O PRIMEIRO OLHAR

Um novo mundo inicia sempre a partir do nascimento de uma criança. Quando do nascimento do meu primeiro filho, tudo em nossa vida mudou. Por exemplo, devido às fortíssimas chuvas de outono-inverno em Recife naquele 1984, houve uma transformação do espaço de nossa pequena casa, pois as fraldas de pano dele viviam penduradas pela sala, pela varanda, pela cozinha, para poderem secar após a lavagem. Outro fato, como ele só adormecia a partir da meia-noite, requeria de nós ficarmos acordados ao seu lado, colocando-o para ninar, mudando a nossa forma anterior de viver o tempo. Era tudo novo naquele início. Deixávamos de ser dois, para sermos três pessoas a caminhar na estrada da vida familiar. Uma desconhecida e criativa aventura que se ampliava à medida da chegada dos novos filhos e filhas ao longo dos anos.

Hoje, 25 de dezembro, o mundo ocidental debruça-se diante da memória do nascimento de uma criança pobre, ocorrido em situações precárias, num estábulo, pelo de fato de não haverem sido acolhidos nas pousadas de sua cidade natal, Belém da Judeia. Um fato determinante na vida daquela família, mas que talvez ainda não tenha provocado a devida compreensão entre os seus seguidores – os cristãos – que comemoram ano a ano o seu natalício.

Era um período penoso para aquele povo em virtude da devastadora dominação romana que ocorria não somente no campo da exploração econômica, pelos altos tributos cobrados, mas também no campo cultural. Os imperadores se auto-representavam como filhos de Deus, verdadeiros mitos, chegando até a profanarem o templo de Jerusalém com a tentativa de erguer ali uma estátua do imperador Caio Calígula. E para tornar ainda mais dura aquela dominação, Roma nomeou Herodes Magno e seus filhos para regerem a Palestina, cujos reinados foram marcados pelo uso da tirania, principalmente contra os camponeses que constituíam a imensa maioria daquela população.(Shigeyuki Nakanose, Vida Pastoral, ano 53, número 286, setembro-outubro 2012).

Infelizmente, os líderes religiosos de Jerusalém tomaram nenhuma atitude libertadora diante do sofrimento do seu povo. Pelo contrário, aliaram-se a Roma visando a alcançar os seus próprios interesses particulares e privilégios, obtendo uma diversidade de lucros pela colaboração com o Império. É nesse espaço-tempo de grande contradição, de tensão e exploração imperial romana, que aquela criança judia irá crescer em estatura, sabedoria e graça. E ao tornar-se adulto, Jesus apresenta a sua novidade, verdadeira inversão conceitual, proclamando que o menor de todos é o mais importante em seu projeto de comunidade social e política: “O que fizerdes ao menor dos meus irmãos, a mim o fazeis”. (Mt 25,40).

Segundo o teólogo José Tolentino Mendonça, um dos grandes perigos na vida de uma pessoa é o de habituar-se à própria rotina, num fazer por fazer no qual os acontecimentos resultam mecânicos, como se um piloto automático assumisse o comando de sua trajetória. Como contraposição a esta acomodação, o pensador propõe um “aprendizado do espanto”. Para ele o espanto é ter a capacidade de abrir os olhos da mente, da alma e do coração para poder dar-se conta daquilo que está próximo e distante de si. É desenvolver a prática por adquirir um olhar crítico sobre a própria realidade para perceber que muitas das ações meramente repetitivas esvaziam a vida de sua autenticidade fundamental. É preciso ir à busca de novas perspectivas existenciais que possibilitem um olhar novo, uma espécie de “primeiro olhar” sobre a existência, permitindo a infiltração da novidade em nossas vidas.

Mendonça alerta que “crer” não é satisfazer-se”. Crer é não ter soluções a priori, nem estar seguro das respostas de sempre. Crer é habitar o caminho, habitar a tensão, viver em busca. É saber escutar, aprender a ter sede nas contradições que se escancaram diante dos nossos olhos. Penso até, quem sabe, talvez por isso uma das últimas palavras de Jesus antes de sua morte na cruz tenha sido: TENHO SEDE.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Editora Dialética); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .