O ESPECTRO ENTEDIADO DO MUNDO SEM TETO: A OBRA DE EDUARDO FRANCELINO, ATÉ AGORA (XII)

LXII
Não importa a geografia; todos os desertos são circulares. Não tanto no sentido óbvio em que suas beiradas, então, fariam um caminho circular no qual qualquer ponto pode ser ao mesmo tempo ponto de chegada e de partida e nenhum possa ser considerado, a princípio, nem como uma coisa nem como outra. (É quase tentador pensar numa disposição circular das cartas do tarô em que as cartas quedassem na sua ordem numérica, com a carta do Louco, que não é numerada, com a carta do Mago do lado esquerdo e a carta do Mundo à direita, ou o avesso, se a contagem em ordem decrescente também não pudessem ser feita no sentido anti-horário. De qualquer modo, mediando as duas pontas da narrativa, se pode dizer que a carta do Louco, numa leitura um pouco apressada, mas conveniente com o momento de agora, pode equivaler a um estágio anterior ao Mago: o instinto criador caótico busca um rumo; ou que é o Louco que sucede ao Mago, o que pode significar que foram turvados os caminhos da razão, ou que a razão empurrou o iniciante num estágio de delirante solidão, – o mais perfeito dos contrapontos não deixa de ser a carta do Ermitão, ainda que, de alguma forma, cada lâmina demonstre a necessidade de escolhas solitárias; – por outro lado, por menos que se tenha a representação clara e óbvia de uma figura masculina e telúrica que estabelecesse uma transição, uma gradação ou até mesmo uma equivalência entre uma coisa e outra, a analogia valeria também para a vizinhança estabelecida entre a carta do Louco e a do Mundo: num lance de sorte o Louco já conclui sua jornada, e logo as coisas estabelecem o seu equilíbrio, os elementos místicos da Roda da Fortuna se encontram nos seus pontos de partida, a harmonia foi conquistada, e algo como a mais serena razão impera; ou, pelo contrário, um princípio harmonioso que poderia ameaçar a inação e a imobilidade é quebrado por uma força irracional que faz com que se busque um novo sentido, ainda que para isso fosse necessário que se saísse de uma idade madura e que se retornasse a uma era infantil, sem passar por uma fase de reconstrução, como a sinalizada pela Morte, mas algo que se encontrasse mais claramente entre o Diabo e o Enforcado. E nessa leitura circular o Louco, estipulando um ponto de chegada e partida que se permutam, além de confundir os signos, ainda esconde o profundo significado do centro vazio do círculo, que parece indicar uma carta ausente, que não foi criada, ou que em algum ponto, por prudência, por crueldade ou por descuido, acabou perdida e destruída, não como se uma contagem superasse dois números zero, mas como se um número zero desse conta de que a contagem se encerrava ou se iniciava, e o segundo pusesse termo a todas as contagens.) É preciso que o indivíduo e as populações se mantenham às margens do deserto; é aí que é possível a sobrevivência e o florescimento das civilizações; o deserto em si, seu coração, as beiras mais próximas do seu centro inalcançável e impossível, são o signo do degredo, onde os condenados, os fugitivos e aqueles que se perdem morrem sem que seus corpos sejam encontrados, senão por outros que terão o seu mesmo destino. Os que buscam o caminho da morte porque chegou o seu tempo também trilham um caminho semelhante, ou buscam em vão esse caminho, quando as últimas saídas, o fim das estradas, se encontra interditado. Grandes animais que pressentem a chegada do seu momento final, porque mantiveram sentidos que os seres humanos perderam, vão para longe do bando e afastam qualquer outro membro que queria seguir uma jornada que são jovens demais para entender. Podemos pensar: não é atrás da morte que vão, ainda que saibam sim que vão morrer, mas justamente de algo que apenas a proximidade da morte permitiria ver, ou mesmo paradoxalmente a própria morte, que ao matar o corpo torna impossível a visão. A mais perfeita visão do centro do deserto. – E houve profetas que só sabiam viver entre o centro e a margem: era apenas nas margens que podiam encontrar gente que pudesse ouvir o que tinham a dizer, por menos que se dispusesse a isso; mas era sempre o centro do deserto e a visão daquilo que ninguém sobrevivia para testemunhar o que tentava. Mas é a descoberta o ato de mostrar aos demais o que jamais foi mostrado ou o fato puro de sozinho ver o que jamais foi visto e guardar essa visão para si? Um pequeno dilema artístico, eu diria, e uma grande questão moral que deve ter atormentado todos os exploradores da Antártida e da Austrália.

