O Neto do Meu Avô

De Asolo, cidade do Vêneto da Itália, telefona-me o artista plástico Bruno Pedrosa. Com a humildade de sempre, uma das marcas de caráter da pessoa humana extraordinária que é, Bruno pede-me para ler os originais do livro “O Neto do Meu Avô”, com que o artista cearense, objeto de admiração e reconhecimento mundo afora, faz sua estreia como memorialista.

Diz-me, com um misto de pura simplicidade e inconfundível elegância, traços indissociáveis de sua personalidade marcante, tratar-se de reminiscências sem grande pretensão, apenas registros do que o passar do tempo e a distância não foram capazes de apagar de sua mente e do seu coração: suas origens, sua gente, a natureza que lhe serviu de inspiração para muito do que faria como pintor e, claro, sua trajetória como homem e como artista, verdadeiro senhor do mundo, por diferentes países, na maioria dos quais se encontram espalhadas obras de sua lavra.

Como é próprio do seu espírito brincalhão, pude concluir depois de ler os primeiros capítulos do livro, Bruno pregava-me uma peça. O Neto do Meu Avô é muito mais que mais um livro de memórias, constituindo exemplo de que, tanto quanto o artista de prestígio internacional, é escritor de grande talento, que soube, sem artificialismos e vícios recorrentes em produções do gênero, trabalhar a matéria com que refaz o caminho proustiano que o traz de volta ao tempo perdido.

Impressiona no Bruno Pedrosa memorialista, para além da sinceridade artística que permeia o livro de cabo a rabo, fazendo-o já por isso notável, a veia poética com que descreve o sertão do Cariri, a capacidade para inventar imagens, metáforas desconcertantes, estabelecer comparações originais e tirar de suas recordações profundas, poesia  — e poesia da melhor qualidade, cuja beleza reverbera na alma do leitor mesmo quando, por instantes, reúne disposição para largar o livro.

Para não falar do estilo, pontuado por uma voz autoral que ecoa a voz do seu povo, de sua terra, principalmente. Ocorre-me lembrar, a esta altura de minha sucinta apreciação do belo livro de Bruno Pedrosa, e tomando de empréstimo o que disse sobre José Lins do Rego, mestre na arte de cantar em prosa o sertão nordestino, Josué Montello: “… Tem-se a impressão, por vezes, de que não é ele que escreve, mas a terra que escreve por ele, com a sua língua, os seus tipos, as suas paisagens, o canto de seus pássaros”.

Difícil destacar do livro um excerto com que se deva exemplificar a beleza do texto de Bruno Pedrosa. A pretexto de escrever sobre memórias profundas, fez ele um tipo de narrativa de ficção, se ao leitor for dado o direito de esquecer o eu autoral em favor do eu lírico que transita pelas páginas do livro como uma personagem de Marcel Proust, para me reportar uma vez mais ao inigualável “Em Busca do Tempo Perdido”. É que, como está na sua apresentação do livro, para Bruno Pedrosa “as lembranças são estrelas. A memória é uma noite bonita”.

Para finalizar, de Bruno Pedrosa se pode dizer, sem lhe fazer favor de qualquer espécie, que, sendo um dos artistas plásticos mais apreciados de sua geração, no Brasil e na Europa, é também escritor desmedido. Cuidando-se de evidenciar, por oportuno, que, no memorialista, pode-se perceber a mão do pintor, que Bruno Pedrosa, largando o pincel, sabe pintar exemplarmente bem com a palavra.

Aguardem o livro, e verão que só há verdade no que digo sobre O Neto do Meu Avô.

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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