“O QUE SERÁ QUE NOS ESPERA HOJE”?

​Ao extenso da história da humanidade, do antigo Egito, passando pela Índia medieval, até China do século XX, a fome, as pestes e as guerras, os três eventos mais aterradores para o homem, sempre fizeram parte das agendas político-econômicas dos chefes de Estado e de governos e, especialmente, dos cuidados das populações, algumas delas, muita vez, quase dizimadas, onde e quando ocorreram.
Imperioso se faz registrar que, durante séculos, quando dos períodos de fome e das pestes que se abateram sobre os povos nos vários países, deve ser lembrado o fato de que o único recurso disponível que restava à humanidade para livrá-la do sofrimento e da morte era rezar para os deuses e todos os anjos e santos.

Na percepção e no dizer de alguns pensadores, assim como na crença dos profetas que viveram essas difíceis épocas, todo o flagelo fazia parte “[…] do plano cósmico de Deus ou de nossa natureza imperfeita, e nada a não ser o fim dos tempos nos livraria delas”, como escreveu o historiador Israelita Yuval Noah Harari, em seu livro, Homo Deus – uma breve história do amanhã, no qual, com riqueza histórica, relata a mortalidade em massa provocada pela fome em vários países, decorrentes da escassez de alimentos, e pelas pestes em algumas fases da história da humanidade.

Segundo o autor, somente no período compreendido de “[…] 1692 e 1694, – 2,8 milhões de franceses, o equivalente a (15%) da população morreram de fome, enquanto o Rei Sol, Luiz XIV, flertava com sua amante em Versalhes”. Um ano depois, em 1695, na Estônia, a fome matou um quinto da população, em 1696, entre um quarto e um terço da população da Finlândia foi dizimada e, na Escócia, de 1695 a 1698, a fome foi tão devastadora que alguns distritos perderam até 20% dos seus habitantes. O Historiador assinala, ainda, que, há bem pouco tempo, “[…] a maioria dos seres humanos vivia no limite da linha de pobreza biológica, abaixo da qual as pessoas sucumbem à desnutrição e à fome”, o que significa sentença de morte.

Outro evento, talvez o mais conhecido, que provocou mortalidade em escala ainda maior, e que atingiu as populações em vários continentes, foi ocasionado pela peste negra, também conhecida por peste bubônica, que surgiu por volta de 1330, em alguma região da Ásia Central, ou Oriental. A bactéria de origem foi Yersinia pestis, que tinha a pulga como hospedeiro, e logo passou a infectar o homem quando picado pelo inseto. De lá, a bactéria saiu levada por batalhões de ratos e pulgas, e muito rápido chegou e se espalhou pela Ásia, Europa, e norte da África, matando entre 75 milhões e 200 milhões de pessoas, o equivalente a mais de um quarto da população da Eurasia, como registra Yuval Harari, na obra citada.

Na contemporaneidade, apesar desses problemas não terem sido ainda totalmente eliminados das agendas políticas e econômicas dos governos, assim como das preocupações das populações, sempre as maiores vítimas dos acontecimentos trazidos a essa reflexão, nas sociedades modernas, a fome, as pestes e as guerras são eventos que, se não foram resolvidos, estão sob controle; “[…] foram transformados de forças incompreensíveis e incontroláveis da natureza em desafios que podem ser enfrentados”; como afirma o autor já referido.

Nesse âmbito de transformação e evolução da humanidade, isso quer dizer, raramente, ocorre fome provocada por causas naturais como antes; a fome de hoje tem origem nas políticas humanas e, no dizer de Yuval, “[…] é uma fome política; se pessoas na Síria, no Sudão ou na Somália morrem de fome, é porque alguns políticos querem que elas morram”. Mutatis mutandis, é como decidir por não comprar vacinas e deixar que mais de 455 mil pessoas morram infectadas por um vírus.

Essa nova realidade reveste-se de grande importância para a humanidade, pois significa que temos outras opções, transpondo a ideia de rezar para os deuses e os santos nos livrarem de catástrofes como a fome e as pestes. Um exemplo que se evidencia em escala global está na forma como os governos de sociedades, mais evoluídas, algumas inclusive na América Latina, controlam a pandemia da covid, que já está sendo considerada a peste do século XXI.

Cabe perguntar como foi possível que a humanidade chegasse a esse estádio de desenvolvimento, tornando factível controlar a fome, as pestes e as guerras? Sem o risco de incorrer em erro, mesmo o mais banal, é válido afirmar que não foi nem pelo negacionismo, muito menos pelas mentiras contadas em rede nacional de televisão, nos depoimentos na CPI da Covid, bem como nas entrevistas, tão ao gosto daqueles que desgovernam, essa outrora próspera Nação globalizada, hoje pária para o mundo.

