O BRASIL ESTÁ MATANDO O BRASIL

“O Brasil não conhece o Brasil,
O Brasil nunca foi ao Brasil” […]

“O Brasil não merece o Brasil,
O Brasil tá matando o Brasil”…

Elisa Regina, “Querelas do Brasil

Por este mundo, vasto mundo crescem o ódio, a discriminação, a hipocrisia e o fundamentalismo, em heróica cruzada contra o preconceito.

Chamar alguém de gordo, magro ou feio deixou de ser um gesto afetivo de amizade confiante para assumir o peso de intolerável discriminação. E dar motivo para que essa classificação estética pejorativa possa abrir as barras da justiça e oferecer a um juiz a oportunidade para construir a exegese “narrativa” que o levará às manchetes midiáticas.

Em uma novela, na qual o autor enfiou lições exemplares de cidadania pós-moderna, uma personagem, que faz o papel de uma psiquiatra (aliás, visivelmente carecida de uma análise amplo espectro), vai visitar uma paciente na maternidade e lhe dá de presente para a filha recém-nascida três sapatinhos de crochê. Em vez do tradicional sapatinho rosa, como seria o caso, segundo uma tradição atualmente contestada, oferece-lhe pares de branco, rosa e azul. E explica com aquele ar profundo, muito Foucault: “— Para que ela faça as suas opções e escolha a cor que preferir”…

O argumento da meritocracia apontado, na universidade, como condição da seleção dos melhores, foi associado aos privilégios de uma elite burguesa, empenhada na reprodução do saber. Essa estratégia de dominação intelectual transforma a educação em instrumento eficaz de uma guerra ideológica sem tréguas. Os reprovados em exame tornaram-se exemplos vivos da solerte discriminação social de um processo educativo que visa perpetuar o “status quo” e os privilégios da classe dominante.

Dominar idiomas estrangeiros demonstra vaidade inaceitável em uma sociedade na qual a maioria sequer fala uma língua de forma inteligível. Pode ser, bem ao contrário, a manifestação de vocação ancestral para a submissão, que nos levou, no passado, a padecimentos, sem mercê, nas mãos do colonialismo lusitano.

A especialização profissional é encarada, por sua vez, em círculos concêntricos mais combativos, como uma forma iníqua de retirar o essencial da aprendizagem e preencher esse vazio com um notório pragmatismo utilitário. Substituir os questionamentos sobre temas sociais associados à luta de classes pelo saber frio de situações quantificáveis é procedimento reconhecido, por unânime convergência de juízos, como alienação a ser enfrentada nas universidades, nas empresas e nos desvãos empregatícios do Estado.

Colocar corretamente os pronomes desta língua portuguesa, inculta e bela, transfigurou-se em atitude preconceituosa, com a imposição de regras que não foram submetidas a um “coletivo” habilitado para a construção de um instrumento comum e democrático de expressão.

A cultura denominada discriminatoriamente de erudita teve o seu fim decretado nos bailes funks ou pelas duplas sertanejas, em clima participante nas lajes das comunidades. Este terá sido, sem dúvida, avanço considerável para a reconstrução deste Brasil “exonero” em permanente e continuada desconstrução.

Às vezes dá para sonhar com os paraísos de unânimes preferências culturais construídos na China, com Mao, na Rússia com Stálin, em Cuba com os irmãos Castro, na Venezuela, com Chavez… Ainda chegaremos lá.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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