O FIM DA GREVE NAS UNIVERSIDADES FEDERAIS EM 2024 – O ENCANTO NA ÁGORA DAS MANGUEIRAS

Há muito a ser admirado naqueles que têm lutado sob a inspiração da transformação. E nenhuma narrativa de sua coragem e sacrifico seria adequada ou eloquente o bastante para apreender suas impressionantes conquistas – ou seus infelizes fracassos” [Robin Kelley].

​Ao refletir sobre o fim da greve nas universidades federais e institutos federais brasileiroas, depois de dois meses de mobilização e pressões sobre o governo federal e a sua política de austeridade ou de austericídio, seguindo a advertência de Robin Kelley na epígrafe supracitada, não tenho a pretensão de dar conta de todas as suas dimensões, conquistas e fracassos. Um ponto de partida é o de que a greve em sua natureza teve uma motivação demasiadamente justa, pois desde os governos de Dilma/Temer (2015-2018) e Bolsonaro (2019-2023) que os docentes vêm acumulando perdas salariais. Um segundo ponto: foi uma greve iniciada com um espírito de renúncia a ganhos reais de salários, uma campanha que reivindicava o mínimo, em tempos de Estado mínimo, lutava apenas pela recomposição de salários para que os professores e as professoras voltassem a ter o poder de compra relativo ao ano de 2016. Ponto que, consciente ou inconscientemente, tem a ver com certo grau de cumplicidade e subalternidade da categoria com o lulismo e o petismo.

A greve, que vai ficar na história como “A greve de 2024”, tem sua maior conquista no campo simbólico da organização e na elevação da consciência política e de classe de parte da categoria. Particularmente, na Universidade Federal do Ceará, onde estou inserido como professor, os principais ganhos nesse campo foram o aperfeiçoamento da política de comunicação do nosso sindicato, a criação de um espírito de corpo por parte de professoras e professores, a consolidação da ADUFC como base sindical do ANDES-SN, a conquista de um modo de fazer política respeitoso para com as diferenças e uma articulação solidária entre técnicos administrativos e corpo discente. Além de tudo, a greve serviu para demonstrar que o governo Lula distanciou-se do seu discurso de campanha de 2022, aderindo a uma política de austeridade na qual o investimento na qualidade da educação; na saúde mental dos corpos docentes e discentes, de seus técnicos administrativos; na infraestrutura para o ensino, pesquisa, extensão e combate à evasão de alunos, como garantia da educação como um direito universal, não é uma prioridade e nem uma causa que faça Lula liderar uma disputa com o mercado financeiro e rentista que explora e empobrece a maioria dos brasileiros. Essa é uma luta permanente nossa e a greve provou que não podemos contar com Lula e o seu partido. Lula e o seu partido ainda nos podem servir como a opção menos ruim para evitar o bolsonarismo e a extrema direita.

​Do ponto de vista econômico não formos vitoriosos e nem derrotados. Semelhante a uma disputa de futebol, não perdemos a partida e nem a ganhamos; na medida em que íamos levando gols do governo, fomos reagindo e empatamos. Portanto, não perdemos. Ao não prever no orçamento para 2024 dotação financeira para o ajuste salarial do servidor público, o governo tomou a inciativa do jogo, rompendo com o clima de negociação iniciado em 2023. Em 2024, criou dificuldades para negociar com professores, forçando a deflagrada da greve. Ademais, foi negligente e irresponsável ao não adotar um procedimento rápido de negociação e finalização da greve; apostou no seu prolongamento por dois motivos: i – acreditando que parte dos professores historicamente ligados ao Partido dos Trabalhadores ou Lulistas iria acusar os professores de fazer os jogos dos bolsonaristas, interpelando-os sobre os motivos de não realizarem greve durante o governo de Bolsonaro; ii – apostando no desgaste ante a opinião pública ao divulgar que no governo Lula já havíamos ganho 9% em 2023 e na divulgação de notícias falsas de reajustes elevados dados, como muitas vezes ocorreu na impressa pelo Ministro da Educação Camilo Santana.

