O ESPECTRO ENTEDIADO DO MUNDO SEM TETO: A OBRA DE EDUARDO FRANCELINO, ATÉ AGORA (X)

LIII
Tomemos o exemplo da Bachiana número 4. De que se trata o exemplo? Pois bem: trata-se de uma exemplaridade em si que nem sequer precisa ser previamente explicada. Ouçam, meninos e meninas. E depois mais uma vez, meninos e meninas, ouçam. Parem mesmo a leitura nesse ponto exato: qualquer coisa que eu disser a partir daqui valerá menos do que a audição da peça musical em si. Haverá a impressão, natural, de que ela se dobra em duas, como se se espelhasse a si mesma nos mínimos detalhes: pois não: ela se espelharia se o movimento fosse quádruplo, o que me lembra uma segunda dica: depois que a peça é ouvida pela primeira e pela segunda vez, uma terceira. Por quê? A audição em si explicará; se não explicar hoje explicará amanhã ou depois; se não explicar em momento algum nenhuma palavra que eu diga terá o efeito. Qual efeito? Bem, sejamos diante dos sons totalmente virgens, inocentes, mas não crianças que nada sabem: durante décadas fomos educados através de imagens e conceitos abstratos; os sons se resumiam à onomatopeia de todas as coisas e às palavras faladas, burocráticas, monótonas, meramente informativas. Os professores não sabem o que é a música, ou não podem dizer do que se trata; os antigos instrumentos musicais são apresentados de modo constrangedor como antigas armas já sem serventia, e as crianças são instruídas a não se aproximarem pelo risco de que se machuquem. Um dia, como num ritual de iniciação, os mais velhos escolhem um membro aleatório da comunidade e sem dizer a mais ninguém o conduzem às zonas de mato dos arredores do burgo, onde também dizem que as crianças também não podem brincar. Pouco dizem ao jovem escolhido, porque eles mesmos não sabem de que tratam as provações de que não viram nunca que ninguém voltasse. Tudo que fazem é expressar o seu amor e piedade coletiva ao pequeno desconhecido: conduzem-no ao Vale da Cegueira, que nem os mais velhos sabem porque se chama assim, mas sabem o importante, sabem por que conduzem periodicamente alguns poucos jovens a quem dedicam no caminho toda a atenção paterna e materna que uma criança merece durante toda uma vida, e se reservam a não saber nunca o nome de quem conduzem. É dizem: “Nada viste nas imagens; nada nas palavras escritas. Aprende, então, com o avesso do que é nosso”. E dizem que o jovem entre na caverna de que nunca ouviu falar, mas que desde que vê sente que conhece como se sempre tivessem lhe falado dela, pois era o assunto de que não falavam na frente das crianças e tinha que ver com parentes que nunca sabíamos se tinham sido de verdade, nem por que era tão chorosa era a sua lembrança, assim como não se sabia por que, vindos não sabíamos de onde, os mais velhos convidavam o coletivo a chorar durante as horas da noite, e quando era perto de o dia amanhecer, da mesma forma que tinham chorado, todos riam, e dizia um dos mais velhos: “Estamos todos esquecidos”. Menino ou menina ouvinte desta fábula, és agora a criança conduzida a esses confins, e vais saber o que não sabem nem os mais velhos da comunidade. Pois eis que os sons te conduzem numa suspensão que não compreendes; aliás, pensarás que era natural que as palavras vivessem em sequência e exigissem algum esforço da memória, bem cruel, pois é preciso a prévia lembrança das palavras anteriores e da ordem em que surgiram, do mesmo modo quanto aos menores fragmentos sonoros das palavras. Pois os sons aparecem numa sequência que semelha a dos movimentos: sons são como coisas que partem de um ponto e chegam a outro e cuja rota pode ser traçada, mas não podem ser tocados nem vistos, os sons. Suspendem-te? Mas teus pés ainda tocam o chão. Fazem bater o coração e vibram o peito quase feito o calor? Mas o coração permanece fechado na caixa, por mais que bata além do próprio sentido. É o deus da morte o mais delicado? Quem diria que não fosse um disfarce e que de fato fosse ele tão gentil: tem quase a solidariedade das coisas vivas que chamamos gente, das coisas que se finam e sabem disso. Sim: o pequeno deus tímido tornou quase viável a jornada; sabes ao menos que não dá para escapar e que sofrer pouco adianta; então buscas na morte uma dignidade que acreditas bela, mas que também de nada adianta. Nem há ao lado um deus. Havia a música que te conduzia pelo fluxo de um túnel que levava numa única direção. Um mundo confuso em que reinassem todas as dimensões da coisa humana. Diriam os velhos se desconfiassem de algo que sempre puderam saber: não a morte, mas um excesso de felicidade faz que os passos não retornem, mas foi só uma inocência que se perdeu e tornou de novo impossível voltar para um lugar que já não existe.

LIV
Ele vai oferecer todas as vantagens e dizem que de fato cumpre todas as promessas; mas o diabo nunca joga para perder nem nunca entra numa posta sem saber que já tinha a vantagem. Fez isso apenas uma vez, e ainda nos perguntamos o que é que, de verdade, ele queria.

