O guardador de muros

GUARDAR MUROS não é uma tarefa simples. Requer capacidade de gracejo para poder se dar bem. Tanto com os que se colocam contrários à sua existência, pela fragmentação da realidade e pelas contradições ocultadas pelos muros, quanto com os seus frequentadores assíduos que na atualidade crescem volumosamente. Afinal, a vista em cima do muro permite conhecimentos simultâneos dos lados separados por aquela construção humana.

Há mais de 30 anos Heuch se dedica a esta tarefa. Desde criança sempre sonhara com isso. Cresceu observando como era o desempenho dos seus ídolos em cima do muro: suas manobras, suas piruetas, seus contorcionismos para manterem-se equilibrados, sem tomar partido de nenhum dos dois lados, seja do lado A – o de sua origem muito menos do lado Z. Não tomar partido é a sua tática vitoriosa, afinal o muro existe para manter os lados sempre bem separados. Toda a comunicação entre os lados tem que passar obrigatoriamente por aquelas paredes.

No lado A habitam os moradores da beira-mar. Todas as manhãs fazem suas caminhadas, tomam banho de sol e mergulham nas águas transparentes da natureza marinha, criada para o bem de todos, mas tão somente aproveitada pelos Ametropolitas. Não têm pressa e nem são cobrados para concluir essas tarefas. A ideia da construção do muro partiu muitos anos atrás de um de seus respeitados chefes de família.

No lado Z estão as pessoas da terra árida que, devido ao muro, não podem ter acesso nem ao banho de mar, nem ao banho de sol e nem fazerem caminhadas matinais diárias. Mesmo porque, no lado dos Zerdados há poucas casas, muitos deles não têm sequer onde morar. Alguns trabalham nas empresas dos Ametropolitas, outros vivem de esmolas. E são os oficiais guardadores dos muros aqueles que fazem toda a administração dessas organizações ametropolitanas, remetendo mensalmente para os proprietários e acionistas os lucros produzidos pelo trabalho dos Zerdados.

Heuch é um guardador muito aplicado. O muro do qual éguardador prima por ser uma construção muito esguia, quase atingindo o firmamento. Desse quase-céu, ele vive dedicado a desenvolver uma doutrina da boa convivência entre os lados, do não-conflito e da não-reivindicação, por meio da qual realiza periodicamente campanhas de beneficência, em datas comemorativas, mediante as quais os Zerdados recebem bonificações e cestas básicas doadas pelos Ametropolitas, em cerimônias amplamenterepercutidas pelas diversas mídias sociais. Além disso, engendra por meio dos seus oficiais-coaching uma variedade de cursos de formação e treinamentos para os Zerdados desenvolverem sua inteligência emocional e espiritual, sua auto-estima e a auto-empregabilidade, incentivando-os a serem empregadores de si mesmos.

O exemplo de Heuch emociona muitas e muitos jovens que buscam seguir sua trilha. Em sua oração do Natal passado, disse ao Bom Deus: “Obrigado, Senhor, por me haveres concedido a graça de ser um Guardador de Muro. Tu o sabes bem o quanto procuro fazer essa Tua vontade. A presença dos muros no mundo permitem a vida harmoniosa e tranquila entre os lados separados. E que assim seja!”. Por guardar muros, Heuch considera-se um homem feliz e realizado.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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