O ESPECTRO ENTEDIADO DO MUNDO SEM TETO. A OBRA DE EDUARDO FRANCELINO, ATÉ AGORA (XVII)

XCV
O homem das duas corcundas subiu a misteriosa montanha do dia e da noite. A montanha surgiu de repente, sem que nenhum de nós percebesse, e instaurou uma tragédia com a qual nos conformamos de imediato: a montanha paralisou e dividiu o dia e a noite, o que quer dizer que a partir do seu cume era dia no Oriente e noite no Ocidente; que de um lado se estabelecia um eterno meio-dia inclemente que em breve esturricaria tudo e que do outro se instaurava uma meia-noite monótona que em poucos tempo gelatina tudo, e estavam eliminadas todas as variações e gradações, tanto de um lado quanto do outro, e nos acostumamos com o fim que teríamos, como se sempre o tivéssemos merecido ou até mesmo ansiado; e nada perguntamos ao homem das duas corcundas, que também não tínhamos nunca visto antes, mas aceitamos desde que o vimos como coisa familiar e cotidiana, o que ia fazer, afinal, no cume da montanha; aliás, quando apareceu ao pé da montanha, com a clara intenção de escalar com as mãos nuas, foi a primeira vez que o vimos de verdade, o que só pode significar que nunca antes o notamos, ou que o seu surgimento foi tão repentino quanto o da montanha. Nós o vimos chegar ao pé da montanha disposto a escalar e o vimos gradualmente sumir na distância; é tudo de que nos lembramos; e, apesar de não haver mais noite e de não haver mais dia, a gente da terra que vivia sob o meio-dia e a gente da terra que vivia sob a meia-noite escolheu um mesmo momento a cada vinte e quatro horas, marcadas nos relógios de ponteiro, para dormir de cansaço (alguém chegou a dizer que a partir daquele instante todos os relógios de ponteiro parados que apontassem o doze com o braço grande e com o pequeno estariam eternamente corretos no horário, mas que os relógios que permaneciam funcionando eram os que só iam estar certos duas vezes a cada vinte e quatro horas, ou numa banda do mundo em que o relógio em funcionamento apontasse duas vezes a meia-noite ou na banda em que apontasse duas vezes o meio-dia nesse lapso de tempo, que agora não era mais que um engano). Pois na hora exata em que todos acordaram, já que também acordavam no mesmo instante e pacientemente iam esperar que a desgraça se abatesse, já não havia mais montanha e as horas corriam normalmente num mundo esférico que tornara a girar, do mesmo modo que as corcundas sumiram das costas do homem de duas corcundas, que alcançara sem que ninguém visse o cume da montanha e vira o ponto exato em que se dividia no céu paralisado o dia absoluto da noite absoluta, e quando isso aconteceu o demônio da noite que habitava uma corcunda e o demônio do dia que habitava a outra teriam saído felizes, cada um da sua corcunda, prontos para governar cada um o seu hemisfério, se por azar não tivesse cada um errado o seu lado: o demônio do dia foi parar no hemisfério da noite e morreu congelado, o da noite foi parar no do dia e morreu de desidratação. Não vimos nada disso acontecer, nem o homem de duas corcundas, agora sem nenhuma, nos contava nada, e nos calhou essa explicação, que se ele não disse que era verdade também não disse que era mentira; quisemos que fosse nosso herói, ainda que não soubéssemos se ele tinha mesmo feito alguma coisa e que raios de intenção tinha, mas ele não parecia entender nada do que se dizia em língua nenhuma; então comemoramos o que tínhamos que comemorar e decidimos dar ao homem que perdera duas corcundas o benefício que ele parecia desejar, ser deixado em paz, enquanto passava os dias andando de quatro, tateando e farejando, e olhando de muito perto, como quem procurasse a fenda sutil de uma rachadura profunda, ou uma porta de entrada e de saída.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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