O ESPECTRO ENTEDIADO DO MUNDO SEM TETO: A OBRA DE EDUARDO FRANCELINO, ATÉ AGORA (XIII)

LXVII
Ainda precisamos de olhos mesmo depois que cansamos dos nossos próprios corpos, quando já não nos iludimos com eles, quando deles já não esperamos mais do que cansaço e o mais parecido com o prazer que nos podem proporcionar é o alívio das dores. E ainda precisamos de olhos porque ainda que o corpo não obedeça insistimos na volúpia como numa necessidade, como um vício, como uma última ilusão, de tão teimosos que somos. Os olhos são a janela de entrada dos ressentimentos? A boca a porta de saída quando já não nos importa a suscetibilidade de ninguém?

LXVIII
Ainda será a música que nos salvará, desde que permaneçamos calados. Mas o que nos cala é mais um excesso de ruídos do que música, e talvez não queiramos de verdade a salvação (e quase sempre uma intuição secreta de que não merecemos certas dádivas acaba agindo surdamente, a razão pela qual não se pode invadir o paraíso sem que o paraíso se corrompa). Talvez nem queiramos mesmo a salvação, mas a danação, ai, exige tanto desses corpos tão cansados, que talvez só nos reste mesmo que intensos ruídos nos calem.

LXIX
Precisa de olhos, deseja olhos, quer que os próprios olhos sejam cada vez maiores e cada vez menores, que enxerguem cada vez mais longe e vejam cada vez melhor as coisas mais minúsculas. E não importa o quanto possa ter do que deseja, está sempre cego, e diante de cada novidade tudo que consegue declarar é que já viu tudo.

LXX
O quanto do amor ainda dirão que será culpa dos olhos? Mas não são os olhos que impedem de sonhar? Ou são os olhos, tão pobres como velhos pobrezinhos, que pagam os pecados de outros sentidos, ou mesmo de um sentido invisível a que chamaram espírito?

LXXI
Haveria um órgão responsável mesmo, de verdade, pelo amor, que se pudesse transplantar ou então extirpar sem que deixasse de funcionar todo o resto, ou quando se ama é com todo o corpo, e o fim da necessidade e da capacidade de amar é quando já não se inflama a carne, quando do carvão vegetal só sobraram as cinzas?

LXXII
Ninguém deixa de fazer arte como se se separasse de alguém, como quem rompe uma relação dolorosa que um dia pode ter sido boa ou dava a ilusão de que podia ainda ficar boa, ou uma relação que já foi feliz, mas da qual as próprias lembranças só podem machucar, porque lembram felicidades que não vão nunca mais se repetir, ou um encontro furioso de amantes que tiveram que tomar caminhos opostos por razões alheias e que sempre terão a ilusão da chama porque não sofreram a ação do tempo e do tédio. Quem deixa de fazer arte é como quem enfim desiste de insistir no amor não correspondido, e a partir de então terá que fugir constantemente de um nome e é de um rosto que está em todos os lugares, até onde nunca esteve. – A razão pela qual se ressentem os artistas que persistiram e nunca ganharam dinheiro: era tudo que podiam ganhar que fosse minimamente visível e palpável. E é da natureza do dinheiro levar o amador a maltratar até o ódio a coisa amada. E diz o dinheiro ao seu possuidor com um ar de cumplicidade canalha: “Como é boa esse vida despiritualizada!”

LXXIII
Os sintomas da surdez do ouvido esquerdo têm amenizado. A surdez passou de quase completa a parcial e de parcial a bastante moderada. Em breve já não haverá resquícios de uma perda temporária da audição além da memória. Nunca imaginei que me fizesse tanta falta a sensação de não ouvir. Acho mesmo que sonhei com uma sensação de surdez do espírito, que deve ser uma parte do que chamam de nirvana. Curioso que o Apocalipse de João se dê de forma oposta e avessa, num excesso de sentidos que antes de chegar ao paladar, ao olfato e ao tato já fez que perdessem o juízo os pecadores pela visão e pela audição. – Ainda sinto falta da sensação da surdez; já não invejo os santos: apenas os grilos são insuportáveis.