​Em resposta do movimento à estratégia do governo demonstramos como tal aposta era falaciosa, que a greve dos professores era um instrumento de retomada do fluxo de mobilização social e que estávamos defendendo a educação pública como um direito universal de todos e todas e não gasto ou investimento. O governo, então, endureceu o discurso do zero e anunciou o fim das negociações. Todavia, o movimento não ficou sufocado, como um sapo no pé do boi: resistiu, foi para o ataque, reabriu as negociações, conseguiu agregar um conjunto de coisas a mais. Nesse jogo, o governo tinha doze jogadores em campo, ao invés de 11, tinha o Proifes, que acabou fazendo a lambança de assinar um acordo com o governo, este, consciente de se tratar de um ato estratégico, topou o acordo espúrio; tinha claro objetivo de usar o acordo para munir a impressa com informações falsas para desmoralizar a categoria. Fizemos outro gol ao conseguir na justiça anular o acordo e desmoralizar o governo Lula e o Proifes.

​Depois da desmoralização do acordo entre o governo Lula e o Proifes, passamos a jogar no ataque. Algumas universidades que ainda não tinham entrado na greve aderiram ao movimento, pesquisa indicava que a maioria da população apoiava a greve, outras coisas foram sendo agregadas e a esperança era que o próprio técnico do time (Lula) interviria na partida e faríamos o gol da vitória. Todavia, o técnico do time orientou sua equipe a sair de campo e a nos deixar sozinho, correndo o campo até se cansar e morrer de inanição. De fora do campo, o técnico do time começou a desvalorizar o jogo político e sindical, bem como a desqualificar seus jogadores e a fazer autoelogios como ex-líder sindical, como bom negociador e como presidente que tem compromisso com os pobres e não com professores de classe média que, para ele, são bem-remunerados e não sabem avaliar o quanto já haviam recebido do seu governo, sem sequer fazer os devidos agradecimentos. Para ele os professores e professoras universitários são uns mal-agradecidos e ingratos. Sim, Lula faz a política da gratidão e não de direitos.

A MUDANÇA NOS RUMOS DA GREVE​

​Minha percepção é a de que Lula entrou em cena para acabar com a greve, e o fez desmoralizando o movimento grevista, desvalorizando os professores, afirmando que a greve não tem razão de durar o tempo que está durando, que deu aumento aos professores sem eles pedirem em 2023, se reunindo com os reitores para anunciar investimentos em construção de prédios sem resolver os problemas de manutenção e bom funcionamento dos existentes, para os quais não tem dinheiro, passando a ideia de que tem compromisso e investe em educação, criando o clima para afirmar que os professores reclamam de barriga cheia e que são uns mal-agradecidos. Na sexta-feira, dia 21 de junho, no Maranhão, Lula voltou a atacar a greve nas universidades federais e disse que não tem medo de reitores. Lula tenta passar a ideia de que o movimento sindical, comandado pelo ANDES-SN, é um movimento radical que aposta no tudo ou nada. E que, ponto final, o governo não tem mais nada a oferecer e os professores e professoras que assumam a responsabilidade de acabar com a greve ou a deixe morrer por inanição.

Lula conseguiu atingir seus objetivos, de forma imediata conseguiu abalar e desmontar psicologicamente parte dos professores e professoras petistas que participam do Comando Nacional de Greve do ANDES-SN, gente que, colonizada pela crença de que a posição intransigente da Ministra da Gestão e Inovação em Serviços Públicos, Ester Dweck, e de José Lopez Feijó, Secretário de Relações do Trabalho, era uma posição diferente da do Governo Lula, acreditava que se negociasse diretamente com o presidente ele seria bem mais generoso; a reunião anunciada de Lula com os reitores era a grande esperança dos iludidos, mas teve um impacto negativo não só no Comando Nacional de Greve, mas em parte da categoria e deu ânimo aos professores que não participam do movimento sindical e são contra a greve.