LXIII
Uma dificuldade técnica inicial tornou o cinema uma arte narrativa revolucionária. O cinema era mudo. É certo que letreiros poderiam cobrir brechas narrativas e explicar o que podia não ficar claro apenas pelas imagens, mas seu uso devia ser necessariamente parcimonioso. O cinema rompia com a linguagem falada, de qualquer modo, e não trazia mais que resquícios da linguagem escrita, por medo ou por pudor, mas mesmo a letra reproduzida se tornava uma espécie de imagem que compunha o filme. A narrativa rompia com a linguagem articulada humana, mas não a negação, pois nem era necessária a negação. Mas não fazem também isso as imagens paradas? Talvez, mas lhes pesa a desvantagem de que são imóveis: não podem fugir nem se furtar das palavras que antecedem.

LXIV
Diz-se nos diálogos de Platão que o político ideal é a perfeita fusão entre a criatura que reflete e a criatura que age. Noutro ponto dos diálogos, se é mesmo nos diálogos, se diz que o mais ideal dos governantes seria aquele que não desejasse governar, pois seria o único que saberia o que isso significa. Por que não ir um pouco além e construir uma tirania às avessas na qual a maioria, pelo seu próprio bem e pela sua manutenção e sobrevivência massacrasse constantemente o indivíduo que escolhesse para governar por todos? Seria o mais completo dos párias, condenado a ter sempre de tomar as melhores decisões na esperança ilusória de ter algum minuto de sossego, pois é sempre julgado e condenado por cada malogro, enquanto os seus acertos não são considerados senão como coisa obrigatória; mas nunca há consenso sobre os seus acertos, e ainda que vá tudo bem o governante está sempre cercado de acusadores incansáveis. O governante é, aliás, vigiado o tempo todo não apenas pela manutenção da sua moral, mas para que mantenha a própria vida, para que não cometa suicídio, para que nem sequer se entorpeça. E a única promessa que lhe fazem é que seu mandato não será renovado caso o povo encontre um certo período de felicidade, depois do qual o governante que tiver cumprido suas obrigações será devidamente enxotado, escorraçado, largado na sarjeta para desfrutar da miséria e do esquecimento que tanto deseja. O que acontece é que os ruins são mantidos no poder para que aprendam à força das humilhações; os bons são mantidos no poder porque não faz sentido que deponham um governante tão bom, mas nunca houve, aliás, um governante que fosse perfeitamente bom, logo, cada um precisou passar pelo seu quinhão de humilhações enquanto viveu, pois só a morte libertou cada um dos governantes do suplício de governar, e ao menos lhes deram a dignidade de uma cova rasa e um enterro de indigente. Mas às vezes, claro, alguns raros descobrem onde foram enterrados. E vão escarrar nas suas tumbas.

LXV
Não é inteligente que o sofrimento seja a base da sabedoria. Mas quem buscaria ser sábio se o corpo não sofresse nem sentisse faltas? Quem ia querer saber o que quer que fosse se não houvesse a morte e suas calmas urgências? O amor, por exemplo, que não mata, porque não é fome de comida nem sede de bebida, mas ainda faz sentir que falta alguma coisa como a hidratação e a nutrição, quando não faz sentir que falta o próprio ar; o amor não é mesmo arte nem ciência, já não é nem ao menos uma coisa que se veja, algo que se ponha no prato e que se sirva ao faminto, algo que se ponha na taça e se sirva ao sedento, nem algo que mesmo que não se veja se sente como coisa presente, feito o ar que preenche os espaços vazios dentro de uma atmosfera. E ainda assim é uma das coisas que lembra que não sabemos, e não saber não liberta de sofrer: a ignorância pode ser mesmo a causa e a origem. – É isso que torna, pelo avesso, o sofrimento a escola às avessas do que não pode ser propriamente ensinado, e é isso que faz o pensador e o poeta, desde que o seu sofrimento não seja apenas o seu sofrimento (é preciso que através de um pequeno corpo humano limitado tenhamos a ilusão de que nele todas as coisas morrem e de que todas as coisas vivem). Não se pode no final, redimir a dor: a dor não tem perdão e ela mesma não perdoa, mas seria um desperdício que dela nada se gerasse, por isso ainda é pouco inteligente que a sabedoria se baseie no sofrimento, mas não se pode fazer do sofrimento uma outra coisa. – E no final as próprias dores, como dores que são, apenas doem. – O amor pode ser que vá um pouco mais longe, ou somos nós que esperamos que ele diga mais do que diz e ofereça mais do que oferece. Quando pode ser que o próprio amor nem diga nem ofereça nada.

LXVI
O artista, feito o santo, deve amar o seu semelhante sem poder amar o semelhante; ou o artista, feito o santo, pode amar o seu semelhante, mas não deve. Pode ser também que o artista não ame o seu semelhante nem a si mesmo, e que os santos não passem de invenção.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.