O QUE A COLÔMBIA TEM EM COMUM COM O BRASIL

Se a violência não não é o caminho para exigir justiça, por que será para reestabelecer à ordem?”. Povo Colombiano  pergunta ao governo do seu país.

No dia 28 de abril se iniciou na Colômbia uma greve geral contra a reforma tributária proposta pelo presidente Iván Duque, tendo também como motivação a falta de apoio do governo durante a pandemia e a constante onda de violência promovida pelo Estado. A resposta do governo foi uma violência brutal que deixou dezenas de mortos e produziu mais de 1200 denúncias de violações de direitos humanos, até mesmo a Comissão dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), que acompanha a situação, afirma ter sofrido violência policial.

O que se passa na Colômbia não é um caso isolado. Trata-se de uma reação contra a colonialidade do poder que se estende por todo o continente, operando uma superexploração do trabalho e perpetuando uma economia extrativista que condena a maioria dos povos ao empobrecimento. Além disso, têm-se as múltiplas formas de violências se retroalimentando com o racismo estrutural. Todo esse cenário contribui para que alguns poucos (os extrativistas, os controladores do agronegócio, os rentistas) possam ter grandes rendimentos e a disputar um lugar no ranking da revista americana Forbes.

Não escondem os economistas e publicitários neoliberais que : “ tempos de crise são tempos de oportunidades”. E é verdade, diante das crises do capitalismo, alguns setores do mercado reproduzem, acumulam e concentram ainda mais riquezas. A perversidade da racionalidade do capital fica clara ao penalizar os já empobrecidos com o objetivo fútil de acumular riqueza até mesmos nos momentos em que a maioria da população se encontra venerável, em situação de privação, em situação de miséria, como nos períodos de desemprego, guerra e pandemias. Além disso, têm-se as múltiplas formas de violências se retroalimentando com o racismo estrutural, com formas autoritárias e, até, fascista do exercício da política.

A título de exemplificação, a revista Forbes, do mês de abril de 2021, publicou a sua famigerada lista dos indivíduos mais ricos do mundo, nela foi registrada que durante o ano de 2020, apesar de ser um ano devastado pela crise mundial e acometido pela pandemia do coronavírus, os capitalistas em todo mundo concentraram renda. Enquanto mortes, desemprego, fome, devastação do meio ambiente e miséria se proliferavam pelo planeta, ao mesmo tempo, as relações capitalistas, que tudo mercantilizam, promovia um recorde de acumulação de riquezas para os indivíduos mais ricos do mundo. Foi no Brasil, onde esse fenômeno ficou mais evidente, que a política econômica neoliberal de Paulo Guedes funcionou,  bem como mecanismos de geração de miséria e empobrecimento da maioria trabalhadora e da classe média; através da transferência de riqueza , gerada pela superexploração do trabalho da maioria, para mãos de alguns indivíduos que ostentam um padrão de vida que afrota as condições em que vivem a maioria das pessoas no planeta.

Segundo a revista Forbes, no ano de 2020, o número de bilionários no Brasil cresceu de 45 para 65 indivíduos: brancos, colonialistas, racistas, patriarcais e patrimoniais. Até a pandemia, no país existiam apenas 45 bilionários, durante um ano de pandemia foi acrescido a seleta lista mais 20. No inicio de 2020, os 45 bilionários, juntos, detinham um património de 710 bilhões de reais e no final do ano, com os novos 20 bilionários, passaram a deter um patrimônio de 1,6 trilhões. Dito de outra forma, as 65 pessoas mais ricas do Brasil, no ano de 2020, se apoderaram de um quinto ( 20%) de toda riqueza econômica gerada no país.

Atualmente, a colonialidade do poder, operando pelo neoliberalismo, objetiva-se na forma política e econômica por meio de reformas como a da previdência, a trabalhista, a administrativa , tributária, do extrativismo e do rentismo. As reformas têm como objetivo baratear o custo da mão-de-obra, acabar com direitos e com as políticas públicas e sociais, para impedir o Estado de ser um agente com capacidade de realizar justiça social e de ser um indutor do desenvolvimento com distribuição de renda e riqueza.

Na Colômbia, a população está na rua para dizer que prefere morrer lutando a aceitar a morte programada por reformas que visam à acumulação de riquezas nas mãos de poucos. De imediato, conseguiram fazer com que o governo retirasse a proposta de reforma tributária do congresso e a renúncia do ministro da Fazenda. Eles exigem: renda básica universal de um salário mínimo, a suspensão do processo de privatização em curso no país e o fim da repressão policial. Ao sair da passividade, o povo colombiano foi chamado pela classes dominantes e pelo mercado dos meios de comunicações de vândalos , de violentos e foram massacrados pela polícia a mando do governo. Então, levantaram a questão: “ Se a violência não não é o caminho para exigir justiça, por que será para reestabelecer à ordem?”.

A mensagem que os colombianos passam para o Brasil é a de que devemos ocupar as ruas por mudanças sociais, políticas, econômicas, jurídicas e culturais profundas. Eles nos ensinam que chegou a hora de rompermos com a passividade. Um ensinamento que, também Boaventura de Sousa Santos, diante da chacina no complexo de favelas do Jacarezinho, escreveu um artigo analisando a conjuntura brasileira e nos dando um alerta.

Uribam Xavier

Uribam Xavier - gosta de café com tapioca e cuscuz, peixe frito ou no pirão, de frutas e verduras, antes de ser hipertenso era chegado a uma buchada e a um sarapatel. Frequenta o espetinho do Paraíba, no boêmio e universitário bairro do Benfica [Fortaleza], e no pré-carnaval segue o bloco Luxo da Aldeia. É professor, ativista decolonial e anti-imperialista, escrever para puxar conversa e fazer arenga política. Seus dois últimos livros são: “América Latina no Século XXI – As resistências ao padrão Mundial de poder”. Expressão Gráfica Editora, Fortaleza, 2016; “Crise Civilizacional e Pensamento Decolonial. Puxando conversa em tempos de pandemia”. Dialética Editora, São Paulo, 2021

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