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O PODEROSO rugido SOUL do BLACK PUMAS

A ascensão da música negra americana no raiar do século passado deu luz a imprescindíveis novos estilos que contribuíram eternamente com a arte dos sons como um todo. Mais que isso, foram bandeira política e transformadora da sociedade em momentos chave da nossa história.

Destes estilos e movimentos, vimos nascer nomes de talento indiscutível, fosse a partir do berço de músicos da costa leste americana (Nova Orleans que o diga, com seu panteão do blues) até a Motown dos Jackson 5 e Michael. Ou ainda de vozes femininas como Whitney e Aretha até chegar aos titãs do pop negro na segunda metade do séc. XX como Sam Cooke, Marvin Gaye ou Barry White. São inúmeras gerações que se seguiram até os dias de hoje, recriando a arte, se reinventando e revolucionando-a com emoção, ousadia e representatividade.

Vindos também a partir da grande força radiofônica e embebidos em toda a carga emocional herdada do jazz e do blues, vertentes como o R&B e o soul misturaram-se sempre brilhantemente a estilos crescentes como o rock, gerando uma salada rítmica e melódica que ganhou o paladar do mundo. A América exporta nos dias de hoje artistas negros fortes e influentes como Beyoncé (ainda falarei dela aqui, aguardem!), Ne-Yo, Seal, John Legend, Lauryn Hill, Rihanna e tantos outros, sendo estes apenas alguns exemplos das belas influências da música negra em nossa cultura.

Mas talvez não exista nada hoje, em 2021, que se compare ao chamado “soul psicodélico” realizado com tamanha energia e talento pela dupla do Black Pumas. Criado em 2017, o duo que foi uma das maiores revelações da música ao estourar em 2019 pode ser jovem em idade, mas seu som é maduro e carregado de influências fortes e criativas. Tanto que recebeu indicação ao Grammy de Artista Revelação no ano passado, peitando inclusive artistas como Billie Eilish – que acabou levando o prêmio em seu lugar.

Eric Burton e Adrian Quesada formam a dupla Black Pumas (foto: Jackie Lee Young)

A história da dupla começa com o guitarrista e multi-instrumentista Adrian Quesada. Natural do Texas (EUA), Adrian possui fortes raízes latinas, e esteve durante 15 anos à frente do Grupo Fantasma, uma banda de funk latino – que inclusive rendeu a Adrian um Grammy em 2011 por Melhor Álbum de Rock Latino. Em 2013, começou a escrever algumas composições de blues para um projeto no qual estava trabalhando, mas sentia que as canções simplesmente não se encaixavam naquela banda. Foi aí que percebeu precisar de ajuda, e alguns amigos o apresentaram ao cantor Eric Burton. Segundo Quesada, a química foi quase que imediata: começaram a escrever algumas músicas juntos, mas ainda trabalhavam individualmente em outros projetos.

Quis o destino que essas forças, em determinado momento, se convergissem e se dedicassem a um projeto só. Começava então ali o alicerce do Black Pumas. Eric foi durante muito tempo artista de rua, tocando voz e violão no píer de Santa Monica (Califórnia) e desenvolveu uma voz incrível, calcada no soul  e no R&B, cheia de sentimento e uma certa sensualidade empolgante. Adrian e sua guitarra, por outro lado, completam o som com uma pegada funk cheia de modernidade no timbre quente da sua Fender Telecaster (um deleite para meus ouvidos de guitarrista…).

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Capa do primeiro álbum, autointitulado, lançado em 2019

O álbum debut da dupla saiu ainda em 2019, intitulado simplesmente “Black Pumas”. Como um cartão de visitas pomposo e inspirado, o disco traz uma colorida fusão de soul music com música latina, um tantinho de hip-hop e uma generosa carga afetiva e sonora de tudo de bom que a Motown produziu. Logo de cara, o play abre com uma pancada soul na primeira faixa Black Moon Rising. Cheia de groove e um arrastado suingado, a canção nos leva logo para os tempos do que havia de melhor naquela histórica gravadora. A voz de Eric Burton já demonstra sua versatilidade, indo dos graves até lindos falsetes muito bem encaixados.

O disco continua nessa gostosa vibe setentista com Colors, que foi praticamente a responsável por “espalhar a palavra” da banda no ano de seu lançamento. Know You Better, Fire dão mais uma subida nos ânimos e trazem também uma pegada (principalmente nesta última) que lembra bastante alguns clássicos da eterna Amy Winehouse, sendo por isso muito boa de ouvir e dançar.