Nesse contexto, é oportuno indagar: na Republica dos trópicos, como será que está o controle da peste da covid, e da fome? Como se comportam o governo e parte significativa da elite de direita que lhe empresta apoio? Bem, por aqui, parafraseando a letra interpretada por Luiz Gonzaga, nosso rei do baião, na canção – No Ceará não tem disso não, afirmamos que, no Brasil, não tem disso não. A fome e a peste da covid, “não têm controle, não!” A realidade em curso é a melhor resposta para essas e outras perguntas.

Como é de sabença coletiva e confirmado na CPI da covid, apesar das mentiras contadas pelos representantes do desgoverno, por aqui, a ordem sempre foi e continua sendo, não comprar vacinas, não testar, apostar na imunidade de rebanho, não usar máscara, aglomerar, combater ao limite o isolamento social, pois se trata apenas de uma “gripezinha”; e a profilaxia recomendada dia e noite sempre foi tratamento precoce à base cloroquina, como reafirmado na última terça feira pela Dra. Mayra Pinheiro, mesmo depois de todas as recomendações cientificas em sentido contrário. E, para nunca ser esquecido, deve ser dito que deixar faltar oxigênio durante mais de vinte dias em Manaus, como restou provado pela CPI, ocasionando a morte de dezenas de pessoas da maneira mais cruel, também fez parte desse comportamento genocida.

Com a recomendação e aplicação desse protocolo macabro, registre-se, só adotado por essas bandas, da República da horda de motoqueiros, já somos hoje mais de 450 mil mortos pelo coronavirus, 14 milhões de desempregados (o maior índice de desemprego após a redemocratização do País) e 39,9 milhões de pessoas na extrema pobreza, segundo dados do IBGE, que vivem, digo, sobrevivem, à míngua de tudo, e sucateiam suas vidas com uma renda per capita de menos de cem reais por mês. Para que se tenha dimensão do que significa esse número dos extremamente pobres, deve ser lembrado que este supera toda a população do Canadá, que é de 38 milhões de pessoas. Sinceramente, não sei se ainda é preciso dizer mais…!

Sim, é necessário, essa história precisa ser contada em toda sua extensão, profundidade e minudencia, registrando os fatos e articulando as ações e omissões daqueles que lhes deram causa, para que não incorramos em leviandades, pois, no despertar das manhãs de todos os dias, os 14 milhões de desempregados, os 39,9 milhões de famélicos e os milhões de parentes dos mais de 455 mil mortos, da peste da covid e da incúria do governo, quando abrem os olhos frente ao espelho, e examinam as rugas legadas pelo sofrimento dessa tragédia, ante a tão fúnebre realidade, se perguntam: “o que nos espera, hoje”?

É pouco provável que dos laboratórios do negacionismo se possa esperar uma ação consequente na gestão do governo, e no comportamento do presidente, que acene minimamente com a possibilidade de alteração dessa trágica realidade; mas é razoável supor que continuaremos ameaçados com bravatas autoritárias, bombardeados por mentiras, xingados e debochados pelo comportamento incivilizado dos membros da oligarquia política presidencial, e sua corriola.

Ao final dessa reflexão, vale uma incursão final ao livro Homo Deus – uma breve história do amanhã, onde Yuval Noah Harari nos lembra de que “[…] há setenta mil anos, a revolução cognitiva transformou a mente do Sapiens” – “esse aprimoramento das mentes permitiu acesso ao vasto reino intersubjetivo”, ‘que dentre outras revoluções’, tornou possível, “inventar a escrita, e o dinheiro, cindir o átomo e chegar a lua”. Setenta mil anos depois, dessa que foi a primeira revolução cognitiva, paradoxalmente pela falta de cognição de alguns poucos de parcos recursos mentais, negam toda revolução científica ocorrida ao longo da história da humanidade, nos levando a vivenciar o mais obscuro dos tempos da nossa trajetória civilizatória.

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Arnaldo Santos

Arnaldo Santos

Arnaldo Santos é jornalista, sociólogo, doutor em Ciencia Política, pela Universidade Nova de Lisboa. É pesquisador do Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP/CAEN/UFC, e do Observatório do Federalismo Brasileiro. Como sociólogo e pesquisador da história política do Ceará, publicou vários livros na área de política, e de economia, dentre eles - Mudancismo e Social Democracia - Impeachment, Ascenção e Queda de um Presidente - sobre o ex-Presidente Collor, em 2010, pela Cia. do Livro. - Micro Crédito e Desenvolvimento Regional, - BNB – 60 Anos de Desenvolvimento - Esses dois últimos, em co-autoria com Francisco Goes. ​Arnaldo Santos é membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ, e da Sociedade Internacional de História do século XVIII com sede em Lisboa.

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