O centenário de um clássico

Não é raro que grandes ficcionistas tenham se revelado igualmente grandes como ensaístas. Sob este aspecto, o inglês E.M. Forster, o russo Vladimir Nabokov e o peruano Mario Vargas Llosa, não necessariamente nessa ordem, são nomes que entraram para a história da melhor ensaística com trabalhos notáveis. Com não menor destaque, aparece, entre esses, Italo Calvino, com a diferença de que, desgarrando-se dos outros aqui citados, pelo menos um de seus memoráveis ensaios é referido à larga, mesmo por aqueles que nunca se dedicaram à literatura com maior pretensão: “Por que ler os clássicos”.

É nesse texto, de 2002, publicado, no Brasil, em 2007, pela Companhia das Letras, que aparece, entre 14 outras, a célebre definição “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”.

A definição, como se vê, ressalta uma das propriedades dos grandes livros: a capacidade de nunca serem esgotados em suas potencialidades de conteúdo, ressignificando-se através dos tempos em leituras e releituras, análises, exegeses e novas chaves de interpretação, num tipo de função literária que, à falta de melhor juízo, pode-se identificar como “sintonizadora”, permanecendo atuais e carregadas de sentido ano após ano.

Mas o ensaio de Calvino, por óbvio, vai além do verbete já muito conhecido. No segundo, como a acrescentar percepções novas ao primeiro, ele afirma: “Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los”. E, no quarto, com maior precisão, ele diz: “Toda leitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira”.

Como afeito a paradoxos, todavia, diz ele no verbete seguinte: “Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura”. É que Calvino, como pode-se ver no verbete sete, mostra-se atento ao fato de que “Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes)”.

Importante destacar, contudo, que o próprio Calvino é assertivo em reconhecer que toda definição traz em si vazios, terrenos intocados, insuficiências de que parece extrair a própria substância de suas reflexões. É nesse sentido que se pode concluir que clássicos são inesgotáveis e indefiníveis, razão por que “a única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor que não ler os clássicos”, como diz de modo aparentemente ingênuo ao final do ensaio. E é por esta razão, acrescento eu, que se deve ler a obra (ensaística, e ficcional, sobretudo) desse escritor extraordinário que contaria neste mês de outubro cem anos.

Italo Calvino nasceu em 1923, em Santiago de Las Vegas, arredores de Havana, Cuba, e transferiu-se para a Itália pouco antes de completar dois anos. Atuou nas lutas contra o fascismo durante os anos de guerra e foi membro do Partido Comunista Italiano, figurando nas lides intelectuais como uma das vozes mais respeitadas. Em 1946, depois de uma temporada em Sanremo, instalou-se em Turim, onde ingressou na universidade e realizou um brilhante trabalho de pesquisa sobre Joseph Conrad (“O Coração das Trevas”). Estreou na ficção com o livro “A trilha dos ninhos de aranha” (1947), ainda preso às narrativas tradicionais do neorrealismo italiano, forma compatível com as intenções do livro: deixar registradas as impressões e emoções como testemunha dos enfrentamentos da Resistência contra as tropas alemãs e os violentos métodos das brigadas fascistas.

Mas é a fase “adulta” de sua vida e obra que lhe dá a notoriedade como intelectual e escritor (dos maiores das seis ou sete décadas encerradas em 1985, quando morreu aos 61 anos), e que o consagram como contista, romancista e ensaísta inspirado e dedicado com sucesso a rever os procedimentos narrativos dominantes. Dessa inquietação artística, nasce uma ficção de altíssimo nível, de que os livros “Se um viajante numa noite de inverno” (1979) e “As Cidades Invisíveis” (1972) são leituras obrigatórias. Neste, Calvino imagina dezenas de comunidades fantásticas (fabulosas, talvez), muitas delas invisíveis pelos caminhos da física, algumas outras em descompasso com os fundamentos da geografia e nas quais ocorrem coisas incompatíveis com a realidade factual.

Por último, num exercício de subjetivação de resto aceitável em se tratando de literatura, tenho o atrevimento de sugerir dois títulos que me parecem ainda mais ajustados ao que se pode definir como clássicos “calvineanos”: “O Barão nas árvores” (2009) e o desconcertante “O Visconde partido ao meio” (1952), livros inquietantes, intensos, forjados à maneira de um dos gênios da literatura universal.

P.S. A obra de Italo Calvino acaba de ser reeditada pela Companhia das Letras.

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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