O breve, o longo e o eterno – Renato Angelo

Existem aqueles que devotam às mudanças o cerne das análises da vida. Em seu escorço
buscando fixar parâmetros mutáveis do real vivido criando modelos dinâmicos. Tais
moldes propõem captar o caminhar perene do respirar da vida. Como o universo em
constante mutação… vivo e vibrante. Um turbilhão fervilhante de átomos em sôfrega
agonia, impelindo os empacados ao movimento, mudança, metamorfose. Rendem cultos
à instabilidade que há na impermanência, descobrindo nesta ode ao transitório o mesmo
que os budistas atribuíram ao conceito de anicca.

É comum, nestes modelos, um profundo desprezo pelas formas, pelo que há de inerte ou
tudo que remeta a um recorte temporal que venha a paralisar a grande roda dos mundos
e das eras infinitas.

São estruturas elegantes e bem convincentes, povoando nosso espírito com uma fagulha
necessária a acompanhar a dança ininterrupta do existir. Quando a vida nos toma de
assalto, quando um amor acaba, quando uma demissão inesperada nos retira da ilusão
de estabilidade, ou quando precisamos mudar de um domicílio a outro sentimos seus
efeitos. Os ciclos que se fecham são convites a profícuas oportunidades de reinvenção
do nosso ser terreno, nossas estruturas caducas e de nosso “destino”, aquilo que Mário
Quintana chamava de “o acaso metido a besta”.

Pois bem, não discuto sua validade. Aceito suas premissas e reconheço seus apelos
inelutáveis. Há algo mais, porém, dentro do enredo desse samba. É que a experiência do
humano é tão plural quanto as formas de pensá-lo.

Há, ainda, uma noção presente também na infinita ânima de homens e mulheres.
Perscruta-lhes o ser desde eras imemoriais. Desde os primeiros registros gravados em
cavernas paleolíticas, esse bicho intelectual buscou modelos estáticos da realidade.
Registros fixos do entorno. Ao fazê-lo criou uma máquina do tempo capaz de conduzir
qualquer membro da espécie a um acontecido em questão, evocando com isso a
eternidade do momento.

Há tempo temos recorrido ao subterfúgio, simples e confortável, de retornar àquele
eterno “agora” registrado em pinturas rupestres, afrescos, quadros, tintas a óleo,
aquarelas, etc. É que parece haver, no fundo de todos nós, um fascínio pelo pretérito,
signos significativos os quais fazem emergir memórias, sentimentos e percepções
subjetivas a partir de fenômenos congelados no tempo. É um tempo morto, parado, mas
que tem a virtude de mover, no próprio tempo, aqueles que o divisarem. Seu charme
consiste exatamente em não ser exato ou objetivo, mas levando consigo muito de quem
o cria. Há na escrita, nos romances e nas pinturas, por mais “fiéis” à realidade, algo
alusivo ao observador. Krishnamurti afirmava que o observado é o observador. É como
se, na composição de um momento singular, houvesse uma soma entre sujeito e objeto a

qual jogaria no abismo, irremediavelmente, todas as pretensões científicas da tão
cacarejada “neutralidade axiológica”.

Eis aí a pintura. Eis aí o registro de cotidianos e epopéias, reis e anônimos, musas e
monstros, deuses, deusas, naturezas vivas ou mortas as quais, como que para escapar ao
esquecimento, prendem os ponteiros dos relógios reivindicando atenção plástica,
quiescente… estrutural. Buscam o prolongamento de um lapso, elastecendo-o ao infinito
até que um incêndio, moral ou físico, lhes pregue a peça findando sua breve eternidade.
Ah! Mas estes momentos são preciosos. Lembro de meu encantamento quando vi pela
primeira vez a pobre Ofélia afogada por Millais (1851), evocando a obra de
Shakespeare. Como não havia lido Hamlet à época, fiz uma viagem mais aos meus
sentimentos que às memórias evocativas à obra do dramaturgo inglês. A doçura daquela
dama no seu túmulo aquático cercada de flores, guirlandas… algo ali me dizia: “Tuas
desventuras podem ensinar-te. Vê o rosto tranqüilo de Ofélia! Cria em ti uma
resignação operante frente aos teus fracassos. Obedeci. Não sem, antes, tentar
desobedecê-lo. Sou teimoso.

