lida com pessoas, objetos, animais, e a gente se relaciona com elas, deveríamos simplesmente supor que amor é uma coisa e a gente deveria perseguir isso e tentar aperfeiçoar nossa relação com tudo em volta. Cada um parte de um determinado ponto na vida e esse aperfeiçoamento varia de pessoa para pessoa.”

Esse foi o ponto de virada para mim.

Minha ideia era falar da construção social e das influências que formam a maneira de como nos relacionamos com os outros e como até nossas respostas foram construídas com base nessas influências. Vou deixar mais claro:

– Se fui criada ouvindo e vendo relações que subjugavam uma mulher e a colocavam na visão de espectadora da própria vida à espera do salvamento de um príncipe;

– E a sociedade me tendo como mulher;

– E eu me vendo como mulher;

– O mais normal seria eu reproduzir isso.

Essa relação vai muito além dos hormônios inflados do amor ou de cumprir um papel no cosmos, isso é a premissa para meu gênero na sociedade e performá-lo seria minha obrigação.

Continuando minha linha de raciocínio sobre amor.

E, antes de pensar sobre ou escrever sobre o tal sentimento, ou seja, até 3 dias atrás, separava o amor em tipos. Casais, mãe e filho, familiares (esses ninguém é obrigado a amar quando são fascistas), amigos, bichos de estimação e por aí vai. Mas, ouvindo meus amigos, lembrando de minhas experiências e pensando sobre o assunto… Amor é, antes de tudo, aquilo que você pode dar como sentimento, expressão de cuidado e aquilo que você acha que merece receber.

Talvez tenha embaralhado novamente as ideias. Mas percebi que é uma relação de construção social, sim, de troca e começa sempre de si.

Novamente deixando claro:

– Se eu tenho, dentro de mim, uma construção social pré–estabelecida, vou ver como real e aceitável só aquilo que tenho como conhecimento e aprendizado;

-Sair dessa zona de conforto, que nem sempre é confortável, não é muito desejado e como há as ações pré-estabelecidas para cada experiência, a gente vai aceitando, retomando e reproduzindo apenas o conhecido.

Agora voltando para o começo do texto. Por que eu dei tantos exemplos literários e musicais e terminei com questões sociais filosóficas?

Pera lá! Eu, como único exemplo de que posso falar, já que não sou estudiosa do assunto, vou falar por mim, e você vê se minha experiência e o pouco conhecimento de leitura que tenho sobre isso te contempla, pois todas as experiências são únicas, mesmo com as ações e as narrativas sendo pré-estabelecidas.

Comecei a questionar o que eu via como amor quando iniciei o cuidado com o meu amor próprio. Comecei a ouvir, ler e assistir pessoas com realidades próximas à minha. Já parou para ouvir uma mulher ou um homem da mesma realidade social que você? Essa pessoa canta, fala de si e pode te ajudar a descobrir quem ou o que você é de verdade.

Lembrem-se sempre de questionar a fonte do que você consome e não estou falando das fakenews, estou falando de criação de expectativas e realidade. Isso que você escuta, lê, assiste é realmente algo que está de acordo com a realidade que você quer viver? Quem fala é alguém semelhante à você e esse alguém fala uma coisa que faz sentido para você ou é apenas uma construção para te inserir na massa? As músicas do Safadão, dos sertanejos e de muitos outros estilos (funk, rock, pop…), as novelas, as fofocas, os ‘reality shows’ constroem uma realidade, mas, pergunte a si mesma: é essa realidade que você deseja?

É construção que vem antes do conto de fadas. É a construção pré-estabelecida ou que você faz de si. O seu conto de fadas pode ter uma trilha mais ativa e você não precisa sempre ser alguém à espera de salvamento. Você pode ser sua própria redenção e deixar os contos de fadas para lá. Faça a construção da sua própria jornada do herói e reconheça em si o seu amor e só aceite o amor que for compatível com aquele que está dentro de você!

Jessika Sampaio

Jessika Sampaio

Feminista, jornalista, pós-graduanda em gestão ambiental, sonhadora, acredita em signos, no budismo e na apatia da natureza. Contraditória como todo bicho gente, curiosa e colunista do Segunda Opinião.

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