O PMDB

O PMDB é a Geni da política. Patrimonialismo, fisiologismo, clientelismo são a ele associados. A corrupção e os vícios morais de alguns dos seus líderes colaram nele. A falta de organicidade, doutrina e programa é outra crítica a ele dirigida.

A falta de organicidade é ausência do abominável centralismo. A falta de definição doutrinária enseja liberdade interna e evita a “cegueira dos paradigmas”, de que fala Thomas Kuhn em seu opus Magnum “A estrutura das revoluções científicas”, que leva a erros graves e impossibilita a autocrítica. As políticas econômicas heterodoxas têm levado ao desequilíbrio das contas públicas e outros males, mas os seus mentores não aprendem as lições porque têm convicções arraigadas.

Convictos são impermeáveis à razão, têm percepção seletiva. Os vícios não são oficializados, no PMDB, porque o partido não tem organicidade nem é centralizado. Quando seus membros são flagrados o partido não os trata como heróis. Hipocrisia? Certamente, mas esta é um tributo que o vício paga à virtude. Pior é o cinismo, que representa o total desprezo pelas virtudes cívicas, acoimando-as de moralismo, ingenuidade, udenismo ou moralismo.

O PMDB não se apresenta como detentor do monopólio das virtudes cívicas. Não engana. Não apresenta uma solução geral e irrestrita para os problemas sociais. Não faz pose de superioridade moral e intelectual, porque lhe falta a “solução” de um suposto problema fundamental, do qual derivam todos os males, não se sente legitimado para a prática de torpeza, por não ser messiânico não adota a ética situacional ou finalista (teleológica), que acaba sendo mero oportunismo. O desastre é o resultado do messianismo e do reducionismo ligado a um problema fundamental, incompatíveis com a alegada superioridade intelectual dos “puros” e “sábios”.

A presunção de superioridade fabrica “sábios” com ou sem estudo, com simples chavões. O PMDB não tem isso. A corrupção nele não é orgânica, porque ele não é um partido orgânico. A falta de um projeto total para a sociedade afasta a vocação totalitária. Falta-lhe o programa de reengenharia social e antropológica, raiz de todo totalitarismo. O partido em exame não tem apenas defeitos. Tem humildade em face do senso comum. O eleitor não se lhe afigura alienado. À falta de uma suposta consciência esclarecida e de um projeto de reengenharia social e antropológica, o PMDB se curva reverente diante da vontade do eleitor. Veja-se o encaminhamento dado ao problema da maioridade penal, como exemplo paradigmático de sua humildade democrática e acatamento da opinião dos simples, essência da democracia, sem entrar no mérito da matéria.

Não sendo o maior partido, nem estando na chefia do Executivo, o PMDB consegue a hegemonia do Congresso. Não sendo oposição nem governo consegue ser mais oposição do que a pálida oposição formal; e governar mais do que o governo, dando uma lição de sabedoria política. E nenhum partido tem autoridade moral para censurar-lhe os graves e numerosos vícios. Ao recuperar as prerrogativas do Congresso, pode sugerir a saudável solução parlamentarista.

Rui Martinho

Rui Martinho

Doutor em História, mestre em Sociologia, professor e advogado.

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