LV
Uma gramática é uma série de estruturas que torna possíveis os enunciados e que ordena suas potencialidades? Apenas essa coisa que se faz com palavras que servissem meramente como instrumentos e tanto melhor quanto mais se soubesse que eram instrumentos e nada mais? A gramática, a mais verdadeira, se se pode dizer isso de uma gramática e dessa sobretudo (quando se acabar toda a humanidade ela se diluirá como um dos segredos melhor compartilhados, e nem todos os registros linguísticos darão conta de um resgate), a que jamais poderá ser escrita, sempre é algo que só conseguimos enxergar como um parâmetro de ligação entre as palavras, quando pode não ser mais do que o reflexo de ramificações anteriores, e ainda assim de uma ordenação intelectual das coisas, convencional, baseada nos acordos tácitos: achamo-nos maiores e muito conscientes das nossas próprias mentiras quando dizemos, muito sábios junto com a linguística, que a palavra cachorro não morde (e podemos estender à relação do que pensamos e sabemos, do que sabemos pensar e pensamos saber, ou sabemos saber e pensamos pensar, ainda, sobre o dinheiro e Deus, o amor e o desejo sexual: uma imensa lista de coisas de potencial bastante vexatório e que sempre sonhamos controlar). Sabemos e entendemos muito fácil que a palavra cachorro não late. O que nunca conseguimos é olhar para um pobre animal canino sem sentir tudo que sentimos em relação aos cães, todas as decisões humanas que tomamos em relação a eles, ainda que à mente não venha uma única palavra. Uma gramática que estivesse antes das etiquetas das coisas.

LVI
Tomemos o exemplo de qualquer objeto ou coisa ou paisagem que possa ser visto, como anteriormente, quando se dizia da música, o exemplo poderia ser o de qualquer outra coisa indistinta: cães que latissem sem que se pudesse saber se de onde vinha o seu latido porque estava tudo escuro, os grilos que se ocultassem num mínimo de mato ou numa rachadura de parede, cigarras que se ocultassem na sua própria multidão imensa. Coisas em que sempre será doloroso pensar, porque coisas de ouvir não é possível que não lembrem o ouvido que não ouve e no qual eu já nem pensava. Penso: o ouvido esquerdo além dos seus zumbidos internos nada ouve. Mas tomemos um exemplo. O Tiradentes Esquartejado do Pedro Américo. Mas no país os olhos quase são como os olhos dos animais. Não existem fotografias nem pinturas nem retratos. Não se pinta pele nem se tatua. Um dia houve um alfabeto, mas com o tempo esqueceram o que eram os grafemas. E tudo se resumia a um banquete ininterrupto e a uma bebedeira eterna; os músicos se revezam constantemente; a gente aprendeu a dormir pelo cansaço. As grandes criaturas da moda, com suas roupas muito coloridas, mas de cores diferentes das que tingiam as roupas da estação anterior, criaturas que se diziam as flores vivas e que ninguém antes tinha dito isso de si, como na verdade acontecia todas as estações e ninguém lembrava; as grandes criaturas da moda chegaram ao pequeno ser do silêncio e lhe disseram que não compreendiam o seu silêncio, e que um silêncio que destoa de tudo é como um apocalipse de mil sinos que desabassem, os sinos de mil quilos do desejo, que não ficavam nas torres de desejo da Grande Catedral do Desejo, porque não existiam nem os sinos nem as torres e nem a catedral, o que era uma pena. Mas o pequeno ser do silêncio, que apenas não tocava instrumentos e não cantava, que não se embriagava e não sabia dançar, que na verdade nem fazia a menor ideia do que fazia ali, mas também não conseguia pensar em outro lugar aonde pudesse ir; o pequeno ser do silêncio, com o seu silêncio, ainda assim muito incomodava, e por isso as criaturas da moda conduziram a pequena criatura do silêncio para a chamada Galeria Surda, de onde não sabiam de ninguém que tivesse voltado, e à qual eventualmente levavam pessoas por alguma razão que nem sempre sabiam explicar e que também ninguém lembrava. O pequenino ser silencioso também foi um que não voltou de lá. Dizem que encontrou o quadro do Pedro Américo e, arrebatado de horror, não conseguia parar de olhar a tela; diziam também que apesar da tentação de nunca parar de olhar a anunciação de horrores tão esplêndidos fez que prosseguisse o caminho e que de fato ao fim do corredor encontrou um mundo tão real que ficava até aquém dos horrores tão grandes que esperava e imaginava. Também diziam que a Galeria Surda não conduzia a lugar nenhum e que, como não há comida, lá as pessoas morrem de fome. Outras hipóteses não houve: as grandes criaturas da moda empenharam o povo todo na construção dos mil sinos do desejo, cada um pesando uma tonelada, que seriam instalados nas mil torres do desejo da Grande Catedral do Desejo, sendo que tudo isso estava por construir e todos se empolgaram. Até que mudou a estação, mudaram as cores e já não eram as mesmas as grandes criaturas da moda. Tudo que conseguiram construir foi um sino, que ficou suspenso entre travas de madeira, bem perto do chão, sem que ninguém já soubesse ao certo por que tinha sido construído. Como não sabiam também quem eram o Pedro Américo e o Tiradentes de que sempre falavam quando alguém era conduzido à Galeria Surda, nunca se sabia ao certo por que razões.

LVII
Pequenas escolas do horror e do terror, escolas que por menor que fossem sustentassem sua respeitabilidade no peso do nome da franquia. Escolas estatísticas que fossem estatísticas bem além do número: tornar o horror e o terror até mesmo do indivíduo uma coisa mensurável, num avesso de solidão que mais humilha: o que torna compreensível o que eu vejo e sinto é uma compreensão do que eu vejo e sinto que supera a carne e o olho, pois se sustenta —na sua gramática. Uma estética fria, formal, de dores até então ignoradas. Ignorarei eu mesmo, superior, os próprios sofrimentos que eu tiver e forem dessa natureza: construirei a mais inusitada máquina de vingança.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.