LXXIV
E se não tivesse sido um ouvido, mas um olho? E se a sensação que tivesse perdido mais que parcialmente fosse a da visão de um dos lados? Acredito na música como modo de redenção, se não for um método anestésico, e por que não? Pois mesmo assim, e sem precisar esforçar o outro ouvido, e sem precisar recorrer muito à memória musical, lidei mais ou menos bem com a ausência de som, que eu sentia tão forte, dado o fato complementar dos zumbidos, que às vezes me parecia que era dos dois ouvidos que eu tinha ficado surdo. Mas e se tivesse sido um olho? Com apenas um ouvido eu sentia perdido além de parte da audição também uma parte do senso de localização espacial. Perdido um olho e lá se ia a sensação de profundidade, o que também é um pouco perder algo do sentido de localização. Ou o que quero, decadente, é imaginar um por um os sentidos do corpo se perdendo e imaginar como me adaptava à perda de cada um deles? Ou o que desejo, filosófico, é saber por dentro a natureza de um corpo vegetal? Dirão os que já perderam de verdade algum sentido: que eu não queira isso, porque era o mesmo que perder uma riqueza ao qual eu não sei dar valor, e que posso aprender a valorizar com a perda. E digo que têm razão. É que quando falei de olhos e ouvidos de algum modo não era de olhos e ouvidos que eu falava. E se soubessem do que falo não dirão uma vez que fui insensato, mas dirão três vezes que sou um monstro.

LXXV
E se fosse a fala que se perdesse, não a língua, libidinoso e imprudente órgão molusco, mas a capacidade mesma e própria das palavras, se se queda numa afasia que começa na mente? Dizem que Giordano Bruno teve a língua presa por um prego antes da sua execução pública porque não queriam correr o risco de que ele falasse no caminho. A crueldade extrema estava em que antes de morrer o condenado não se calava a parte do seu corpo e do seu ser que queriam calar, e nenhuma delas tem que ver com o aparelho fonador.

LXXVI
O que faria quem aprendesse coisas que não pudessem ser ditas em palavras porque as palavras não eram nunca o bastante? Por que quem aprendesse uma coisa assim teria uma tão grande angústia de comunicar o que pensa que sabe e nem pode dizer o que é?

LXXVII
Coisas de que gostam de falar os imprudentes e os redundantes, como se a imprudência não fosse uma redundância e a redundância uma imprudência. As misérias do corpo e as delícias do corpo, tudo que olvida a linguagem num corpo humano vivo.

LXXVIII
Por que não basta a ninguém apenas saber que vive? Por que a necessidade de que os sentidos ofereçam explosões ou cozimentos a fogo brando? Dizem que os nazistas, e isso vem mesmo descrito na última novela do Stefan Zweig, usavam o expediente de trancar prisioneiros em quartos brancos, sem mais nada, como forma de tortura psicológica. Dizem também que era muito eficaz.

LXXIX
A dualidade da covardia e da prudência. O ruim de possuir e de desfrutar, pior que o tédio de possuir e desfrutar, é a lembrança dessas coisas quando já não estão ao alcance da mão. Ai, a estranha dádiva de desejar durante toda uma vida uma mesma coisa que jamais será alcançada, desejar sem nem saber tão ao certo o que se deseja pela falta completa de experiência. Toda uma vida espiritual feita disso. Os amores irreais e doloridos dos eternamente virgens. Uma experiência da ausência que um único gesto imprudente já torna impossível.

LXXX
Ninguém pode nunca dizer que nada sabe. Os que nada sabem não falam, porque não sabem, inclusive, falar. E a fala não pressupõe apenas domínios vocais e vocabulares, mas uma série de terrenos invadidos. Nem o virgem mais empedernido, portanto, pode dizer que de modo completo ama como um virgem. A própria proposição de Sócrates só seria possível numa hora anterior ao último grau zero da palavra. E já aí nascia o paradoxo.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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