O gato do Companheiro Acácio – CLAUDER ARCANJO

Sábado de nuvens, uma calmaria incomum a envolver a cidade. Desde cedo acordado, já mexera os livros, relera um conto de Machado, arrumara alguns pertences que, há dias, entulhavam o quarto. Até tentara escrever algo, todavia a inspiração fizera troça dos meus planos. Julguei que era arte do Bruxo do Cosme Velho (sempre ao revisitar seus escritos, caro leitor, sou invadido por uma pasmaceira singular: a pena murcha, meus rabiscos enchem-se da tinta do sofrível e invade-me uma ânsia de tocar fogo em todas as minhas páginas). Xô, Bruxo!

Troquei de roupa e, mais de que depressa, ganhei a rua. Tomei um café na esquina; quis participar das opiniões dos presentes, mas, confesso, como não sou afeito à cultura da guerra, calmamente meti-me ao canto, mordisquei algumas dúvidas metafísicas e me lembrei de Acácio.

“Sim, há dias que não o vejo. Estou em falta com o Companheiro!” — Pensei, a rumar ao seu encontro.

Antes de chegar à sua residência, topei com um senhor em busca de uma rua nas proximidades. Tentei ajudá-lo. Mostrei-lhe onde o sol nascia, a direção do Centro, a avenida principal do bairro… Minutos depois, o coitado estava mais perdido do que antes. Guardou no bolso do jaleco o papel em que escrevera o endereço e, com cara de poucos amigos, pediu-me, gentilmente, que o deixasse seguir em paz.

— Estou mais perdido do que antes. O senhor é muito confuso! — Arrematou. Deu-me as costas, mordiscando, suspeito, uma exclamação com foros de baixo calão.

Veio-me à mente uma frase do meu amigo Rivaldo: “Se os navegadores portugueses contassem com a sua bússola pessoal, mestre Clauder Arcanjo, dariam com as caravelas nas geleiras do Polo Norte”.

Deixemos as digressões de lado e sigamos. Acácio me aguarda.

Lá chegando, tomei assento na sua poltrona de leitura e comecei a correr os olhos por sobre a sua escrivaninha: O Alienista, de Machado de Assis; Enfermaria Nº 6 e outros contos, de Anton Tchechov; A alma do tempo, de Afonso Arinos de Melo Franco.

— Companheiro, vim aqui para saldar uma dívida de gratidão! — Proferi a plenos pulmões, ao modo de um vendedor de frutas de rua.

Companheiro Acácio estava (e continuou) a mirar o horizonte, ainda encoberto de nuvens lá fora; ao tempo em que, com paz de monge budista, bebericava a sua rubiácea matinal. Entre nós, ele meteu dois dedos de profundo silêncio.

Enquanto isso, sabedor de que com ele não se cortam etapas (o rio de Acácio corre sozinho), fiquei a ver o que nos rodeava. Dois filmes de Fellini, uma caixa de música com uma bailarina estática, Chopin no som ambiente; nas prateleiras mais próximas: a poesia de Eugénio de Andrade, alguns romances de Faulkner e duas revistas literárias (estas bem amassadas, como que lidas com raiva).

— Com sua licença, Clauder, eu voltarei logo.

Saiu, entrou no quarto e, de lá, saiu de braços com um gato. Branco e de olhos atentos, o felino fitou-me como se me conhecesse há décadas.

— Agora divido minha solidão, amigo Clauder Arcanjo, com o Nabuco. Nabuco, Clauder Arcanjo. Já lhe falei dele, está lembrado?

Certas coisas nos surpreendem de tal forma, creia-me, que a voz some, a mente cai no vazio e a face banha-se com as águas do Jordão da surpresa.

Antes que eu deixasse escapar uma expressão de atoleimado, mordi a língua e ganhei tempo.

Acácio fez que nem se dera conta de tanta inquietação. Acarinhou o Nabuco, confidenciando-lhe:

— É assim, todavia, no fundo no fundo, Nabuco, trata-se de boa gente.

Colocou o Nabuco no seu colo e começou a reler Montaigne em voz alta. De quando em quando, parava, fitava o bichano e emitia alguns comentários.

Refeito do choque, resolvi participar do diálogo Acácio-Nabuco, atacando-os:

— Enquanto o mundo mergulha numa crise política incomum, num embate de ideias e de armas que pode nos conduzir a um conflito mundial, você agora se põe a ser instrutor de gato. Tenha paciência, Companheiro Acácio! Julgava-o inscrito na conta dos cidadãos engajados e atentos às grandes questões do nosso tempo…

Antes que eu concluísse, o Nabuco miou raivoso, pondo as garras de fora. Acácio serenou-o com um carinho delicado nas orelhas.

— Esta resposta é minha, Companheiro Nabuco! — Soprou-lhe.

Companheiro cofiou o bigode ralo, passou a mão sobre a barriguinha cinquentenária e devolveu-me:

— Apesar de toda a nossa convivência, és ainda um homem preso ao ocasional. Apesar de todas as nossas tardes e noites de exercício da boa maiêutica, Clauder Arcanjo, sofres com a tirania do supérfluo. Navegamos juntos nas águas da filosofia e da grande literatura, lembra?, e permaneces como um náufrago comum. A venerares a ponta do iceberg, enquanto o invisível aos olhos nos ameaça abaixo do nível do mar da trivialidade…

Neste instante, Nabuco arregalou-me o olhar. No fundo, a pupila rubra, como se marcada pela raiva do discípulo fiel, ao pressentir o desrespeito ao venerado mestre.

Levantei-me e fiquei um pouco mais afastado daquele felino. Como não sou de interromper um diálogo sem expressar as minhas ideias, interrompi Acácio com algo que saltou aos meus lábios, tomado que fui por tão límpidas palavras:

— Não me venha com seus aforismos de botequim, com sua hermenêutica de omisso, Companheiro Acácio. A questão é de sobrevivência, e você me apresenta uma metafísica somente suportável pelos bichos de estimação! O mundo sofre, e você se fecha no seu castelo, acompanhado por…

Não me esperaram concluir, abriram-me a porta da saída e tocaram-me rua afora. De Acácio, nem um bom-dia. De Nabuco, nem o desprezo do miado de mofa.

A porta bateram-me; e eu, cá fora, a ver nuvens, sem rumo.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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