O cineasta do amor, por ALDER TEIXEIRA

Com a morte de Domingos Oliveira, sábado 23, perde o Brasil um dos seus maiores talentos do teatro e do cinema. Ainda que desconhecido do que se convencionou chamar de grande público, Domingos Oliveira figura entre os nossos melhores diretores, quer no palco, quer no cinema, espaços em que se notabilizaria também como ator de elevado senso estético.

Do conjunto da obra, por certo, destaca-se Todas as mulheres do mundo(1966), cuja tessitura dramática revela uma das marcas de sua arte voltada para as grandes indagações acerca do amor, em que mergulha nos conflitos existenciais de um casal como um Bergman dos trópicos, sensível, poético, preciso no trato da linguagem no nível em que poucos cineastas brasileiros conseguiriam ser.

Todas as mulheres do mundo, plasmado no texto teatral com que Domingos Oliveira fizera a sua estreia nos palcos do Rio, trazia no elenco uma das mulheres mais encantadoras do país, Leila Diniz, já então ex-mulher do diretor, que se tornaria uma atriz de prestígio e uma personalidade incontornável na vida da cidade e do país, pelo brilho de sua beleza e irreverência do seu comportamento. Para não falar de gente como Paulo José, Fauzi Arap e Flávio Migliaccio, a compor um elenco extremamente bem conduzido pela direção notável de Oliveira, certeiro na escolha de cada plano, no enquadramento não raro estilizado e na movimentação poética da câmera, quando suave ou intencionalmente nervosa.

Mas nem tudo foi sucesso na carreira de Domingos Oliveira, por vezes incompreendido na construção dos roteiros e na escolha das estratégias narrativas de alguns dos seus filmes mais criticados, bem na linha do que ocorreria com Edu coração de ouro (1968), para muitos um remake do aclamado filme de estreia.

Na obtusidade de seus critérios, a crítica condenava em Domingos Oliveira o que aplaudia em cineastas, como ele, fiéis a uma percepção de mundo mais atenta às profundezas da alma e aos grandes conflitos da existência, bem ao estilo de um Michelangelo Antonioni ou de um Ingmar Bergman.

É quando viria A Culpa (1971), notável pela fotografia de Rogério Noel e pelo inusitado da trama: dono de uma construtora é assassinado pelo filho e um amigo, que passam a morar juntos devastados pelo sentimento de culpa e arrependimento. Na sequência, Amores (1998), produção de baixíssimo custo, mas nem por isso desprovida do rigor estético com que Domingos Oliveira assinaria o seu cinema assumidamente autoral, mesmo que nos limites de uma cinematografia em crise, com o fechamento da Embrafilme e com leis de incentivo que beiravam o ridículo no contexto do que se dizia o renascimento do cinema brasileiro.

Voltava Domingos Oliveira, agora apoiado pela mulher e atriz Priscilla Rozembaum, que também passaria a dividir com ele a escrita dos roteiros, à sondagem psicológica de personagens invariavelmente esféricas, na perspectiva do que tantas vezes se define como cinema metafísico ou existencial.

Por uma dessas coincidências que só fazem crescer a admiração e a curiosidade que nutrimos pelos grandes artistas, morre Domingos Oliveira quando leio, ainda por terminar, Vida minha, sua autobiografia, só recentemente à venda nas livrarias da cidade. Talhado no estilo a um tempo simples e elegante, no jeito inconfundível de contar a vida, revelando aqui e além o caráter doce e sedutor que foi mesmo a sua melhor característica como homem e como artista, o livro agrada pela leveza da escrita e pela sinceridade dos depoimentos de um insaciável amante, mas sempre terno, descontraído, dotado de uma fina compreensão das coisas que dizem respeito ao amor.

Num dos últimos capítulos, simbolicamente intitulado de “Invasões bárbaras”, na altura da página 283, deparamos com a tocante descrição da doença que lhe consumia lentamente o entusiasmo, a alegria de viver e criar sua arte inconfundível como cineasta e homem de teatro.

“Não posso ficar sem ocupar a minha cabeça, senão penso besteira, por causa do Parkinson. Priscilla teve de sair e voltará dentro de uma hora. Talvez eu sobreviva a esta manhã, apesar do mal-estar que sinto. Porém, há tarefas necessárias, porque estou com outra doença além do Parkinson. Erisipela! Meu principal sintoma é a fortíssima dor na perna, às vezes insuportável, que enfraquece a outra e me tira o equilíbrio. Os braços também perderam o vigor. De modo que não me levanto sozinho das cadeiras”.

Era 2011.

Cineasta do amor, Domingos Oliveira viveria ainda oito anos. Na manhã de sábado, 23, à frente do computador, em seu apartamento no Rio, o coração do artista parou de bater. Comenta-se que dizia querer morrer como Calígula, berrando: “Eu estou vivo”.

Quem haverá de dizer que não?

 

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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