O espectro total

EM 1928 FOI PUBLICADA uma obra que mudou o conceito e as estratégias de guerra: Propaganda, de Edward Bernays, reconhecido como o líder nos estudos sobre formação da opinião pública. Bernays acreditava que um pequeno número de pessoas em grande parte invisívelorienta a forma de pensar das massas numa maneira de manter as aparências de ordem em uma sociedade caótica. Numa passagem do seu livro afirma: “O estudo sistemático da psicologia de massas revelou aos pesquisadores as potencialidades do controle invisível da sociedade por manipulação de motivos que mobilizam os humanos em grupos que são movidos por impulsos e emoções que não podem ser explicados com base no conhecimento apenas da psicologia individual. Será que o entendimento dos mecanismos e dos motivos da mente grupal torna possível reger as massas de acordo com nossa própria vontade sem que elas percebam?” (http://www.whale.to/b/bernays.pdf, tradução minha).

Maquiavel, leitura obrigatória por ser sempre atual, já havia denunciado, 500 anos atrás, a força do poder simbólico-ideológico quando, em seus “Discursos” e no “O Príncipe”, apontou para a dominação da religião na vida dos súditos dos principados. O grande embate do florentino não era com os clássicos, mas com seus contemporâneos, com o moralismo e a pregação religiosa, por haver constatado em sua pesquisa empírica que os mandamentos de “não roubar”, “não mentir (levantar falso testemunho)”, “não usar o santo nome de Deus em vão”, teriam validade apenas para a população: todos eram descumpridos pelos detentores do poder – terreno e eclesiástico – a começar pelos príncipes da Igreja Católica de então. A partir desta constatação, Maquiavel percebeu que em política o importante não é o vale tudo, mas o êxito. Glorioso era desenvolver menos violência, mais astúcia. Portanto, o povo precisava abrir os olhos tampados pelos sistemas ideológicos de então, cabendo aos cientistas políticos a tarefa de desvendar o que está por debaixo dos panos. Rousseau (1712-1778) foi um atento leitor  de Maquiavel.

Palavras, imagens e sons realizam pouco a não ser que sejam munições de um plano minunciosamente arquitetado e de métodos cuidadosamente organizados para que as ideias transmitidas tornem-se parte integrante da vida das populações. “Quando o público é convencido da racionalidade de uma ideia, ele entra em ação. Ação esta que é sugerida pela própria ideia religiosa, política ou social. Mas esses resultados não acontecem do nada: eles são obtidos pela fabricação de consensos” (Bernays, idem).

Portanto, as manifestações de rua em 2013, iniciadas repentinamente, contra o governo federal, um ano antes da eleição presidencial de 2014, tendo como seus protagonistas ong’s recém-criadas como MBL, VEM PRA RUA, NAS RUAS etc., não foram espontâneas, mas arquitetadas muito antes à sua implementação, propagadas de maneira coordenada para fabricar consensos em parcelas da população, induzindo-as a serem protagonistasde uma “revolução colorida brasileira, etapa inicial do plano de guerra híbrida desenvolvido para a derrubada do governo Dilma Rousseff (PT). Elas começaram como uma tática de campanhas de informação (propagandas), executadas tanto pela mídia hegemônica como pelas mídias sociais, dirigidas à população escolhida. Para isso, elas precisaram ser persuasivas e repetitivas (vide, por exemplo, Lava Jato) para cativar um público o mais abrangente possível. Essa massa foi usada contra o Executivo Federal introduzindo uma espécie de caos para ganhar o controle sobre aspectos intangíveis tais como sociedade, ideologia, psicologia e informação, deixando o governo na defensiva.  Hoje, interessantemente, os líderes dessas ong’s são todos políticos eleitos por partidos políticos, quando à época das manifestações de rua eram todos contra a política, os políticos e os partidos. E não é à toa que também hoje Moro e Dallagnol estão desmoralizados, tanto pelas denúncias ofertadas aos cachos tanto pela mídia alternativa como por instituições brasileiras.

Mas qual a razão de fundo da derrubada do governo Dilma Rousseff (PT), das manifestações de rua a partir 2013 e da Lava Jato?

O escritor Andrew Korybko, em seu livro Guerras Híbridas (Editora Expressão Popular, 2018), anota que no dia 30 de maio de 2000 o Pentágono estadunidense lançou um documento intitulado Joint Vision 2020 (Visão Conjunta 2020), o qual visa explicitamente à dominação do espectro total; ou seja, a prioridade principal dos EUA é obterem *domínio total* nas esferas das Forças Armadas convencionais, das armas nucleares, da retórica dos direitos humanos, da geopolítica, da questão energética, do espaço e dos meios de comunicação. Isso abrange praticamente tudo que pode se tornar uma arma e ameaça no campo de batalha ou *na consciência dos atores sociais e políticos*. O mantra do espectro total é: “ser persuasivo na paz, decisivo na guerra e proeminente em quaisquer formas de conflito”. Trata-se de um estado de batalha permanente para manter a liderança mundial conquistada no pós-guerra de 1945, agora ameaçada com a emergência da China e da Rússia como potências mundiais.

O Brasil dos governos Lula (2003-2006 e 2007-2010) e Dilma (2011-2014 e 2015-Golpe 2016), brilhante em seu protagonismo no BRICS, despontando como importante ator na construção de uma nova ordem multipolar, dialogando amplamente com a América do Sul e com o Hemisfério Sul, apresentava-se como explícita ameaça ao espectro total dos EUA. Por isso era importante derrubar os governos do Partido dos Trabalhadores e colocar em seu lugar forças completamente subservientes aos objetivos estadunidenses, que fizessem continência à sua bandeira publicamente ou que desfilassem nas rampas dos palácios de governo ladeados pelas bandeiras dos EUA e de Israel. De quebra, com esses subservientes no governo brasileiro, os EUA além bloquearem a caminhada progressista de autonomia brasileira e atingirem Rússia e China com a desarticulação do BRICS, também abriram uma porteira para atacar o petróleo da Venezuela utilizando-se do território brasileiro.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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