O que será que será?

Os versos de Chico sempre nos colocam diante de abissais contradições da existência. Desde uma desprezada Geni, objeto do desejo sádico de um capitão comandante da imensa nave Zepellin, até a noção daqueles que afirmam Deus haver criado a humanidade apenas para deleite seu. Chico indaga: o que será que será, se não tem vergonha, não tem sentido e não tem juízo?

Em maio de 2016, o juiz federal de Curitiba, Sérgio Moro, até então não declarado suspeito e incompetente pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por sua atuação na Operação Lava Jato, em plena euforia das luzes e microfones da ostensiva cobertura propagandística nacional da Rede Globo em todos os seus telejornais e nas lentes do Fantástico, declarou ao jornal O Estado de São Paulo que “jamais entraria para a política; não existe jamais este risco”.

Ocorre que, em primeiro de novembro de 2018, após haver conseguido o seu objetivo maior de condenar de forma ilegítima, ilegal e despudorada o presidente Lula, com ampla ajuda da estrutura lavajatista das diversas instâncias do Judiciário brasileiro e do Ministério Público, e consequentemente haver colaborado de forma determinante para a eleição do capitão de extrema-direita à presidência da República, o mesmo Moro declarou em nota: “Fui convidado para ser nomeado ministro da Justiça e da Segurança Pública na próxima gestão. Após reunião pessoal com o presidente eleito, na qual foram discutidas políticas para a pasta, aceitei o convite”.

Emblemática fora a sentença dos desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª. Região (TRF-4), em 22 de setembro de 2016, decidindo que a Operação Lava Jato “não precisaria seguir as regras dos processos comuns”. Advogados denunciavam amplamente que as investigações ignoraram os limites da lei ao permitir grampos em escritório de advocacia, instruções aos procuradores, divulgação de interceptações telefônicas ilegais e a importação de provas da Suíça sem a autorização necessária. Porém o Colegiado do TRF-4 arquivou todas as representações contra Sergio Moro, inclusive a famosa divulgação ilegal da conversa entre a presidente da República Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas a história não para por aí. Passados dois anos à frente do Ministério da Justiça de Bolsonaro (2019-2020), ao ver que perderia o controle de sua pasta numa quebra-de-braço com o capitão, Moro pediu demissão, moveu um processo contra o presidente, acusando-o de almejar o controle da Polícia Federal, e passou a assumir cargo de diretor numa renomada empresa estadunidense – a consultoria Alvarez e Marsal – que atua como administradora judicial da empresa brasileira Odebrecht, empreiteira investigada pela Lava Jato, que Moro ajudou a quebrar. No anúncio divulgado em seu site, Alvarez e Marsal afirmou que o ex-juiz iria comandar a área de disputas e investigações a partir de dezembro daquele ano. O objetivo, segundo o comunicado, era Moro desenvolver soluções para disputas complexas, investigações e questões de “compliance” para os clientes da empresa, com base em sua experiência governamental.

No dia 03, quarta-feira, Moro desembarcou em Brasília, trazendo na bagagem a filiação partidária ao Podemos, em seu sonho ambicioso por alçar voos mais altos: presidente do Brasil, governador do Paraná, senador por São Paulo? Foi recepcionado por várias pessoas no saguão do aeroporto que se manifestaram com gritos: “juiz ladrão, juiz vendido, você é um lixo”. Por sua vez, o jornal “O Estadão” também o recepcionou com um editorial no qual defende o sepultamento definitivo do lavajatismo, um cadáver putrefato que só sobrevive por oportunismo no imaginário da extrema-direita alocada no Ministério Público, em instâncias do Judiciário, no Partido Militar e na Rede Globo. Para o jornal, o lavajatismo pretende justificar uma conclusão inteiramente autoritária e fascista: a de que para combater a corrupção seria permitido e autorizado utilizar todos os meios disponíveis, também os ilegais. No entanto, é obrigatório registrar que foi este mesmo jornal que estampou em sua capa, em 2018, na véspera da eleição presidencial, o falso dilema “da difícil escolha” entre o capitão miliciano de extrema-direita, defensor da pátria armada, e o professor universitário, ex-ministro da Educação, nas eleições de 2018.

Numa audiência pública, em 2019, realizada pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, da Câmara Federal, o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) chamou abertamente Sérgio Moro de “juiz ladrão”. Disse o deputado: “A história não absolverá o senhor. Da história, o senhor não pode se esconder. O senhor vai estar, sim, nos livros de História, como um juiz que se corrompeu, como um juiz ladrão”. Será que, fundamentado nos versos acima de Chico Buarque, o deputado Glauber afirmaria que além de ladrão, Moro foi um juiz sem vergonha?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.