​No momento em que estávamos saindo da defensiva e passávamos a ocupar uma posição de ataque, que conseguimos pressionar o governo, que passou a sinalizar com pequenos acenos, mas mantendo sua firme posição de não ceder reajuste em 2024, mesmo diante de novas universidades aderindo ao movimento grevista, o que fortalecia a ideia de não admitir zero como reajuste para 2024, depois que as assembleias em todo país recusaram a proposta do governo e votaram pela continuidade da greve, no dia 16 de junho de 2024, um texto de conjuntura, emitido pelo Comando Nacional de Greve (CNG) do ANDES-SN, surpreendeu a todos e todas com a construção de um argumento de que não conseguimos tudo que queríamos – não sei qual era esse tudo –, mas que tínhamos obtido muitas vitórias e deveríamos preparar o fim da greve.
​Ao tomar conhecimento do documento, na realidade comunicado (84-CNG2-2024 – texto de conjuntura do CNG), de chofre postei em nosso grupo de professores: “a forma como o texto lista as conquistas, parece tantas e significativas as vitórias, que quem lê fica com a sensação de que Lula tem razão em afirmar que não temos capacidade de enxergar o tanto que o governo já concedeu. O texto foi construído de uma forma ambígua, com a vontade de continuar a greve e ao mesmo tempo oferecendo uma narrativa para saída dela. Enfim, o documento refletiu a insegurança da direção em relação a qual seria o comportamento da base diante da posição tomada por Lula. O que é muito compreensível. Todavia, imagino que temos que refletir sobre o que ainda podemos fazer e como sair da greve de forma a ter menos prejuízos em termos de desencorajamento da participação na organização sindical. Antes da greve, escutei de professores a afirmação de que não adianta fazer greve, pois, segundo eles, os governos só dão aumento quando querem e no percentual que dizem ser possível. Infelizmente Lula contribuiu para consolidar tal pensamento.”

​No momento em que se consolidava o posicionamento de que era inadmissível zero de reajuste para 2024, o comunicado do CNG, além de ressaltar o tempo todo “as conquistas”, desenvolvia uma narrativa para saída da greve e introduzia dois componentes desmobilizadores. O primeiro, a afirmação “com as conquistas da greve até aqui, é necessário avaliar o grau de mobilização real de nossa categoria. Quais são os desafios que temos pela frente, para projetar os próximos passos do movimento docente.” O Segundo, uma das perguntas: “devemos continuar com a greve ou construir sua saída coletiva no ANDES-SN?” O comunicado conseguiu induzir as lideranças da maioria das sessões sindicais locais a se encaminharem pela saída coletiva da greve fundamentada na narrativa de que não conseguimos o que antes era inadmissível, reposição salarial zero em 2024, mas obtivemos várias conquistas importantes e de que era o momento de sair da greve e evitar o seu esvaziamento.

​Minha percepção sobre o jogo político entre o movimento sindical e o governo Lula é que obtivemos ganhos no campo da organização política; que não fomos derrotados e nem vitoriosos no campo econômico. Todavia, em última instância, fomos derrotados politicamente pelo governo Lula. A disputa política é dinâmica, compreender o tempo da política e saber como se inserir na sua dinâmica é assumir riscos de ter que tomar determinadas posições dentro de um campo de incertezas e indeterminado. Entender a chamada correlação de forças ou ampliá-la em seu favor não é algo fácil e nem depende de uma liderança ou mesmo de um movimento coletivo. O Campo da disputa política não é exato e seus vetores determinantes, entre tantos, pode ser até a sorte.

Tivemos uma condução firme e segura do Comando Nacional de Greve, mas, ao contrário da nossa ADUFC, a sua política de comunicação foi muito ruim, não conseguiu nunca apresentar nada de forma clara e didática. As tabelas e propostas divulgadas, quando explicadas pelas lideranças locais, tornavam-se cansativas, exigiam longo tempo para serem demostradas e nunca eram entendidas pela maioria dos professores e professoras presentes nas assembleias.
Imagino ser muito importante que nas próximas campanhas salariais tenha-se como ponto de partida ganhos reais e não reposição de perdas, esta é o mínimo a se ceder numa mesa de negociação. Além do mais, devemos romper com a estratégia introduzida com o primeiro governo Lula de desmobilização do movimento sindical, que foi o fim da data-base e a negociação pelo período de um mandato.

