O Carnaval que não começou

Final de tarde, o sol já se despedindo. Olho pro chão do entorno e o que vejo sou eu. Não tem goma, spray, glitter, lixo… não tem os sinais. Sinais, é isso. Eu e você conhecemos. Aqueles, esses, os sinais, os próprios. O carnaval não teve. Pelo menos não aqui onde eu estou; sabemos que em outros locais teve sim – e como teve! Mas esses locais não comungam com a religião que eu sigo. Não em meio ao que vivenciamos, agora. Amigos indo, conhecidos partindo e rostos famosos se juntando ao outro plano. Não ter carnaval é sobre isso.

Sobre os avôs e avós que foram embora sem poder se despedir dos seus netos. Sobre os tios e tias que não puderam fazer mais nenhuma piada com os sobrinhos. Sobre os irmãos em vida que se tornaram estrelas; não ter carnaval é sobre isso. Também é sobre o nosso desejo magnânimo e egoísta de nos colocar como a medida das coisas. “Mas o vírus só pega mais idosos e gente doente”, diz alguém. O bloquinho mais bonito desse ano já foi escrito pelos Los Hermanos: é o “Bloco do Eu Sozinho”. Acertaram em cheio. Profetas.

Mas não é sobre quem ele pega, é sobre o contexto. Tem muita gente estudando e pesquisando sobre ele e ainda sem entender direito pra você dizer colocar um “só” na sua frase do meio da rua. Talvez alguém te dê relevância e acabe acreditando. Talvez essa mesma pessoa ache que não vai pegar, ou pior, que vai pegar mas vai ter uma “gripezinha” e tudo bem. A questão vai além. Imagine esse sujeito indo pra uma festa com 200, 300 pessoas? O vírus vai teleguiado pra onde quiser.

Aglomerar virou o verbo da moda, né? Todo mundo usando… e alguns até praticando, mesmo. Atire a primeira pedra quem não saiu de jeito nenhum nesses tempos loucos em que vivemos. Seja pro barzinho, pra casa do amigo, pra praia, pro restaurante… todos nós já saímos e, quer queira você ou não, ao sairmos estávamos nos expondo ao maldito. Tão e sempre. Continuamos nos expondo. A diferença agora é que o tempo, pelo menos de onde escrevo, não está para pensar uma vez. É preciso pensar bem mais que duas vezes antes de assumir os compromissos. Sorte aos que trabalham ainda ter pra onde ir todos os dias… de um ano atrás pra hoje, muitos perderam esse local. Outros o chão, e outros a vida.

É mesmo uma luta diária isso. O vírus é altamente democrático. O único viés que ele não está propenso a seguir é o de quem partilha da tríade: máscara, álcool em gel e distanciamento. Não aquele emocional, tão comum em certas relações. O físico, aquele mais difícil pra quem tem costume de abraçar, beijar e sentir o outro. Pra quem não tem, é um benefício. Ou não? O certo é que de um ano pra cá muita coisa mudou. Tivemos várias crises, dias ruins, alguns piores ainda e uma carência profunda do que a vida poderia ter sido. 

Esse carnaval é pra isso também. Repensar. Afora os misticismos de quem prefere, acho que é de forma sumária uma época atípica; outra palavra que se tornou comum, e eu passei a odiar. Vivemos em um mundo atípico. É um carnaval atípico e pra lembrarmos. Um tempo de encontrar nosso ego e passar das fronteiras que o regem, conosco. Abrir mão. Dizer não. Atipias. Coisas incomuns. Esse ano ao invés do carnaval fora de época,

não temos época para o carnaval.

E isso muda tudo.

David Augusto

David Augusto

Me conheço David e me reconheço todo dia. Sou estudante universitário, me viro por opistótonos e sou leitor-todo-dia. Acredito na essência do que vem e, sobretudo, no que o tempo e eu somos capazes. Tenho na mente o sê todo em tudo e em cada e no coração um quê de eternidade. Escrevo porque é o porquê.

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