Na sequência, chegam October 33 Stay Gold, que abre o segundo ato da audição. Menção honrosa à faixa seguinte, Old Man, totalmente dançante e com seu riff de guitarra tão característico. É, de cara, viciante e seu único defeito é ser tão curta (só 3 minutos e pouco!), mas a banda compensa isso nas performances ao vivo com uma “esticada” mais do que merecida, com direito até a um sambinha no meio da canção. Demais!

Pra encerrar o play, uma trinca pra todos os gostos com Confines, Touch The Sky e a calminha Sweet Conversations, onde Eric Burton brilha praticamente sozinho em voz e violão. E quem brilha também é a banda que acompanha a dupla, sendo creditados no álbum os seguintes músicos: John Speice/JJ Johnson/Stephen Bidwell/Josh Blue (bateria), Scott Davis/Brendan Bond (baixo), Trevor Nealon/Spencer Garland/Adrian Quesada (teclados), Alexis Buffum/Adrienne Short/Jenavieve Varga (violinos), Elijah Clark/Ulrican Williams (trombone), Derek Phelps (trompete), Art Brown/Josh Levy (saxofone), Lauren Cervantes/Angela Miller (backing vocals) além da própria dupla, Adrian Quesada (guitarra e violão) e Eric Burton (voz, violão e guitarra).

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Black Pumas com parte de sua formação ao vivo (foto: Jacob Blickenstaff)

Felizmente a banda já está voltando às turnês (somente EUA e Europa, por enquanto) por conta da pandemia. Segundo últimas entrevistas, também se encontra produzindo o tão aguardado segundo álbum. Custa nada sonhar em uma vinda ao Brasil, que se depender dos comentários no Instagram deles, já possui um grande séquito de fãs – incluindo os dois tietes aqui de casa.

O fenômeno Black Pumas se tornou tão relevante e influente que a canção Colors foi praticamente símbolo carimbado e sempre presente nos EUA durante os protestos antirracistas que se sucederam após a morte de George Floyd, em 2020. Influentes também na política, foram convidados a fazer uma performance sensacional numa live de pré-inauguração do mandato de Joe Biden e Kamala Harris, após as últimas eleições norte-americanas.

Apresentação na live de pré-inauguração do governo Biden-Harris

Por falar em shows, suas performances são enérgicas e contagiantes: basta fazer uma busca rápida no YouTube por vídeos ao vivo da banda para comprovar – destaco a maravilhosa apresentação no Rockpalast (clique aqui para assistir), da qual vale pegar sua bebida favorita e assistir na frente da TV no último volume. Só essa apresentação já faz valer as quatro indicações à maior premiação da música mundial.

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Um presente desses, hein bicho??! (foto: arquivo pessoal)

No fim das contas, acho que premiada mesmo nessa história foi minha esposa, que merecidamente acabou ganhando de aniversário este ano o belíssimo vinil do Black Pumas, pois foi ela quem me apresentou a esses artistas incríveis. Seguindo aquele clichê publicitário, “o aniversário é dela mas o presente foi meu também”, pois adivinha quem é que de vez em quando também desfruta dessa bolacha sonora? :)

Te vejo no próximo play!

Serviço

“Black Pumas”
Black Pumas
Gravadora: ATO Records 
Data de lançamento: 21/06/2019

Faixas:

1. Black Moon Rising
2. Colors
3. Know You Better
4. Fire
5. OCT 33
6. Stay Gold
7. Old Man
8. Confines
9. Touch The Sky
10. Sweet Conversations

Fontes:

https://www.itapemafm.com.br/entrevista-adrian-quesada-black-pumas

https://www.latimes.com/entertainment-arts/music/story/2019-11-20/2020-grammy-nominations-who-is-black-pumas

https://www.billboard.com/articles/columns/hip-hop/8544299/grammy-nominations-black-pumas-things-to-know

 


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Sérgio Costa

Sérgio Costa

Bacharel em Ciências Sociais pela UFC e em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) pela Fanor/DeVry. Publicitário por profissão, empresário por coragem e guitarrista por atrevimento. Apaixonado incurável por música, literatura, boas cervejas, boas conversas, viagens inesquecíveis e grandes ideias. Escreve quinzenalmente sobre música para a coluna Notas Promissoras do portal Segunda Opinião.

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