O desfile das telas – RENATO ANGELO

Havia um menino. Vivia a era de um regime militar moribundo. Ele testemunhava o hasteamento da bandeira brasileira antes das aulas. Aprendeu a dizer na escola o nome do presidente da república… aquele que preferia o cheiro dos cavalos ao do povo.

Sua diversão era, na maioria das vezes, brinquedos em casa, pequenas saídas em família, ou programas insossos de televisão. Embora preferisse o mundo mágico das brincadeiras infantis à estética televisiva, esta já o havia condicionado. A TV era como um hábito, que começara tímido e cheio de estranhamento, porém, o educava a ficar horas face a uma pequena tela brilhante. Tendo sido criado o vício pelo televoyeurismo moderno, o hábito do cinema era só uma questão de tempo.

Havia um menino o qual fez da telinha para a tela grande uma transição natural… Suas primeiras incursões no mundo da tão comentada sétima arte nascia ainda pela curiosidade criada por meio da televisão. O menino se encantava com as matinês televisivas do “gordo e o magro” e com o arquetípico humor do homem com chapéu coco e bengala, um adorável vagabundo.  Entretanto, eram as aventuras Harold Lloyd aquelas que mais o divertiam, gerando profunda empatia. Os óculos tartaruga, o rosto pálido, o chapéu palheta, o terno, a gravata, o colete com relógio de algibeira… O “homem mosca” pendurado no relógio de um arranha-céu, tendo a cidade moderna dos anos vinte como testemunha… Era a metáfora perfeita da vida… Sempre uma busca da sobrevivência em meio aos perigos, como também sentimentos de inadequação ao frenético da urbanização.

A despeito de todos os filmes vistos ainda na televisão, o menino percebia que o veículo original não era o mesmo. Seriam as icônicas imagens em preto e branco ou o ritmo das cenas – levemente aceleradas – que o delatavam não ser televisão? Não importava… aquilo era outra coisa. O meio imediato era TV, mas havia algo na linguagem, na temática que evocavam uma outra origem, um diferente zeitgeist.

De onde vinham as imagens de que tanto gostava? Qual era sua fonte primordial? Para pôr fim ao questionamento – ou talvez só pela novidade de que também precisavam – os pais do menino o levaram para o sacrifício ritual de seu mistério particular. Dentro de um carro, ouvindo o som pelo rádio – outro estranhamento/encantamento/divertimento – uma tela enorme, como nunca antes o menino vira, despejava luzes gentilmente esculpidas na forma de imagem em seu cérebro e coração. Era o cinema drive-in da avenida Pontes Vieira, na capital cearense. O êxtase do menino nem sequer se abalava quando ele não conseguia ler as legendas… aquela experiência o levava muito além da tela pequena. Ali dragões em desenho animado interagiam com seres humanos, fuscas ganhavam vida e só faltavam falar, homens de máscara preta, qual samurais futuristas, lutavam com katanas de luzes coloridas… era irresistível, convenhamos.

Havia um menino que conhecera o cinema de dentro de um carro… agora faltava conhecê-lo propriamente. Assim foi feito. Chegando de ônibus na Praça do Ferreira, no centro da cidade, ele viu filas enormes a dar voltas no maior cine da capital. Não havia carros… as pessoas sentariam em cadeiras dessa vez. Fossem todas aquelas pessoas da fila entrar com automóveis, hein? Nada feito… Preparava-se uma experiência mais direta que as anteriores.

A fachada do cine São Luiz não prometia muito. Sua estrutura, a despeito da altura, não destoava tanto assim dos demais prédios ao redor. Era uma grande Fênix, isso sim,  nascida do ocaso do cine Politheama, testemunha anacrônica da arte muda… imagens escritas com luz, mas sem dizer palavra alguma. A incursão em seu interior, entretanto, marcou o menino para sempre. Era como se aquele palácio – uma espécie de Titanic não naufragado – fosse parte intencional do espetáculo das telas. Tudo era solene à criança vinda de experiências fast food tipo drive in. Escadarias e chão polido, corrimãos como que feitos de ouro puro, cortinas de suntuoso veludo escarlate (deem um pouco de desconto, é uma criança imaginando) e, sim, aquele lustre! Cinema era aquilo.

O vestíbulo dos sonhos cinematográficos contava com uma chique venda de confeitos. Ao hálito do menino – já ardido por causa do mentex – somava-se a fria respiração do ar condicionado. Era o interior da coisa. Um templo com dois andares de majestosas poltronas com cheiro de mistério. O menino viu um cearense e seus amigos fazerem trapalhadas recontando de forma estranha o clássico de Dumas, monstrinhos verdes destruindo natais, homens viajando no tempo dentro de carros. É que o menino não possuía senso estético. Quando não subprodutos do cinema nacional, ele via lixo hipnótico efluído do império. Nem em sonhos o menino vira Glauber e os frêmitos cinemanovistas… Tampouco sabia das chanchadas da Vera Cruz ou Atlântida que, à época do menino, já estavam submersas no oceano cultural. O menino também não tinha idade para saber que em um dos períodos mais autoritários do seu país – estranhamente ou não –, o cinema nacional produzira pornografia em profusão… signo de nossa curiosa censura. Ah! Tão distantes os exitosos dias em Cannes…

Havia um menino que viu o país desfilar pela telona. Sorriu com o pobre entretenimento infantil. Testemunhou a morte do cinema em seu país no período da “caça aos marajás”. Já jovem, viu a indústria ressurgir através de uma divertida paródia da família real portuguesa. – Ai meu Brasil! Sempre tiveste vocação para Colônia! Viu também a experiência guerrilheira de Gabeira, órfãos na Central do Brasil e grandes bailes perfumados colorindo o nordeste. Testemunhou ainda toda uma gama de filmes com relatos crus da violência carcerária e crimes variados – os do Estado e os nascidos da injustiça por ele criados – nossa exótica contribuição para o mundo, que se assusta cinicamente com a miséria que ele próprio ajudou a criar.

Estamos no final da sessão! O país desse menino parece sempre pedir concessão para ser grande. Parece precisar de aval estrangeiro para dar crédito a sua própria produção e seus próprios artista e povo. É assim… o menino resiste, um pouco mais velho, mas sim… E, atônito, observa novas investidas contra a indústria nacional do cinema. A autossabotagem agora, como uma espécie de pudor de ser grande e saudade de ser capacho imperial, nos faz lamber as botas de hollywood abrindo nossas salas, irrestritamente, a um desfile de toscos heróis autoproclamados. O “menino” assiste a um país que fecha as portas ao cinema independente seja ele negro, quilombola, periférico, indígena, “paraíba” etc. O pouco que sobra das salas ele vê serem tomadas por pantomimas de baixo nível distribuídas por produtoras laranja do mesmo império… ah! Sim! Sempre eles! Tudo isso sob novo consentimento da sombra ignóbil de estranhas bíblias e fuzis. Acabou a sessão! Bem-vindos à era do ultracinismo vira-lata entreguista.

Havia um menino. Havia um cinema. Havia um país.

p.s.: mas o povo desta nação, que sabe seu lugar, há de resistir. Merecemos mais.

Renato Angelo

Mestre em políticas públicas, professor universitário, pesquisador, poeta e contista

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