O não-acontecimento

A realidade é muito mais cinzenta, com suas diversas graduações, do que propriamente preta ou branca. Para entendermos um evento é preciso observá-lo a partir de várias perspectivas e abordagens na busca de encontrar as verdades da quais é portador.

A ventania ocorrida em Washington DC, no dia 06 janeiro, com a inédita invasão do Capitólio por militantes vinculados ao presidente Donald Trump, depois do discurso por ele pronunciado na Praça do Obelisco conclamando a manada de seus adeptos a rumarem para a sede do poder legislativo da nação estadunidense, permite-nos visualizar uma variedade de questões por meio dos breves desvelamentos por ela produzida.

Nesse sentido, iremos recorrer a um conceito expresso pelo filósofo e sociólogo francês Jean Baudrillard (1929-2007), o primeiro membro de sua família a cursar uma universidade, que se dedicou aos estudos sobre o impacto das mídias e da tecnologia na vida contemporânea. Trata-se do “não-acontecimento”, definido pelo sociólogo como “um evento ambíguo, imediatamente destinado a contagiar as massas por meio das mídias sociais; são eventos previstos, propositais e calculados, construídos por outras razões, não havendo sentido neles mesmos, e como tal, por serem programados, estão sujeitos a repetições”.

Um exemplo clássico recente de “não-acontecimento” foram as manifestações de rua no Brasil, convocadas pelas siglas “MBL”, “Vem pra Rua”, “Nas Ruas”, contra a corrupção e aumento do preço da gasolina, por exemplo. Mas na verdade, o objetivo desses não-acontecimentos estava voltado para fortalecer o desmantelamento do nosso sistema político-econômico, engendrado pela tomada do poder pelo grupo golpista em 2016, com a destituição da presidenta Dilma Rousseff. Tanto é que desde então o preço da gasolina duplicou, a corrupção continuou, a inflação atingiu a casa dos 23,14% (IGP-M) em 2020, o Brasil conta mais de 200 mil pessoas mortas pela Covid-19, porém as manifestações destas siglas inexplicavelmente pararam de acontecer.

No dia 06, Trump estava produzindo mais uma de suas cartadas midiáticas populistas, afinal uma das táticas da “alt-right” é alimentar constantemente seu gado com a atmosfera de tensão e medo, propiciando cenários de polarização, violência e caos. Este foi o script percorrido ao longo do seu governo, tanto a nível interno como em termos de política externa. Não é à toa que os EUA estão hoje com quase 400.000 (quatrocentas mil) pessoas mortas pelo Covid-19, com Trump, desde o início, tendo se recusado a admitir a necessidade de “lock-down” no país, além de haver incentivado as pessoas a ingerir detergente ou cloroquina como tratamento eficaz contra a pandemia. Portanto, na quarta-feira, ele aventou nutrir sua “Red America” por meio de um evento, com transmissão televisiva mundial (uma bomba semiótica), retransmitido e editado para suas mídias de militantes, demarcando sua liderança neofascista, ao atacar simbólica e abertamente a esfera pública institucional – o Congresso – espaço onde a política liberal realiza seus consensos.

De quebra, com aquele pseudo-ataque, Trump revigorou a obsessão estadunidense pela segurança interna contra o terrorismo desde o acontecimento da derrubada das Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, estimulando a ideologia da “guerra preventiva” e do “espectro total”. No final, foram 05 mortos e mais de 50 feridos.

Neste cenário semiótico de polarização política, destaca-se a mensagem enviada pelo presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, desejando estabilidade e justiça social para os EUA. De fato, os EUA são o país no mundo com a maior concentração de renda, maior número de mortos pela COVID-19, maior número de desempregados, levantando a questão: que resposta pode ser dada num país onde poucos vivem numa superabundância econômica e uma expressiva parcela da população passa por graves necessidades?

O escritor brasileiro Ailton Krenak, ao refletir sobre o estágio presente do capitalismo, denuncia que vivemos uma fase grotesca na qual o capitalismo tem produzido uma mudança em si mesmo ao destruir o mundo do trabalho como o conhecemos. Em sua fase atual o sistema começa a dispensar “a ideia de população”. Para Krenak, sua próxima missão é se livrar de ao menos metade da população do planeta, segundo o programa do necrocapitalismo. A desigualdade deixa fora da proteção social 70% das pessoas do planeta. E, no futuro, os ricos não precisarão da população sequer como força de trabalho. Quem hoje promete um mundo de pleno emprego é cínico. Não existe nenhuma possibilidade material de as coisas voltarem a funcionar assim. E o que a pandemia tem propiciado é um ensaio sobre a morte. É preciso um novo modelo de economia que reorganize a vida das pessoas no planeta.

Portanto, estas são nossas primeiras e breves impressões sobre o “não-acontecimento” do dia 06 de janeiro, na abertura da terceira década do século XXI.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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