É muito importante o reconhecimento de que tivemos um CNG firme, que nos representou bem, que foi seguro e merecedor de toda nossa confiança política, é de luta e penso que estamos desafiados a seguir aprofundando nossas reflexões, nossas percepções e abertos para escuta de outras percepções e narrativas.

O ENCANTO NA ÁGORA DAS MANGUEIRAS

Não convém privar os humanistas da sua função educadora. Não se lhes pede arrebatar essa função porque só entre eles se encontra a tradição da dignidade e da beleza do homem.
[Thomas Mann – A lanterna Mágica].

​A assembleia do dia 11 de junho de 2024, na Ágora das Mangueiras, nos jardins da reitoria da UFC, foi um momento mágico de processo de mobilização e organização de nossa categoria, nela foi protagonizada um debate coletivo reflexivo profundo, fecundo e inserido dentro de um horizonte emancipativo articulado a partir dos interesses particulares aos interesses de outros sujeitos que necessitam do acesso à educação de qualidade como um direito universal. Na Ágora das Mangueiras, realizamos uma assembleia onde mulheres e homens, em suas múltiplas especialidades, diferenças e percepções da realidade, refletiram sobre a realidade brasileira de forma complexa, tecida com a realidade internacional e seus desafios diante de um mundo tão sombrio.

​Na Ágora das Mangueiras, o corpo docente da UFC e a sua gloriosa direção sindical demonstraram maturidade ao se colocarem como interlocutores políticos a partir de um lócus de anunciação que não confunde governo, partido e sociedade civil, que não se furtou a uma crítica profunda ao governo Lula, a quem ajudou a se eleger, mas de quem sabe exigir de forma crítica e radical seus direitos, sem se deixar ser usado como instrumento pela nefasta legião de fascistas de extrema direita que vem assolando nosso país e que capturou nosso Congresso Nacional, governos estaduais e prefeituras.

​As falas profundas, questionadoras, que dividiram a assembleia em dois blocos de homens e mulheres, em suas reflexões, afirmações, refutação de argumentos, questionamentos e proposições, geraram um momento político sublime. Se Platão e Sócrates afirmaram que os Sofistas vendiam argumentos diferentes para uma mesma questão, os embates de ideias na Ágora das Mangueiras levaram professores e professoras, em algum momento, a se sentirem como um sofista às avessas, podendo votar numa ou em outra posição em que identificavam suas fundamentações como legítimas e corretas. Foi um momento de epifania política glorioso, que espero possamos repetir por várias vezes.
​A nossa assembleia do dia 21 de junho de 2024, na Ágora das Mangueiras, foi a consolidação de um longo trabalho de resistência da categoria, que passa pelo sepultamento do Proifes no Ceará; pelo enfrentamento do interventor e do seu chefe maior (o coisa); passa pela mobilização para derrotar nas urnas e nas ruas Bolsonaro e por toda a mobilização em torno da preparação e da condução de nossa greve. Nesse sentido, registro meu reconhecimento e apoio a nossa diretoria, que não se furtará ao desafio de seguir conosco nas nossas lutas e na luta por um país sempre melhor. Bem, agora é tempo de seguirmos juntos, pois nossos desafios são enormes.

Uribam Xavier

URIBAM XAVIER. Sou filho de pai negro e mãe descendente de indígenas da etnia Tremembé, que habitam o litoral cearense. Sou um corpo-político negro-indígena urbanizado. Gosto de café com tapioca, cuscuz, manga, peixe, frutos do mar, verduras, música, de dormir e se balançar em rede. Frequento os bares do entorno da Igreja de Santa Luzia e do Bairro Benfica, gosto de andar a pé pelo Bairro de Fátima (Fortaleza). Escrevo para puxar conversa e fazer arenga política.