O passado do Companheiro Acácio – por CLAUDER ARCANJO

Neste cair de tarde, o mundo me aflige com um silêncio incomum. Os homens arderiam em suas melancolias? As damas sobraçariam seus lençóis de segredo?

Cá estava eu a meditar quando vejo passar, na calçada à frente, o Companheiro Acácio. Depois do nosso reencontro em terras capixabas, ele tomara uma injeção de sumiço.

— Acácio, Acácio! — Chamei-o, sem me importar com a potência dos meus gritos a quebrarem a vidraça da pasmaceira vespertina.

Homens e mulheres, presentes na cafeteria, estranharam tantos rogos por trás daquele homem de óculos e bigode. E eu com isto!? Acácio vale um desespero.

Como eu percebi que ele flanava mergulhado em seus profundos pensamentos (e sabedor de que, quando se encontrava em tal estado, a surdez lhe era total), cuidei de atravessar a rua e conduzi-lo para próximo de mim.

Quando se sentou, Companheiro dispôs o Romanceiro da Inconfidência entre nós dois, ao centro da mesa, e, com acento de quem reviveu memórias longínquas, recitou Cecília Meireles:

— “O passado não abre a sua porta /e não pode entender a nossa pena.”

Sinalizei para o rapaz da cafeteria o nosso pedido de sempre; enquanto, rápido, buscava alinhar o meu raciocínio. Explico. Quando Acácio se achega, vestindo o discurso de versos assim — aprendi isso a duras penas —, não nos devemos deixar levar pelo primeiro verbo que nos assoma aos lábios. Então, cuidei de bem mastigar a minha ansiedade, pisei no rabo longo da minha aflição. Esta, à beira de (mais que de pronto) me fazer lhe responder…

Não mais me aguentei:

— “Que a sede de ouro é sem cura, /e, por ela subjugados, /os homens matam-se e morrem, /ficam mortos, mas não fartos.”

De imediato, Acácio me apresentou o seu melhor sorriso, enquanto me confidenciava, à voz miúda, quase em sinal de pecaminosa confidência:

— “Há multidões para os vivos: /porém quem morre vai só.” Melhor baixarmos o tom poético. Estamos em terras de extrativistas minerais, o ouro de hoje, por aqui, é a hematita. Espírito Santo, Espírito Santo! Melhor, creio, seria mudarmos de assunto, amigo Clauder Arcanjo.

— E eu lá sou homem de ter medo!? — Devolvi-lhe, não sem antes investigar quem sentava ao nosso entorno, temeroso de ter sido ouvido (e sumariamente identificado).

A risada caiu sobre a mesa. Juntos, e sem conter os decibéis, gargalhamos às fartas em solo capixaba.

— Não o sabia admirador deste belo livro de Cecília, Arcanjo. Imaginava-o ainda refém das obras literárias de ocasião — espetou-me, com seu humor e sua ironia singulares.

Cofiei o bigode, sorvi a xícara de café que chegara à mesa e contra-argumentei:

— Não mude de assunto, seu provinciano de uma figa! Quem chegou aqui (melhor, quem passava por aqui) com a cabeça nas nuvens, a soletrar o Romanceiro, foi você. E, como a sentença que primeiro me serviu trazia a forte marca do passado, cuide logo de “desembuchar” o que, de priscas eras, ainda o aflige. Vamos! Entendo bem você, como se fôssemos almas-gêmeas. Nunca se esqueça disso! — Extravasei, com os olhos arregalados a lhe avisar: “agora, sou todo ouvidos”.

Ele pegou e largou a xícara, seguidas vezes; o café a esfriar e Acácio a vagar com os olhos no miolo do cafezinho, todavia sem dar, nem atinar, por nada ao seu redor.

Resolvi, com habilidade, trazê-lo de volta. Bem reconhecia que quando Companheiro escorregava (ele e seus mergulhos dialéticos e maiêuticos!) pelo rio caudaloso (e cheio de surpresas) da sua filosofia, teríamos, quase com toda certeza, a exata tradução do “chato (filo)falante de galocha”.

Sem preâmbulos, a sua voz tonitruante emergiu:

— Seria a saudade do Nabuco?, indago-me. Sim, o meu amigo felino que deixei em terras cearenses! Estou longe dele (e de seu olhar metafísico) há quase um mês. Você bem sabe, Clauder Arcanjo, que, quando se fica afastado muito tempo de um leal amigo, não sei o porquê, a mente nossa vê-se como terra de outros invasores. Sem falar, se é que poderia me expressar assim, da sensação de país abandonado em que me encontro. Em tais ocasiões (melhor, em tais noites), o corpo e a mente pendem o ponteiro para o ontem, as coisas de outrora se revestem de um brilho diferente. Nem sempre melhor, algumas cenas (revividas assim, com as lentes da distância) são patuscas e gris, como se infestadas pelo mau-cheiro do bolor azedo daquilo que deveria ser enterrado e, sumariamente, esquecido; outras (com o tempo a lhes ser dadivoso), surpreendem-nos com o seu ressurgimento, pinceladas com o esmalte do perdão e sob a luz fulgurante do revelho que se fez (re)novo. Sem mencionar…

Intrigado com tanta digressão acaciana, resolvi chamar o garçom, pagar a conta e emitir gestos de despedidas. Ninguém aguenta o Acácio em foros de digressão. Prefiro-o metafísico, apesar da dureza desse estado d’alma.

— E você já vai, Arcanjo?! Mal cheguei, homem! Logo agora que rompi a capa do silêncio, que tomei gosto pela prosa, você quer…

— Nem devia ter me achegado de você. Sem problemas, a culpa foi minha. Era para deixá-lo flanando pelas ruas de Vitória, sob a neblina fina desta chuvinha miúda. No máximo, era para ter lhe seguido os passos e, ao percebê-lo com as passadas no hoje, convidá-lo para um café nesta fria manhã de sábado. Deixe estar, deixe estar… — Desabafei, levantando-me.

Acácio baixou a face, já com a tez lívida e o beicinho de tristeza. Isto me desarmou o rompante de há pouco. Lembrei-me de que Acácio viera de tão longe apenas por minha causa. Bem como de que, em outros momentos difíceis, ele esteve ao meu lado (meio de banda, mas esteve). O nosso passado, o convívio em comum ao longo desses mais de cinquenta anos pesou-me na balança da consciência. As cenas de nossas brincadeiras à beira do rio Acaraú, as primeiras namoradas em Licânia, as crises ególatras da juventude, os desvarios das utopias adolescentes, a concórdia entre nós enquanto o mundo declarava-se em estado de guerra… Tudo isso desfilou em minha mente.

— Acácio, seu passado nos agiganta. Nosso passado me irmaniza consigo. No entanto, Companheiro, hoje é passado, cuide de tirar a sua tristeza do meu caminho que eu quero desfilar com a minha alegria.

Ele me olhou com seu jeito de tigre raivoso e, quase possesso, disparou:

— Você, como todo mau poeta, Clauder, adora se apoderar dos versos alheios. Francamente, francamente. Boa tarde!

E, dando-me as costas, Companheiro Acácio saiu, enfiando-se pelas ruas de Vitória, a cantarolar um dos clássicos de Nelson Cavaquinho:

— “Tire o seu sorriso do caminho /Que eu quero passar com a minha dor /Hoje pra você eu sou espinho /Espinho não machuca a flor /Eu só errei quando juntei minh’alma à sua /O sol não pode viver perto da lua/ Tire o seu sorriso do caminho /Que eu quero passar com a minha dor…”

Lá longe, um sino rouco e tristonho convocava os fiéis para a missa das seis.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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