Quando encontrei Manet foi outro assombro. “Un bar aux Follies
Bergeres”(1881/1882)!? Meu Deus! Quantas mensagens em um só quadro… uma
memória do século XIX bem ali à minha disposição, convidando meu ser a contemplar,
entre outras coisas, o desencanto no olhar da moça. Aprendi a ver esse olhar em muitos
anônimos da minha cidade: trocadoras de ônibus, vendedoras de ingresso, atendentes de
loja e balconistas de lanchonetes de faculdade. Vi um feminismo aviltado na minha era,
pela memória de um gênio impressionista francês que registrara um agora eterno.
E por falar em feminismo que tal a “Vênus adormecida” de Giorgione (do inicio dos
1500) e as réplica e tréplica de “Vênus” de Urbino (1538) e Manet com sua Olympia
(1863), testemunhos críticos do feminino aviltado através dos séculos… masculinos
séculos. São mostras de como um momento pode refletir toda uma época, estruturas
sociais, papéis sexuais, gêneros e variados tipos de violências simbólicas.

Adoro Manet, acima de tudo. Mas tive que rir ao ver o espírito zombeteiro e surreal de
René Magritte a fazer troça de sua “A varanda” (1868-1869) com o impagável “Balcão
de Manet” (1950). Nesta obra o pintor belga nos lembra que, mesmo na arte estática da
pintura podemos quebrar estruturas “inamovíveis”. É o que parece fazer quando põe
caixões numa varanda, antromorfizados, no lugar da família burguesa de Manet, como
quem diz: as estruturas não são eternas, Manet! (Nem as fortunas!)

Temo estar sendo muito enfadonho ao leitor, mas não posso deixar de comentar mais
um querido artista: Edward Hopper. Ninguém pintou a solidão das grandes cidades
como ele. Por que pintar a solidão? Por que estender esse momento? Por que levar
“eternamente” ao público de uma dor particular e momentânea? Para mim a resposta é
simples: me sinto mais humano vendo dores minhas refletidas em um anônimo. Tenho
mais catarse aristotélica vendo “Morning sun” (1952) do que assistindo a qualquer
última melancolia de Lars Von Tries. Há algo de conforto naquela mulher ao sol, algo

que une todos os humanos e dilui as dores da solidão. Algo que, sendo imóvel, dialoga
com o dinâmico. Todos sofremos e sentimos solidão, seja esta propriamente física ou só
psicológica! Isso acompanha nossa espécie através dos milênios. (E como é fácil nos
sentirmos sós no Brasil atual! Nossa distância se oculta em uma enganosa densidade
demográfica. Desculpe a digressão, amigo/a leitor/a… sigamos.)

A física quântica vem afirmando que passado, presente e futuro estão unidos em uma
fusão eterna. Sendo assim aproveitarei os dois modelos: o apreço ao
impermanente/anicca dos budistas e o deleite de retratos de momentos congelados por
tinta. Um me lembra que o momento é fugaz… que não devo criar apegos. O outro me
lembra que um simples momento pode ser eterno.

Aos que causei enfado, peço desculpas pela demora. Aos que perceberam que fui breve,
perdão por não haver como abordar pinturas orientais nesta crônica. É que, além de
tempo temos de atentar também ao espaço. Exorto a ti então, leitor/a, que cuide das
pinceladas da tela de tua vida sem deslembrar do tempo e do espaço. Estas molduras
que a todos nos enquadram.

Renato Angelo

Mestre em políticas públicas, professor universitário, pesquisador, poeta e contista

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