O DEUS QUE ESTÁ INCRUSTADO EM BOLSONARO. Por Uribam Xavier.

O discurso de posse do presidente Bolsonaro foi vazio de proposta para o bem estar e o futuro do país, mas esclarecedor da sua ideologia política e da sua doutrina religiosa. Bolsonaro inaugura um modelo de governo ideológico fundamentado numa doutrina de combate a um modelo de sociedade baseado na distribuição de renda e riqueza que, só na cabeça dele e de seus ideólogos, teria como representante o PT. Todavia, como ele não tem coragem de dizer abertamente que é contra uma sociedade capitalista de modelo Keynesiano, faz o discurso mais fácil, e, para o qual, o próprio PT deu farto combustível: como a prática de corrupção, a manutenção conservadora no fazer político e a não prioridade de algumas agendas. O discurso do Bolsonaro é simplista mais tem se mostrado eficiente para manipular um conjunto de eleitor que não pensa a vida a partir da política, mas a partir de suas necessidades e medos: a crise econômica vivida pelo país é fruto exclusivo da corrupção praticada pelo PT; a violência na sociedade é fruto da incompetência dos governos de esquerdas e de sua política de diretos humanos que significa defender bandidos; a crise moral é alimentada pelos grupos feministas, homossexuais que não valorizam a família cristã e pelos sem teto e sem terra, que não respeitam a propriedade privada, e dos índios e quilombolas, que são preguiçosos e ocupam grandes quantidades de terras mantendo-as improdutivas.

A ideologia e doutrina do governo Bolsonaro, que antes mesmo de assumir já vinha mostrando suas contradições, diante das suas fragilidades e desmantelamento de seus simulacros, vai tentar manter o governo no poder tentado alimentar o medo numa suposta volta dos petistas ao poder, com a ideia conservadora e fascista do combate a ideologia de gênero e perseguindo qualquer pensamento diferente do seu, como é o objetivo da proposta da “escola sem partido”, que é uma proposta para instrumentalizar as escolas com um pensamento único totalitário.

Para confundir seus seguidores: religiosos neopentecostais, os atravessados pelo medo da violência e os tocados de forma moralista pelo discurso da corrupção, Bolsonaro defende sua doutrina totalitária com o nome de democracia. Fissurado em impor seu projeto teocrático e totalitário, mas não tendo conhecimento de economia e nem em processo de desenvolvimento, ele se submeteu a vontade dos mercados: financeiro, agronegócio e dos meios de comunicação. Do mercado dos meios de comunicação ele tem o silêncio sobre os seus atos de corrupção envolvendo seus familiares e assessores e sobre a sua visão fascista. É explicito o apoio e conivência dos comentaristas políticos das TVs, Rádios e Jornais impressos. Na TV Globo News, por exemplo, os comentaristas sempre que divulgam algo negativo praticado pela família de Bolsonaro e dos seus indicados para ocupar cargos públicos são macios nos comentários ou tratam como fatos irrelevantes argumentado que o PT também fez o mesmo quando estava no poder, defendem que o mercado espera pelas reformas, que mesmo sendo impopulares, são necessárias para o país [mercado], o contra-argumento nunca é apresentado.

Declarações assustadoras e que colocam em risco a vida democrática do país foram proferidas por Bolsonaro sem que nem sequer tenha sido divulgado pelo mercado dos meios de comunicações. Na transmissão do cargo de ministro da Defesa, Bolsonaro, dirigindo-se ao Comandante do Exército, disse: “Vou levar para o túmulo o que acordamos e acertamos em nossas conversas. Se eu estou aqui hoje é devido ao senhor”. Isso não é grave? Não merece explicação aos eleitores e as instituições públicas como o Congresso Nacional? O STF não deveria solicitar explicações? No discurso, Jair Bolsonaro começou agradecendo de forma especial o comandante do exército, General Eduardo Vilas Boas: “Não precisava falar, mas hierarquia, disciplina e respeito é que fará do Brasil uma grande nação… Meu muito obrigado, comandante Vilas Boas.”.

O governo de Bolsonaro é a expressão da colonialidade do poder, do uso da ciência e da tecnologia como ideologia de dominação, no sentido de Habermas. É um governo conservador cujo pensamento científico e crítico, voltado para compreensão do ser humano como um ser aberto que se faz na história, que não tem o seu ser definido por natureza, mas que se torna sujeito de si ao transforma seus espaços sociais, ao definir em cada momento da história a sua opção sexual, seu modo de vida e suas relações com a natureza, com os outros e com o sagrado, é negado em detrimento de sua ideologia e doutrina religiosa neopentecostal e de sua formação militar protofascista.

Apelando sempre para o nome de Deus, Bolsonaro esconde que na sociedade capitalista Deus é o mercado. Assim, parte da sociedade brasileira, por sua formação profundamente religiosa, deixa-se enganar pelo discurso totalitário travestido de doutrina religiosa. Todavia, quando acontecer um confronto do verdadeiro Deus da sociedade capitalista, o Mercado, e o governo Bolsonaro, será o início do fim do governo ideológico e doutrinário. Com ou sem o governo Bolsonaro, a conta pesada vai ser creditada no cartão de espoliação dos miseráveis, dos pobres e de parte da classe média. É o preço a ser pago pela ingenuidade, pelo pecado social dos que votaram em Bolsonaro, pelo vacilo e incompetência do campo chamado de centro-esquerda.

Em Bolsonaro estão incrustados dois deuses: um imaginário, sua doutrina teocrática e totalitária, e o outro, material, o mercado capitalista. O Deus Mercado não perdoa os que não sabem o que fazem, os que não têm condições de se virarem sozinhos, os que não se corrompem num processo violento de competição na guerra de todos contra todos. O Deus Mercado é essa coisa voraz em que apenas 1% da população mundial acumula o montante de 99% de todas as riquezas produzidas socialmente no planeta e que condena, por meio de reformas trabalhistas, reformas da previdência, privatizações, redução de direitos, sucateamento das políticas públicas, trabalho escravo e uso tecnológico aplicado à produção e ao estimulo de consumo supérfluo, 99% da população do planeta a viver com apenas 1% da riqueza produzida socialmente. Uma coisa é certa, Bolsonaro é homofóbico, misógino, racista e mentiroso, mas o mote da sua campanha e do seu governo é verdadeiro: “O país acima de tudo. Deus acima de Todos.” O Deus Mercado sorrir, mas não tem céu para oferecer, nem salvação, nem recompensa para o país e nem para os 80% da população brasileira que ganham entre zero até três salários mínimos.

Uribam Xavier

Uribam Xavier

Graduado em Filosofa Política e Doutor em Sociologia, professor da área de Ciência Política do Departamento de Ciências Sociais. Autor do Livro “O Capital e a Política”, editora Livro Novo, São Paulo, 2012.

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