O Cisne Negro, por Osvaldo Euclides

Os cientistas políticos e os sociólogos, de braços com os historiadores, cada um com suas próprias palavras, costumam dizer que a polícia e a justiça são braços operacionais da elite na manutenção e no exercício de seu poder. Cada uma no seu contexto e conforme as circunstâncias assim o exijam, são convocadas e usadas para isolar os que incomodam ou restabelecer a “ordem”, a ordem que não deve mudar, sequer deve ser ameaçada, posto que essa ordem permitiria o progresso e garantiria a hierarquia na pirâmide social. Naturalmente, tanto uma quanto a outra agem no espaço amplo da letra da lei e da sua interpretação. O juiz e o policial são elementos centrais da estabilidade, em todos os sentidos. A polícia tem o monopólio das armas e da violência, sob a proteção do Estado. E o juiz se coloca acima de todos para julgar seus iguais, diz a lei.

Fora do campo do Estado, no espaço mais ou menos livre do mercado, outra instituição também atua regularmente afinada com essa ordem, na busca e manutenção dessa estabilidade, também  como braços de operação, mas, não raro, sendo protagonista   dessa elite. Trata-se da imprensa. O controle da informação é vital para os negócios da política e do dinheiro, mas não fica bem sob a forma de monopólio, e alguma concorrência é conveniente. Eventuais inconvenientes das disputas localizadas e circunstanciais são mais que compensados pelos ganhos de imagem. Assim, pode-se falar em liberdade, diversidade, democracia etcétera. Em qualquer lugar o poder de imprensa é partilhado por poucos, trata-se de um clube fechado – nele quase ninguém entra, quase ninguém sai.

Justiça e informação são essenciais para toda a sociedade. O poder sobre estes dois elementos é de ordem prática. Mas ele precisa de legitimidade para ser exercido. Um grau mínimo de confiança é necessário, indispensável. O que permite aos empresários da informação uma vida especialmente longa de suas empresas é a sensibilidade para bem administrar os limites da edição da informação e da opinião. Na mesma toada, o que permite que a Justiça se faça de homens sobre homens é o grau de certeza de que a lei está sendo respeitada, que ainda se pode acreditar que ela é igual para todos.

Qual é o ponto exato desse limite (o limite em que a informação e a lei podem ser ou são relativizadas para acomodar interesses) é a questão que se coloca em momentos delicados, em circunstâncias de crise aguda que ameaçam fazer desmoronar o castelo da confiança, dos princípios e valores que funcionam como uma espécie de cimento da paz social, a impedir a explosão de impulsos de quem quer que seja, de onde quer que partam. Sim, pois a quebra da ordem e da estabilidade dá prejuízo e desorganiza a hegemonia.

A crise é dita parceira do novo. E não raro se diz que o povo quer mudanças. Como assim, o povo quer mudanças? Ora, o povo não faz discursos, não apresenta projetos e não escreve propostas e planos. E toda mudança é uma ameaça real ou potencial à ideia de ordem e de estabilidade do poder mais tradicional. Mas, mesmo após qualquer mudança, é sempre o povo quem chega atrasado e dela menos se beneficia. Parece contraditório? Parece paradoxal? Pois é. Não se trata de ser contra ou a favor de mudança, trata-se de entender qual a mudança.

A ordem e a estabilidade, a quem as duas mais interessam?

O Brasil entrou numa crise que caminha para ficar aguda. E isso se indica pela completa incerteza, pela absoluta imprevisibilidade, pela desorganização que se enraíza e se aprofunda. Os prejuízos sociais, econômicos e políticos já são imensos.

Na imprensa e na justiça, nos dias recentes, aconteceu uma espécie de Cisne Negro. Aquele evento totalmente fora do radar que entra e atropela a realidade, modifica completamente essa realidade e que só o desdobramento da (nova) realidade o explicará, como mais ou menos propõe Nicholas Taleb.

São raros os cisnes negros. Seria prudente que a imprensa e a justiça o usassem como uma porta de saída para evitar o que vem depois do agudo da crise.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides

Economista e Professor Universitário.

Mais do autor

1 comentário